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Como os nissei reconquistaram um patrimônio confiscado há 70 anos pelo Brasil

Escola da comunidade de imigrantes japoneses em Santos foi perseguida por Getúlio Vargas, até ser expropriada e incorporada ao patrimônio da União, em 1946, logo após a Segunda Guerra, e reavido só em dezembro de 2016

    Depois de 70 anos, o governo brasileiro restituiu, em dezembro de 2016, um casarão de dois pisos que havia sido confiscado da comunidade japonesa em Santos, no litoral sul de São Paulo, logo após a Segunda Guerra Mundial.

    A construção — erguida em 1930 sobre um terreno que havia sido adquirido um ano antes por membros da colônia de imigrantes com ajuda do governo japonês — abrigava uma escola e um escritório do consulado.

    Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em 1942 — ao lado dos Aliados, capitaneados por EUA, Reino Unido e União Soviética, e contra o Eixo, formado por Japão, Alemanha e Itália — os imigrantes japoneses em solo brasileiro passaram a ser tratados como inimigos.

    O confisco do casarão se deu a título de “indenização de guerra”, logo após o fim do conflito, em 1946. A Escola Japonesa foi então fechada, os móveis, leiloados e os alunos e membros da comunidade, expulsos.

    Mais do que o imóvel em si, o local tem o valor de manter viva a lembrança de um período importante da história brasileira, que marcou a vida da maior comunidade japonesa fora do Japão.

    Qual o contexto do confisco

    O Nexo conversou sobre a Escola Japonesa com o doutor em história e membro do Centro de Memória da Praia Grande, Rafael Silva e Silva, especialista na educação japonesa na Baixada Santista e no Vale do Ribeira.

    “A escola, durante seu período de funcionamento, teve um importante papel no cotidiano da colônia japonesa da cidade, pois era o principal estabelecimento de difusão da língua japonesa, além de ser responsável pela centralização do ensino japonês na região e ser a sede da Associação Japonesa de Santos, responsável pelos interesses da colônia”, disse Rafael.

    Com a entrada do Brasil na guerra, o governo Vargas obrigou a remoção de todos os japoneses que vivessem numa área de 50 quilômetros de distância da costa, em 1943.

    Mais de 4.000 imigrantes japoneses tiveram 24 horas para reunir seus pertences e subir a bordo de trens disponibilizados pelo governo, que os levariam para o interior do Estado.

    Desde 1942, submarinos do Eixo vinham torpedeando e levando a pique navios da marinha mercante na costa brasileira. Para se defender, o governo ordenava blecautes completos nas edificações da orla da praia de Santos, e temia que imigrantes japoneses, italianos e alemães pudessem se comunicar com embarcações inimigas, orientando ações hostis.

    Com a remoção forçada, muitos japoneses perderam propriedades para sempre ou tiveram de vendê-las a brasileiros por preços muito abaixo do mercado. A escola, vazia, foi tomada três anos após a expulsão dos japoneses da costa. O regresso desses imigrantes para a região só foi autorizado a partir de 1947.

    Como os japoneses vieram para o Brasil

    O primeiro navio com imigrantes japoneses, o Kasato Maru, aportou em Santos em junho de 1908, depois de ter partido 52 dias antes do porto japonês de Kobe. Ele trazia a bordo 781 pessoas.

    À época, os japoneses eram mão de obra excedente em seu país de origem, mas serviam para substituir o trabalho escravo, que havia sido extinto no Brasil apenas 20 anos antes. Como o acordo era conveniente para os dois países, o Brasil abriu as portas, num programa de cooperação mútua que visava a reforçar sobretudo o trabalho agrícola no interior de São Paulo e do Paraná.

    Muitos japoneses que viviam da pesca em seu país de origem acabaram ficando no litoral de São Paulo, onde fundaram uma colônia forte até os dias de hoje.

    Qual a importância da educação japonesa

    Silva explica que construir escolas era um dos sinais de status das comunidades japonesas, que atribuíam grande importância à educação.

    Em relação às escolas japonesas, o historiador explica que “em 1932, levantamentos apontaram que havia 187 escolas oficializadas. Em 1938, pouco antes do governo restringir o funcionamento de escolas estrangeiras no país, especulava-se a existência de quase 500 escolas, entre oficiais e não oficiais, contando com um grande número de professores e alunos”.

    A Escola Japonesa de Santos centralizava todos os assuntos educacionais da colônia na região. A manutenção do ensino da língua e dos valores culturais japoneses eram importantes na comunidade.

    No livro “Corações Sujos”, o escritor e jornalista Fernando Morais diz que muitos membros da comunidade japonesa no Brasil sonhavam com uma vitória do Eixo na Segunda Guerra. Muitos inadaptados sonhavam em voltar a seu país natal, por isso era importante manter os laços culturais e linguísticos com o Japão.

    Morais também relata a política de perseguição sistemática ao ensino da cultura japonesa nas colônias. Vizinhos delatavam à polícia política de Vargas a existência de grupos escolares improvisados em fundos de quintal, que eram fechados, e seus membros, presos.

    Qual o estado atual do casarão

    Hoje, a colônia japonesa mantém no local a sede da Associação Japonesa de Santos, “uma entidade civil sem fins lucrativos, que tem como objetivo promover a integração da comunidade nipo-brasileira, a preservação e divulgação da cultura japonesa, e o ensino da língua japonesa”.

    A cidade ainda mantém uma colônia unida e alguns imigrantes de primeira geração ainda relembram as histórias da origem do casarão.

    O termo de cessão do imóvel foi assinado em 2006 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O local passou por uma grande reforma e, em 2008, foi reinaugurado com a presença do príncipe herdeiro Naruhito. Em dezembro de 2016, o presidente Michel Temer publicou em “Diário Oficial” a devolução definitiva do imóvel.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que a Escola Japonesa havia sido tomada por Getúlio Vargas, em 1946. A data está correta, mas o presidente à época já era José Linhares, que governou interinamente por apenas três meses e cinco dias, após a deposição de Getúlio em 1945.

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