Ir direto ao conteúdo

Por que os países se juntam em blocos: um olhar sobre a América Latina

Embora com problemas e barreiras estruturais que impedem seu avanço, o regionalismo é parte importante da economia e da aproximação política

 

Mercosul, Unasul, Alba, OEA. Essas e mais tantas outras siglas fazem parte do vasto leque de blocos regionais na América Latina, muitos deles com a participação brasileira. Onde um começa e o outro termina, para que servem e por que novos são criados se vários já existem?

Alguns especialistas na área se dedicam a analisar o tema. O argentino Andrés Malamud, por exemplo, destaca que vários desses blocos se sobrepõem e são descentralizados — ou seja, nenhum governo quer tomar a frente de sua condução para não arcar com custos políticos.

Talvez por isso seja natural, também, a existência de um sentimento de que o regionalismo latino-americano não vai para frente, não se desenvolve e nem traz grandes benefícios para seus membros.

Em 2014, durante sua campanha presidencial, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) pregou o fim do Mercosul, bloco que disse considerar “anacrônico” e que não serve a “nenhum interesse dos brasileiros”.

Entre os seus argumentos, está a ideia de que há pouca “complementaridade” entre seus membros — isto é, o que se produz em um não “casa” com o que se produz em outro. Se uma economia cresce, não necessariamente as vizinhas vão se aproveitar disso.

Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em conjunto com a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe) concluiu que, de fato, “a integração das cadeias produtivas no subcontinente [América do Sul] ainda é muito incipiente”. Mas complementa dizendo que há “potencial de desenvolvimento”.

O Mercosul é um dos exemplos mais próximos e discutidos no Brasil, mas existem diversas outras iniciativas de integração na região.

O Nexo listou algumas delas e conversou com o professor e coordenador da graduação em relações internacionais da Universidade de Brasília, Roberto Goulart Menezes, para entender os objetivos da integração na região, quais fatores influem sobre esse processo e por que existe esse sentimento negativo com relação aos blocos. Ele também coordena o Núcleo de Estudos Latino-Americanos na UnB e já foi coordenador do Núcleo de Estudos do Mercosul na mesma universidade.

As principais iniciativas de integração

Mercosul

Um bloco primordialmente econômico, que tenta criar um mercado comum entre seus membros (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, além da Venezuela, suspensa). Isso implica na eliminação de tarifas alfandegárias, na adoção de uma tarifa comum para comércio com países externos, na livre circulação de capital e trabalho e na adoção de uma política comercial comum. Ainda está longe de implementar tudo isso.

Unasul

Uma comunidade política que inclui todos os 12 países da América do Sul. Funciona por conselhos temáticos que vão desde defesa até ciência, tecnologia e inovação. Tenta criar uma plataforma de aproximação e convergência política na região.

Comunidade Andina

Uma espécie de bloco equivalente ao Mercosul para os países andinos — Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Trata-se de um mecanismo de integração econômica que busca desenvolver o comércio, a produção e os investimentos mútuos, além de criar a livre circulação de pessoas.

OEA

Abrange todos os 35 países das Américas, e tem o objetivo de promover a aproximação política e diplomática de todos, bem como criar um espaço de comunhão jurídica entre seus membros. É da Organização dos Estados Americanos, por exemplo, o sistema que permite a denúncia contra Estados que praticam violações de direitos humanos.

Aladi

Bloco com objetivos econômicos que tenta criar um grande espaço de livre-comércio na América Latina, composto por treze países — entre eles o Brasil e o México. Até hoje, conseguiu diminuir barreiras tarifárias entre seus membros, sem estabelecer um livre-comércio de fato.

Alba

A Aliança Bolivariana abrange aspectos econômicos e políticos. A ideia é se afastar do livre-comércio e buscar o desenvolvimento com a criação de instituições focadas no combate à pobreza e desigualdade econômica de seus membros, diminuindo a dependência regional de potências externas.

Caricom

Uma espécie de bloco equivalente ao Mercosul formado por países caribenhos, com objetivos econômicos e de desenvolvimento. A diferença é que a região criou uma área de livre-comércio para estimular suas produções internas, sem almejar criar um mercado comum como na América do Sul.

Por que países criam blocos regionais

Embora a América Latina seja a segunda região do mundo onde a iniciativa de integração regional é mais desenvolvida — ficando atrás apenas da Europa —, ela não é a única onde os blocos se misturam.

 

A imagem acima tenta colocar em um mesmo mapa algumas das várias iniciativas de integração regional ao redor do mundo, mostrando como elas se entrelaçam e se sobrepõe.

A ideia principal é, economicamente, permitir um fortalecimento mútuo de todos os membros ao incentivar o comércio interno ao bloco. Mas as aproximações podem ter objetivos exclusivamente políticos, também.

O professor Roberto Goulart Menezes explica que essa tendência de aproximação vem “desde o final dos anos 1950, mais precisamente em 1957, com o Tratado de Roma”, que criou a Comunidade Econômica Europeia, mas chegou à América Latina com um certo atraso. Desde então, passou a ser uma das principais ferramentas na busca do desenvolvimento econômico regional.

“A América Latina ingressa nesse debate 12 anos depois, quando começa a discutir a formação da Alalc, uma área de livre-comércio”, diz Menezes. “Essa estratégia esteve associada ao debate da Cepal, que tinha de um lado a substituição de importações — o que implicava num fechamento de mercado, protecionismo — e uma recomendação para que esses países começassem a se aproximar.”

