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Por que é mais difícil diagnosticar mulheres com déficit de atenção

Transtorno se manifesta de forma diferente a depender do gênero e idade do paciente

    A escritora Maria Yagoda estava no terceiro ano da faculdade quando recebeu um diagnóstico de déficit de atenção. Geralmente identificado em crianças, principalmente meninos, a constatação a surpreendeu.

    Em um artigo publicado no site americano The Wire, Yagoda contou que “a ideia de que jovens adultos, mulheres em particular, tenham déficit de atenção evoca ceticismo”.

    Isso acontece porque o diagnóstico é feito por meio de buscas de sinais específicos. Por exemplo: a hiperatividade, sintoma tipicamente manifestado por jovens meninos.

    A questão está no fato de que o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) pode atingir também meninas e mulheres mais velhas - que irão manifestar o problema de forma diferente.

    Como consequência, muitas garotas com TDAH não são diagnosticadas como deveriam, pois especialistas estão buscando por sinais errados. 

    “Por duas décadas que precederam meu diagnóstico, nunca achei que meus sintomas eram sintomas. Na verdade, considerava características - bagunça, esquecimento, dificuldade de concentração, perda constante de documentos - eram falhas constrangedoras pessoais”

    Maria Yagoda

    escritora, em artigo no site The Wire

    O que é o déficit de atenção

    O TDAH é um distúrbio neural, que pode ser causado por predisposição genética, entre outros fatores. Ele altera algumas funções do cérebro, de forma que as pessoas com o transtorno têm mais dificuldade para realizar algumas funções, como, por exemplo, focar em uma coisa só durante um período de tempo. Os sintomas mais comuns são desatenção, inquietude e impulsividade. 

    O transtorno, no geral, passou a ser bastante debatido na sociedade quando se constatou um abuso nos diagnósticos, com consequente medicação desnecessária de crianças. O problema é que, enquanto o debate se concentrava no uso demasiado de remédios, outra importante questão passava despercebida: as meninas que deixam de ser diagnosticadas.

    Pesquisas foram feitas com meninos brancos

    Quando Maria Yagoda compartilhou seu diagnóstico com colegas e amigos, as reações recebidas mostravam o pouco conhecimento que se tem sobre o transtorno no geral. “Mas você é inteligente!” ou “você terá que tomar remédios que emagrecem?” foram algumas das respostas recebidas pela escritora. TDAH nada tem a ver com inteligência. Tampouco tem a ver com ser ou não uma criança agitada.

    Para a psicóloga Ellen Littman, autora de “Understanding Girls with ADHD” (entendendo garotas com TDAH), o equívoco se dá pois boa parte do que se sabe hoje sobre o transtorno é consequência de pesquisas feitas exclusivamente com garotos novos na década de 1970.

    “Esses estudos foram feitos com base em meninos novos super hiperativos que eram levados para as clínicas. Os critérios de diagnósticos foram feitos com base nesses estudos. Como resultado, esses critérios ‘sobrerrepresentam’ os sintomas que você vê em jovens garotos, o que torna difícil o diagnóstico para meninas, a não ser que elas se comportem como meninos hiperativos”

    Ellen Littman

    Psicóloga, no livro ‘Understanding Girls with ADHD’ (entendendo garotas com TDAH)

    Em seu livro, publicado em 1999, Littman explica alguns comportamentos típicos de mulheres com TDAH. Elas geralmente são desorganizadas, dispersas, esquecidas e introvertidas. Muitas delas sofrem de ansiedade e depressão.

    “Por muito tempo, essas garotas viram suas dificuldades em priorizar, organizar, coordenar e prestar atenção como falhas de caráter. Ninguém disse a elas que era neurobiológico”

    Sari Solden

    terapeuta, no livro ‘Women and Attention Deficit Disorder’ (mulheres e o déficit de atenção)

    Além disso, explica a especialista, o desenvolvimento do transtorno parece funcionar de forma inversa em meninos e meninas. Enquanto os sintomas diminuem em garotos conforme chega a puberdade, em garotas é o contrário: eles aumentam com o nível de estrogênio no corpo.

    Mesmo que os sintomas estejam presentes em mulheres desde cedo, pode ser que demorem a se manifestar. No geral, são mascarados quando as meninas têm uma boa estrutura familiar. Tornam-se mais evidentes, porém, quando elas deixam a casa dos pais para a faculdade e precisam assumir mais responsabilidades.

    “Psiquiatras, pais e educadores não suspeitam que uma garota bem-comportada - para não falar uma mulher bem-sucedida - possa ter um transtorno geralmente associado a garotos com níveis de hiperatividade tão altos quanto aulas de queimadas na educação física”

    Maria Yagoda

    escritora, em artigo no site Broadly

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava de forma assertiva que o TDAH tem causas genéticas. Na verdade, especialistas acreditam que, entre os fatores que levam ao transtorno, está a predisposição genética. O texto foi corrigido às 17h30 de 11 de abril de 2017.

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