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Doria e MBL: qual o peso da relação entre um governante e um movimento político

Prefeito de São Paulo tentou ficar neutro na troca de acusações entre sua militância e um de seus secretários. Dois pesquisadores analisam os limites na relação entre um político e esses grupos

     

    A troca de acusações entre o vereador Fernando Holiday (DEM) e o secretário da Educação da cidade de São Paulo, Alexandre Schneider, colocou o prefeito João Doria (PSDB) diante de uma escolha. Ficar ao lado da militância ou demonstrar apoio a integrantes do seu governo.

    Em 3 de abril, o vereador divulgou em suas redes sociais que visitara escolas municipais para “verificar se estava havendo doutrinação por parte dos professores”. O parlamentar é um defensor do projeto de lei conhecido como “Escola Sem Partido”, em tramitação na Câmara dos Deputados, que propõe regras para evitar uma suposta “doutrinação política e ideológica” dos alunos.

    Schneider, por sua vez, disse que Holiday “exacerbou suas funções”. “[Ele] não pode usar de seu mandato para intimidar professores”, afirmou. O vereador negou ter havido intimidação e cobrou uma retratação pública do secretário. “Minhas visitas às escolas foram cordiais e sob supervisão dos responsáveis”, respondeu.

    Ataques virtuais e silêncio de Doria

    Holiday é um integrante do MBL (Movimento Brasil Livre), fundado em 2014. Ao lado do Vem Pra Rua, o grupo foi um dos articuladores das manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Nas eleições de 2016, o MBL apoiou a candidatura de Doria e agora é um defensor público da ideia de que o tucano dispute a Presidência da República em 2018. Doria nega ter planos eleitorais, mas já sinalizou que pode concorrer ao governo do Estado se houver um pedido de Geraldo Alckmin (PSDB), seu padrinho político.

    Após a resposta de Schneider a Holiday, militantes do MBL deram início a sucessivas postagens com ataques a Schneider nas redes sociais. Em 7 de abril, Schneider pediu demissão do cargo, alegando falta de respaldo do prefeito, segundo a “Folha de S.Paulo”, mas sua demissão não foi aceita pelo prefeito. Ao jornal, Doria disse que o caso estava “superado” e que houve “estresse de lado a lado”.

    Doria levou alguns dias até se manifestar publicamente sobre a discussão e optou pela tentativa de ficar na coluna do meio. Para o prefeito, um vereador tem direito de visitar escolas, mas sugeriu que Holiday procurasse a prefeitura antes de falar algo a respeito.

    “Ambos exacerbaram e ambos tinham razões”, afirmou Doria na quarta-feira (12). Desde o início dos embates, o secretário não se manifestou mais sobre o assunto.

    Ao Nexo, dois pesquisadores analisam quais limites devem haver na relação entre um chefe de Executivo e grupos simpatizantes. São eles:

    • João Quartim de Moraes, cientista social e professor colaborador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
    • Rogério Baptistini, sociólogo e professor de ciência política na Universidade Presbiteriana Mackenzie

    Como um chefe de Executivo deve se relacionar com os movimentos políticos?

    João Quartim de Moraes Se um indivíduo chega a um governo, ele está representando interesses e forças. Em parte, Doria é prisioneiro das suas ideias. Não há como um político, um candidato a um cargo público, não ter posição política e não se apoiar em forças políticas.

    É evidente que, estamos discutindo aí o peso específico do MBL e o espectro de forças que Doria conseguirá aglutinar para se lançar candidato em 2018. Acho que é muito difícil para ele, por enquanto, afastar qualquer aliado. Um ano e meio antes das eleições perder apoiadores é ruim. Ele terá que fazer essa média. É uma média em que ele procura não se identificar demais com esse macartismo, com essa intolerância com que o MBL atua.

    Por ora, Doria ainda surfa na vitória que teve. É importante lembrar que ele teve menos votos do que o contingente de eleitores que não foi votar. Isso mostra que ele não foi uma unanimidade. Não sei como deveriam proceder os políticos em geral. O político da direita, que está ligado ao capital financeiro, vai agir de um jeito diferente daquele que vai investir em mudar questões sociais, ainda que minimamente. Os critérios vão ser diferentes. Não há política neutra.

    Rogério Baptistini  Do ponto de vista estrito da teoria do Estado, prefeitos, governadores e presidentes devem representar o interesse geral. As facções (partes da sociedade política, na definição da teoria política) se organizam para eleger alguém. Uma vez eleito, o chefe do Executivo se desvincula das facções e atende ao interesse público.

    Doria ainda se coloca mais como um candidato a cargos futuros do que como um prefeito. O governo Lula, por exemplo, também colocou interlocutores privilegiados e acabou ganhando ressentimento popular por parecer governar só para uma parte e não para o todo. O PT, por sua própria origem e natureza, fez uma ligação direta entre movimentos e governo. Agora, Doria faz isso com o outro lado.

    Cria-se a uma relação de dependência (entre políticos e os grupos de apoio) e uma tentativa de pavimentar caminhos a partir de setores que já estão conquistados. Isso é ruim para a nossa noção de vida pública. Quando políticos eleitos se colocam como representantes de facções, se traz para ordem pública os dissensos que estão na vida social e aí caímos numa situação de guerra de todos contra todos.

    A política perde a sua função. Esse tem sido nosso grande problema na contemporaneidade. O sistema de facção não passa de um sistema de eleição, uma regra de escolha. Uma vez escolhido, as facções deveriam desaparecer. É difícil separar o homem da sua realidade.

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