O que é a nova onda da ‘body neutrality’, um meio termo entre odiar e amar o próprio corpo

O discurso que prega que amemos nossos corpos se alastrou. Mas há quem defenda outra abordagem: neutra, de aceitação e sem culpa

     

    Discursos recentes, feministas e de combate à gordofobia, têm encorajado mulheres a amarem seus corpos. Essa atitude positiva em relação ao próprio corpo é proposta e percebida como um ato revolucionário. O objetivo é empoderar as mulheres e questionar o padrão que define o culto à magreza como a única forma possível de beleza.

    Há, no entanto, um movimento nos EUA que identifica problemas e simplificações nessa retórica. Ele quer substituir a positividade pela “body neutrality” (neutralidade corporal, em uma tradução literal). Isso mostra que a onda de amar o próprio corpo, chamada em inglês de “body positivity”, já passa por uma revisão no país.

    A principal questão é que a “body positivity” pode criar, muitas vezes, a obrigação de que se passe a ter uma atitude positiva sobre o próprio corpo. Ativistas e pesquisadores afirmam que isso é muito mais complexo do que uma mudança de mentalidade voluntária, possível de ser feita da noite para o dia.

    A “body neutrality” defende um objetivo mais realista: simplesmente não odiar o próprio corpo. Em outras palavras, ser capaz de mudar o foco de uma cultura tão obcecada pelo corpo perfeito para a mera neutralidade já é visto como um avanço.  

    Qual o problema com o discurso ‘ame seu corpo’

    Em um texto publicado em setembro de 2016 no site “Everyday Feminism” (cuja versão traduzida pode ser lida aqui), a escritora Caleb Luna expõe o que considera falho na abordagem da positividade.

    Para ela, a estratégia coloca uma pressão desnecessária na ideia de atingir a aceitação do corpo de maneira sincera e descomplicada. O esforço de amar o próprio corpo todos os dias também pode apagar progressos já feitos na direção de uma autoimagem mais positiva que não esteja necessariamente vinculada à aparência física.

    Segundo Luna, esse imperativo ignora os fatores externos que nos fizeram odiar nossos corpos em primeiro lugar - por exemplo, o padrão de beleza e a indústria de cosméticos - e o fato de que esse dificilmente é um trabalho que se possa realizar sozinho. Segundo a escritora, há um ambiente cultural intolerante aos corpos fora do padrão, que está conspirando (e lucrando) para que seja impossível nutrir esse amor próprio.

    “Embora eu tenha uma enorme quantidade de amor próprio, esse amor está mais ligado a quem eu sou do que ao corpo no qual eu existo”

    Caleb Luna

    Escritora 

    Também há quem defenda que uma mudança maior de paradigma é necessária. Para esses, o fato de sermos “obrigados” a amar nossos corpos para conseguirmos atribuir valor a nós mesmos também é um problema, porque continua a fazer do corpo o centro da discussão. 

    Quando venerar o próprio corpo se torna obrigatório, o mal-estar criado por uma celulite é substituído pela impossibilidade de ver beleza em si mesmo a todas as horas do dia ou da noite, como define um artigo do site de moda, comportamento e cultura Man Repeller.

    O que querem os adeptos da neutralidade

    Pensar menos sobre o próprio corpo e apenas aceitá-lo, em vez de amá-lo, são bandeiras de quem considera a neutralidade mais saudável. A ideia é eliminar a sensação de fracasso por não ser capaz de se amar - que é comparada por quem critica a positividade ao fracasso de não ter um corpo perfeito.

    Dessa forma, a neutralidade consiste em um meio caminho entre as duas exigências.

    “Você ainda pode gostar de comer direito, se mexer e se cuidar, mas com a neutralidade, você estará fazendo isso com aceitação e alegria, não de maneira forçada e perfeccionista” disse a naturopata Cassie Mendoza-Jones à revista “Elle” australiana. Essa mentalidade menos estressante tem potencial para diminuir o peso da vontade de ser outra pessoa, de ter outro corpo.

    Como a positividade ainda pode ser uma ferramenta

    O Brasil ainda é um país de rígidos padrões de beleza - que recaem mais sobre as mulheres - e de culto à boa forma e à juventude. Aqui, o discurso que evoca o amor ao o próprio corpo continua sendo útil para tornar normal e aceitável todo tipo de corpo.

    Mesmo entre sites e revistas estrangeiros que já falam em “body neutrality”, há quem enxergue a positividade como um estágio intermediário para a etapa “neutra”, em que o corpo se torna menos importante.

    Nesse sentido, a diversidade seria um passo para cessar a obsessão causada por um padrão único. Mas tem sido distorcida e apropriada de maneira a continuar reforçando um padrão não tão diverso assim (que ainda exclui mulheres negras, trans ou muito mais gordas do que uma plus size “padrão”, por exemplo).

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