Ir direto ao conteúdo

Os passos das mulheres até o afastamento de José Mayer da Globo

A denúncia de assédio sexual, a mobilização, a atitude da emissora e a admissão de culpa do ator são analisadas por estudiosas da questão de gênero

    Uma denúncia de assédio sexual feita no dia 31 de março contra o ator José Mayer levou, nos dias que se seguiram, à mobilização de atrizes e outras profissionais da área a favor da colega assediada; ao posicionamento da TV Globo, que o afastou de produções futuras por tempo indeterminado, e à retratação do ator em uma carta divulgada no dia 4 de abril.

    O relato da figurinista Susllem Meneguzzi Tonani, publicado na sexta-feira (31) no blog #AgoraÉqueSãoElas, do jornal “Folha de S.Paulo”, reporta a acusação de ter sido assediada verbalmente durante meses pelo ator no ambiente de trabalho, até que Mayer a tocou sem seu consentimento em fevereiro. Posteriormente, ela foi insultada por ele durante uma filmagem.

    A princípio, José Mayer negou a acusação. Na carta do dia 4, admite ter errado: “Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas”.  

    Também no dia 4 de abril, funcionárias da TV Globo, entre atrizes, diretoras, produtoras e outros, se manifestaram nas redes sociais vestindo uma camiseta com os dizeres “Mexeu com uma, mexeu com todas” e a hashtag #chegadeassédio.

    Abaixo, o Nexo faz um histórico de como a emissora tem tratado, desde o início de 2017, questões relativas às mulheres e às reivindicações feministas. E traz a visão de duas pesquisadoras de gênero sobre o contexto que levou a emissora a reformar seu posicionamento:

    A resposta da Globo

    No início de janeiro de 2017, a TV Globo deu sinais de estar atenta a demandas e críticas do público feminino. A vinheta da Globeleza, criticada em anos anteriores por hiperssexualizar e objetificar mulheres negras, apareceu repaginada com a personagem vestida, representando as diversas tradições carnavalescas regionais.

    No fim do mesmo mês, no dia 26 de janeiro, a estreia da nova temporada do programa “Amor & Sexo” foi dedicada ao feminismo.

    No mês seguinte, Victor Chaves, da dupla Victor e Léo, foi denunciado por agressão pela esposa no dia 24 de fevereiro e também afastado pela TV Globo do programa “The Voice Brasil”, do qual participava semanalmente. 

    Com relação a Mayer, a emissora divulgou duas notas. Na primeira, que veio a público na sexta-feira (31), afirmava estar apurando internamente o caso e repudiar “toda e qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito”.

    A seguinte, do dia 4 de abril, informava a suspensão do ator por tempo indeterminado e manifestava solidariedade com “a iniciativa de funcionários, colaboradores e executivos de usar hoje camisetas com os dizeres 'Mexeu com uma, mexeu com todas'”.

    A decisão foi comunicada também no Jornal Hoje e no Jornal Nacional.

    Miriam Grossi, antropóloga, coordenadora do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividade da UFSC e atual ocupante da cátedra Ruth Cardoso na Universidade de Columbia, em Nova York, reconhece ser inimaginável, há alguns anos, um cenário em que a Globo dispensaria um ator por conta de um caso semelhante de assédio.

    Mas vê o movimento da empresa como estratégico: “Provavelmente, a denúncia da figurinista apenas expôs publicamente um entre muitos outros casos de assédio e violência internos. Acho que a corporação percebeu que uma ação pública era o melhor a fazer, também para prevenir uma avalanche de outras denúncias”, diz Grossi em entrevista ao Nexo

    No dia 4, o mesmo em que atrizes e funcionárias da Globo protestavam contra o assédio, o apresentador Otaviano Costa do programa “Vídeo Show” fez um comentário que incentivava uma atitude machista de um participante do “BBB17”. Costa foi punido e não apresentou o programa na quarta-feira (5).

    ‘Uma nova ética’

    Um cabeçalho em negrito precede a denúncia de Susllem Tonani publicada no blog #AgoraÉqueSãoElas.

    A introdução diz que “As mulheres tomaram as ruas e as redes, desde 2015 (...) Estamos escrevendo, dizendo, gritando que machistas não passarão. E isso não é frase de efeito. É uma nova ética. É a construção do novo normal. No novo normal não há lugar para assédio no trabalho. Pra abuso de poder travestido de ‘brincadeira’ de homem branco, rico e famoso”.

    “Certamente, a luta cotidiana e as conquistas [do movimento feminista] abrem um caminho para o encorajamento de muitas mulheres que sofrem assédios sexuais, morais, violências sexuais e físicas, violência patrimonial e psicológica a denunciarem e buscarem ajuda”, diz  Patricia Rosalba, professora do Instituto Federal de Sergipe e pesquisadora do Núcleo de Identidade de Gênero e Subjetividades/UFSC, em entrevista ao Nexo.

    Rosalba define a denúncia de uma mulher em situação de violência, como a figurinista, como “uma atitude de empoderamento”. Reconhece, ao mesmo tempo, o contexto de “sofrimento, constrangimento, vergonha, medo, dúvidas que esta ação causa a mulher que sofre violências”.

    Para a antropóloga Miriam Grossi, a mobilização das mulheres contra o assédio e outras formas de violência ganhou força em um momento paradoxal. “Por um lado, há um grande retrocesso conservador no Brasil e no mundo, e, ao mesmo tempo, um super avanço em algumas lutas históricas do feminismo”, diz.

    O lema do consentimento ("não é não") na análise da antropóloga, foi incorporado “de forma impressionante” por essa geração de jovens mulheres. “Foi isto que a figurinista fez ao denunciar o José Mayer - representou a consciência feminista desta nova geração”, diz.

    Ela vê essa possibilidade de reação, mobilização e visibilidade que pautas feministas têm ganhado como uma confluência de três eixos:

    Lutas feministas históricas brasileiras

    Segundo a antropóloga, desde a década de 1970, a violência é o principal eixo de luta das feministas brasileiras. “Mais recentemente, o eixo da violência sexual e assédio se tornou uma das principais reivindicações das jovens feministas com a Marcha das Vadias e movimentos da internet como ‘meu primeiro assédio’, a ‘primavera feminista’, etc.”

    Políticas públicas contra violência de gênero

    A Lei Maria da Penha, que completou 10 anos em 2016, é o maior expoente da elaboração de políticas de proteção a mulheres em situação de violência. “Mesmo que nem tudo sejam rosas no enfrentamento às violências de gênero, é inegável que a existência da lei trouxe visibilidade e permitiu também a punição de homens violentos”, diz Grossi. 

    Pesquisa acadêmica

    Ela destaca a contribuição teórica do feminismo brasileiro na academia para o campo das violências. “Desde o estudo pioneiro de Mariza Correa ‘Morte em Familia’, feito nos anos 1970 na Unicamp, tivemos muitos e muitos estudos acadêmicos sobre o tema. Isto traz uma densidade teórica especial às lutas feministas brasileiras que, ao denunciarem a violência, trazem junto uma análise mais apurada dos fatos”, diz. 

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!