Quem é a fotógrafa de guerra que passou discretamente pela história

Catherine Leroy foi uma das pouquíssimas mulheres a registrar a Guerra do Vietnã - mas suas imagens impressionantes tiveram pouca repercussão

    Foto: International Center of Photography
    Catherine Leroy
    Catherine Leroy preparando-se para pular de paraquedas

    Considerada uma das mais destemidas entre os profissionais do fotojornalismo na Guerra do Vietnã (1955-1975), a francesa Catherine Leroy enfrentou as adversidades do conflito e o sexismo para criar imagens impressionantes - que tiveram, no entanto, muito menos repercussão que a de seus colegas.

    Durante toda a década de 1960, escreve o “New York Times”, apenas duas mulheres fotógrafas passaram por aquela guerra - Dickie Chapelle, morta por uma granada em 1965, e Leroy - quem o jornal chamou de “a maior fotógrafa de quem você nunca ouviu falar”.

    A francesa desembarcou na Indochina com sua Leica M2 no ano seguinte ao incidente de Chapelle, aos 21 anos, com nenhum dinheiro ou contrato de emprego. Como freelancer, conseguiu vender imagens para veículos como a Associated Press, U.P.I. (United Press International) e a “Life Magazine” - referência do fotojornalismo no mundo.

    Chegou à capa da “Life” com uma matéria escrita por ela mesma, quando foi sequestrada pelo exército do Vietnã do Norte junto ao colega jornalista francês Francois Mazure. Na ocasião, a fotógrafa convenceu os soldados a deixarem-na fotografá-los, com o argumento de que apenas um lado da história era mostrado.

    Na época, o editorial da publicação dizia “uma pequena garota com asas de paraquedistas” - referência a seus 1,50 de altura e 38 Kg de peso. Quando carregava todo o equipamento necessário ao trabalho - roupas de proteção, botas, câmeras e lentes, seu peso quase dobrava.

    Segundo o jornal “The Guardian”, em 1967 ela foi ferida em uma explosão que abriu seu peito - um estilhaço possivelmente mortal, no entanto, foi freado por sua câmera Nikon. Anos mais tarde, lembrando o acidente, disse ter achado que as últimas palavras que ouviria seriam: “Acho que ela está morta, sargento”. 

    Em depoimento ao livro “Shooting under Fire”, de Peter Howe, que entrevista fotógrafos de guerra, Leroy disse nunca ter tido problemas no Vietnã por ser uma mulher. “Nunca recebi nenhum tipo de proposta ou me vi numa situação difícil sexualmente falando. Quando você passa dias e noites no campo, você é tão miserável quanto os homens - e você cheira tão mal quanto.”

    Porém quando tornou-se a única jornalista a participar de um salto de paraquedas para combate, ao juntar-se à brigada 173d Airborne, foi acusada de ter conseguido a permissão por ter tido um caso com o coronel. Na verdade, Leroy tirou uma licença para saltar quando ainda era adolescente e já tinha usado o paraquedas mais de 80 vezes antes do Vietnã.

     

    Marinheiro angustiado

    Apesar da capa da “Life”, a fotografia de Leroy que tornou-se mais notória é na verdade uma sequência feita em 1967. Chamada “Corpsman In Anguish” (marinheiro angustiado), a série de três imagens mostra o soldado Vernon Wike lamentando-se sobre o cadáver de um colega durante a batalha de Hill 881, em Khe Sanh. Na primeira das fotos, Wike está debruçado sobre o corpo a procura de um batimento cardíaco.

    Em 2004, a convite da revista “Paris Match”, Leroy se encontrou com Wike na casa do agora veterano de guerra, em Prescott, Arizona (EUA), para fotografá-lo novamente. Na imagem registrada, ele aparece sem camisa no meio de sua sala, com boa parte do corpo tatuado - incluindo o nome de alguns de seus companheiros de guerra mortos no conflito.

    Após o Vietnã, Leroy seguiu realizando cobertura de guerra, viajando a lugares como Irlanda do Norte, Chipre, Somália, Afeganistão, Iraque, Irã, Líbia e Líbano. Beirut foi sua última passagem na profissão, em 1982, quando registrou o cerco da cidade pelo exército israelense. Após aposentar-se do ramo, abriu uma loja de roupa vintage com vendas on-line.

    Para o “NYT”, o fato de Leroy ser pouco citada deve-se à sua discrição. Em 2015, porém, o diretor Jacques Menasche realizou um documentário sobre a fotógrafa, “Cathy at War” (Cathy na guerra, em tradução livre). No filme, de 72 minutos, o diretor conversa com correspondentes de guerra que trabalharam ao lado da fotógrafa, o editor de fotografia da Associated Press em Saigon à época e, até mesmo, Vernon Wike. Trechos de cartas escritas por Leroy a seus pais também são lidos.

    No meio especializado, Leroy foi reconhecida - recebeu o George Polk Awards em 1967 e o Robert Capa Gold Medal em 1976, por seu trabalho realizado posteriormente no Líbano - foi a primeira mulher a receber a condecoração. Ela morreu em 2006, aos 60 anos, em Santa Monica, Califórnia, devido a um câncer pulmonar.

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