Por que programar é o novo 'aprender inglês'

Escolas no Brasil e no exterior começam a adotar programação entre as disciplinas do currículo

 

Em 2013, um vídeo reunindo gigantes da tecnologia, entre eles Bill Gates e Mark Zuckerberg, fez sucesso na internet falando sobre a importância de aprender programação.

Na produção, profissionais de diferentes áreas - inclusive o jogador de basquete Chris Bosh - contam suas experiências aprendendo a linguagem dos computadores e por que isso foi importante para eles.

A campanha foi feita pela organização Code.com, cujo objetivo é disseminar o ensino das ciências computacionais no mundo, e ilustra uma discussão que está em pauta nos últimos anos: programar, na atualidade, tornou-se fundamental.

Segundo a organização, 1 milhão de empregos nos Estados Unidos podem não ser preenchidos porque os candidatos não têm a qualificação necessária. Atualmente, apenas uma entre quatro escolas americanas oferecem cursos de programação.

Única voz dissonante nessa leva parece ser a de Linus Torvalds. Em entrevista à revista “Business Insider”, em 2014, o criador do sistema operacional Linux disse não achar que “todo mundo precise saber programar”, por tratar-se de uma atividade razoavelmente especializada. No entanto, reconheceu ser importante que pessoas fossem expostas à programação de alguma forma, para que aquelas com aptidão ou interesse para tanto ao menos conheçam a possibilidade. 

“Não porque todo mundo deveria ou precise aprender [a programar], mas porque é uma grande vocação, e pode perfeitamente haver muitas pessoas que nunca se deram conta de que poderiam gostar de dizer a computadores o que fazer. Nesse sentido, acho que cursos de ciência da computação em escolas é uma boa ideia, mesmo não acreditando no ‘todo mundo deve aprender a programar.’”

Linus Torvalds

Criador do Linux

Programação nas escolas

A demanda nos Estados Unidos fez com que surgisse a partir de 2012 as “code academies”, escolas de programação com cursos intensivos para ensinar a linguagem de computadores rapidamente. Em 2016, o então presidente Barack Obama lançou o programa Computer Science for All (ciência da computação para todos), voltado à implementação da disciplina no currículo escolar americano.

Outros países também aderem à ideia. Na Suécia, foi aprovado em março de 2017 um projeto para ensinar programação no correspondente ao segundo ano do ensino fundamental. A medida deve entrar em vigor a partir de 2018.

No Brasil, nos últimos tempos, surgiram inúmeras iniciativas dedicadas a ensinar programação, focadas em jovens, adultos, mulheres, idosos etc.

Pouco a pouco, também, a disciplina aparece nos currículos escolares. A escola municipal Elizabete de Paula Honorato, de São José dos Campos, é um exemplo. A instituição tem um laboratório de robótica, games e realidade aumentada. O Nave (Colégio Estadual José Leite Lopes), projeto público-privado do Rio de Janeiro, é outro. No geral, porém, aulas do gênero estão ainda restritas a escolas particulares, como o caso do colégio Móbile e do Vértice, de São Paulo.

Para a empreendedora Camila Achutti, que trabalha para a igualdade de gênero no mercado de tecnologia da informação, é bom que tais iniciativas estejam surgindo na educação, mas “se não partir do governo, a transformação não vai ser decisiva”, diz, lembrando que a grande quantidade de estudantes hoje matriculados no Brasil estão no ensino público.

Achutti prefere o termo “letramento digital” a “ciências da computação” ao falar do tema com foco na educação, por não se tratar de apenas ensinar a programar, mas sim de contextualizar os jovens no mundo digital, para que tenham uma compreensão melhor das coisas que os cercam. Ela compara os tempos atuais à era dos escribas. “As pessoas hoje recorrem a ‘escribas digitais’ para tomar decisões cotidianas da vida. A importância de ensinar [programação] é essa. Dar autonomia às pessoas.”

“Acredito que [programação] é uma ferramenta pra viver em sociedade, não para viver necessariamente como programador. Não quero que todo mundo seja um profissional da área, mas ter um mínimo dessa literacia é essencial.”

Camila Achutti

Empreendedora

Criar currículos e curso de letramento em programação em todas as escolas da rede municipal está entre os planos do atual prefeito de São Paulo, João Doria. Segundo divulgou em janeiro em seu plano para a educação, a ideia é que professores de informática tenham formação especializada e que as aulas comecem em 2018.

Por que programar é importante

Jovens conectados

A percepção é consenso: jovens hoje em dia passam boa parte do tempo conectados, seja em celulares, tablets ou computadores. Também mostram ter muito mais desenvoltura para manusear a tecnologia do que seus pais. Ainda assim, isso não significa que eles as entendam. Para Michel Resnick, do Laboratório de Mídia do MIT, aprender programação faz com que essas crianças vejam o mundo de forma mais criativa e crítica, já que, em lugar de jogar jogos prontos, poderão criá-los elas mesmas.

Entender o mundo

Em um mundo cada vez mais conectado, entender e saber dominar as máquinas torna-se premente. Ainda mais considerando o contexto da chamada “internet das coisas” - conceito segundo o qual cada vez mais objetos do nosso cotidiano estarão conectados em rede. Assim, entender como eles funcionam será a única forma de resolver inúmeros problemas na casa, no trabalho e na rua. Além disso, a programação aproxima as pessoas de disciplinas consideradas indecifráveis por muitos estudantes, como matemática, por mostrar como alguns conceitos são aplicados na prática e aparecem em nosso cotidiano.

"Saber programar vai se transformar no novo ler e escrever. Quem não souber código terá mais dificuldade para entender o mundo.”

Ali Partovi

Fundador da Code.org, ao “El País

Mercado de trabalho

Postos qualificados podem deixar de ser preenchidos, por falta de profissionais com as qualificações necessárias. Saber programar pode ser um diferencial importante na hora de conseguir um bom emprego.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que o colégio Nave (Colégio Estadual José Leite Lopes), do Rio de Janeiro, é uma escola particular. Na verdade, trata-se de um projeto público-privado. A informação foi corrigida às 18h00 de 3 de abril de 2017.

 

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