Após um período de crise nos anos 1970, o debate voltou a ganhar força na região no fim da década de 1980, já em um novo contexto: a queda da União Soviética, o fim da Guerra Fria e a expansão do neoliberalismo pelo mundo. Em 1991, surge o Mercosul.

O que une e o que afasta os países latino-americanos

O professor da UnB cita três pontos principais:

  • Todos os países são dependentes econômica e tecnologicamente das grandes potências, ficando à mercê dos investimentos estrangeiros, como as multinacionais;

  • Todos são países de forte desigualdade social. “Alguns um pouco mais, outros menos, mas a desigualdade social é um componente”;

  • Todos têm baixa interdependência entre si.

Nesse cenário, é por meio da integração que eles buscam reverter a posição de dependência ao “criar um fato para conseguir lidar com as transformações internacionais de maneira cooperativa, criando uma coalizão. Por isso que a integração regional está associada com a cooperação, para identificar problemas comuns e tentar fazer frente a esses desafios internacionais”, diz o professor.

Ao mesmo tempo, é exatamente essa condição de dependência que ainda cria algumas das maiores barreiras para que os processos de integração na América Latina se aprofundem. Segundo Menezes, nenhum país da região se dedica totalmente aos acordos internos, uma vez que “eles procuram ter sempre estratégias que não apostam muito na integração entre si, e deixam uma porta aberta para que possam, a qualquer momento, reforçar suas relações com o Norte [países ricos]”.

A quantidade de blocos na mesma região

Para o professor, uma mesma região ter muitos ou poucos blocos não é um fator tão determinante para que eles evoluam. Ele lembra que diferentes blocos podem inclusive aprender entre si. Segundo ele, a questão é que os países latinos se juntam mais para olhar o exterior do que para estabelecer relações internas.

Ele lembra que “além da competição por investimento externo tem a pauta de exportação de cada um, que são concentradas em grande parte nos produtos primários — às vezes, em concorrência entre si”.

Nesse sentido, o alto número de blocos, muitas vezes sobrepostos, pode não ser a causa do problema da integração na região, mas sim uma consequência de outros problemas estruturais. Menezes diz que os países “têm muita dificuldade em avançar para além dessas duas áreas — que são fundamentais para qualquer acordo regional. Sem economia e comércio, é difícil falar em um acordo com viabilidade, mas eles não conseguem dar o passo seguinte”.

O que causa a dificuldade para avançar

Dois pontos bastante comentados no debate sobre barreiras para o desenvolvimento do regionalismo na América Latina são questões já levantadas pelo professor: a baixa interdependência dos países e suas baixas capacidades de investimento.

Mas Menezes adiciona um terceiro ponto, que acredita ser pouco discutido: a capacidade estatal. Isso significa “um país que tem uma burocracia consolidada, tem uma rotina burocrática, que tem um serviço diplomático bem estabelecido”. Para o professor, ela é “muito débil” na maior parte dos países, e é comum tomar decisões que não se consegue levar adiante, algo que vê como “um problema grave”.

Ele lembra que no próprio Mercosul, metade das decisões tomadas não se transformam em ações práticas, e muito disso se deve à falta de capacidade dos países em conduzir o que é negociado. Ou seja, não adianta ter boas intenções, mas também é necessário ter a capacidade de executá-las.

Mesmo assim, ele ressalta que o Mercosul avançou desde que foi criado, sobretudo na área econômica, em que se propõe a agir de forma mais enérgica.

A onda isolacionista global e a América Latina

Um dos efeitos mais especulados das atuais ondas isolacionistas ao redor do mundo, sobretudo nos países desenvolvidos, é a possibilidade dessa nova ordem se espalhar pela comunidade internacional.

A eleição de Donald Trump com seu discurso “America First” nos EUA, a efetivação da saída do Reino Unido da União Europeia após mais de 40 anos no bloco e a ascensão de partidos eurocéticos em outros países do continente — como França, Áustria e Holanda — são alguns dos exemplos recentes.

Para Menezes, esses processos podem influenciar a integração latino-americana, mas só até certo ponto. Uma das formas é demonstrando que “processos de integração longevos como a União Europeia” não são irreversíveis.

Ao mesmo tempo, o professor ressalta que a importância do Mercosul para o Brasil não é pouca, e o empresariado acaba sendo um grande defensor do bloco.

“A gente não tem como vender na Ásia. Tirando aviões da Embraer e outros quatro ou cinco setores. [...] Então é a nossa região, e tem que trabalhar muito, suar a camisa por ela”

Roberto Goulart Menezes

Professor de relações internacionais na UnB

O bloco, que recentemente viveu uma crise política com a suspensão da Venezuela e a briga pela presidência temporária, ainda é fundamental para a economia brasileira. Enquanto as exportações do Brasil para o resto do mundo são majoritariamente commodities, o Mercosul serve como motor para o setor industrial.

92%

das exportações brasileiras para o Mercosul em 2012 foram de bens industrializados, segundo o Itamaraty

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto grafou de forma incorreta o nome do professor entrevistado, que se chama Roberto Goulart Menezes. O texto foi corrigido às 12h30 de 10 de abril de 2017.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: