O que é ‘mindfulness’. E quais os benefícios de sua introdução na saúde pública

Não estamos atentos ao que fazemos durante quase a metade do tempo em que estamos acordados. A atenção importa - inclusive para a saúde

     

    Prestar total atenção no que acontece na mente e no corpo é um estado mental desafiante em tempos como o nosso, de estímulos e hiperconectividade. Quem consegue atingi-lo, por meio de técnicas como meditação, está lidando com algo conhecido como mindfulness, que pode ser traduzido como atenção plena.

    A importância da prática meditativa na tradição e cultura asiáticas vem principalmente do budismo. A novidade é que agora há cada vez mais interesse acadêmico, midiático e de pessoas comuns em relação ao tema em todo o mundo.

    A busca pelo estado de mindfulness tem sido, dessa forma, mais terapêutica do que religiosa: médicos e especialistas em saúde pública defendem a aplicação em tratamentos e sua implementação em sistemas públicos de saúde.

    No que consiste e como funciona

    Além da atenção plena no que se faz enquanto se faz, o estado de “mindfulness” deve ser acompanhado pelo exercício de fazer tudo como se fosse a primeira vez. Esse treino mental, como explica Marcelo Demarzo, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), é chamado de “mente do principiante”.

    O estado de mindfulness tenta lidar com dois problemas comuns do dia a dia de boa parte das pessoas:

    • Estar desatento. Segundo Demarzo, não estamos atentos ao que fazemos em 47% do nosso tempo
    • Reagir a situações no “piloto automático”, resgatando hábitos e emoções do passado não desejáveis

    As técnicas meditativas usadas para treinar esse estado de atenção usam o corpo. A mais comum é centrada na respiração - usá-la como ponto de atenção, de olhos fechados, e tentar evitar que a mente “viaje”, se concentrando apenas no próprio ato de respirar. O mecanismo básico de todas as técnicas para atingir mindfulness tem a ver com essa autorregulação da atenção, segundo o médico.

    Atualmente, há cursos e programas de “mindfulness” e meditação, que ensinam o conceito e as técnicas e têm, em geral, duração de 8 semanas. A ideia é que, a partir daí, esse estado mental passe a ser incorporado ao dia a dia, no trabalho e em relações interpessoais, e não só enquanto se medita. 

    Qual a aplicação na saúde

    Prevenção e promoção de saúde

    Treinar a habilidade de mindfulness em pessoas que ainda não têm doenças faz com que, a médio e longo prazo, elas tenham menos chance de desenvolvê-las - principalmente no caso de doenças de saúde mental como depressão, ansiedade e estresse crônico.

    Tratamento de depressão e ansiedade

    Exercitar o estado de mindfulness evita que uma pessoa que já apresenta um quadro depressivo tenha novas crises. O estado ruminativo (quando pensar exaustivamente em uma situação leva uma pessoa a deixar de fazer coisas e a afasta das outras), que muitas vezes leva ao quadro depressivo, é um processo mais fácil de ser percebido por uma pessoa atenta a suas próprias emoções, reações e atividades.

    Dor crônica, hipertensão, diabetes

    O estado de atenção melhora a aderência do tratamento dessas doenças e também a recepção dos químicos usados no tratamento, além de regular por si só aspectos fisiológicos. Ele pode agir diretamente no controle glicêmico e na pressão arterial, por exemplo.

    “Hoje está muito claro que não existe distinção entre cérebro e corpo: quando respondemos melhor ao estresse, encarando de maneira mais saudável a uma situação estressante, essa mudança de perspectiva traz mudanças orgânicas”, diz Marcelo Demarzo. “O organismo produz menos radicais livres, afeta menos o sistema imune, gera menos inflamação. O mecanismo psicológico atua no corpo”.

    Segundo o professor da Unifesp, a técnica meditativa provoca efeitos diretos: ela ativa o sistema nervoso parassimpático e faz com que a pressão arterial baixe, com que haja menor liberação de cortisol (o “hormônio do estresse”) e o controle da glicemia.

    O estado do debate no Brasil

    Já existe, no Sistema Único de Saúde brasileiro, uma política aprovada que prevê a incorporação de práticas como acupuntura, uso de plantas medicinais e Homeopatia ao atendimento. A Política Nacional de Práticas Integrativas Complementares poderia abranger também mindfulness, uma vez que menciona meditação.

    O que falta para que a implementação se concretize, segundo o professor da Unifesp, é investimento - tanto na formação de profissionais quando no pagamento de quem promove grupos de mindfulness - além de um plano estratégico. 

    “Para todas essas práticas, a aplicação é muito heterogênea [no Brasil]. Depende muito do gestor municipal. Se ele tiver conhecimento do assunto e se importar com isso, investe uma parte do orçamento. Se é um gestor que nunca ouviu falar ou tem um certo preconceito, ele não investiria”, diz Demarzo. “Existe o arcabouço político-institucional, mas em termos de implementação, é muito caótico”.

    O programa “Mente Aberta”, coordenado por Marcelo Demarzo, é um núcleo pioneiro no país de mindfulness e promoção de saúde. 

    O núcleo promove experiências para que técnicas de mindfulness cheguem de vez por aqui e entrem no imaginário brasileiro, combatendo o desconhecimento e mesmo o preconceito que muitas vezes é associado a práticas meditativas, inclusive por profissionais da área médica.

    O exemplo do Reino Unido

    Os programas de mindfulness que se popularizaram mais recentemente nasceram nos Estados Unidos. Já no fim dos anos 1970, o professor começou a ensinar como reduzir estresse em  pacientes com base no exercício do estado de atenção plena na Universidade de Massachusetts. 

    Mas é o Reino Unido o maior paradigma de implementação de mindfulness no sistema público de saúde. Atualmente, a prática já é bem estabelecida no sistema britânico e é oferecida aos pacientes desde 2009. 

    Quem é contra

    É inegável que a meditação e as técnicas de mindfulness entraram na moda. Em um artigo de 2016 do jornal “El País” assinado por Eva Carnero, a extensão dos benefícios que elas trazem é questionada. A jornalista entrevista especialistas que questionam a validade dos estudos disponíveis sobre a garantia de efeitos nesse tipo de tratamento.

    Marta Campos Ruano, chefe da ala de Psicologia do Hospital de Zarzuela, em Madrid, considera que técnicas de mindfulness podem ajudar como tratamento complementar para problemas de saúde mental. Mas alerta que também podem ser um fator desencadeante para que se descubra um transtorno.

    Além disso, em mãos erradas, segundo Ruano, a técnica pode piorar a situação. Um profissional despreparado para lidar com a condição do paciente pode piorá-la, causando seu isolamento ou uma dependência patológica.

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