Ir direto ao conteúdo

Qual a relevância dos novos movimentos diante da crise dos políticos tradicionais

‘Nexo’ entrevistou José Henrique Bortoluci, da FGV, sobre as semelhanças e diferenças entre 9 grupos que propõem mudanças na forma de participar da agenda pública no Brasil

     

    A crise enfrentada pelos partidos tradicionais vem abrindo espaço para a formação e ascensão de diversos grupos organizados da sociedade civil que tentam, cada um à sua maneira, renovar a política brasileira.

    A maioria desses grupos fala em “mudança de geração”. Para eles, o fisiologismo, a corrupção, o corporativismo e a ineficiência são as marcas de um jeito de fazer política que deve ser superado por formas mais transparentes de interação, baseadas no debate de agendas nas quais realmente prevaleça o interesse público.

    Para isso, apostam em estratégias que vão do apadrinhamento de políticos jovens à realização de cursos de formação nos quais são identificados novos líderes em potencial. As iniciativas são muitas vezes suprapartidárias, com a agenda programática prevalecendo sobre as cores das legendas.

    Abaixo, o Nexo enumera algumas das novas iniciativas e mostra, de forma resumida, o que pensam esses grupos que trabalham para influenciar a política atual:

    9 grupos

    Movimento Brasil Livre

    O MBL (Movimento Brasil Livre) surgiu em 2014 e, a partir do ano seguinte, foi um dos protagonistas do movimento de rua pelo impeachment de Dilma Rousseff. Em 2016, o grupo apoiou 45 candidatos em todo o país, dos quais 8 foram eleitos, sendo 7 vereadores, além do prefeito da cidade mineira de Monte Sião, José Pocai Junior (PPS). Um dos vereadores eleitos com apoio do MBL, Fernando Holliday (DEM), recebeu 48.055 votos, em São Paulo. O grupo tem uma agenda economicamente liberal, em favor das privatizações e terceirizações, e socialmente conservadora, se opondo, por exemplo, ao aborto.

    Vem Pra Rua

    Desde o início, em 2015, o Vem Pra Rua dividiu com o MBL o protagonismo dos grandes protestos pelo impeachment de Dilma. Seu líder, Rogério Chequer, trabalha para “tirar todos esses políticos que estão aí”, mas ressalva que “não é plano do Vem Pra Rua se partidarizar e lançar candidatos próprios”. Assim como o MBL, o grupo defende agenda econômica liberal, apoiando, por exemplo, a reforma da Previdência defendida pelo presidente Michel Temer. Durante os protestos pelo impeachment, em 2016, o Vem Pra Rua teve apoio expressivo de políticos do PSDB.

    Raps

    A Rede de Ação Política Pela Sustentabilidade nasceu em 2012 com a intenção de “melhorar a qualidade dos líderes políticos brasileiros de maneira pluripartidária”. Possui uma escola e promove cursos e encontros modulares sobre aspectos tão práticos quanto “como estruturar uma campanha” e tão abrangentes como “a agenda de sustentabilidade”. É mantido com aportes de mais de mil doadores individuais. O empresário da Natura, Guilherme Leal, vice na chapa de Marina Silva (à época PV, hoje Rede) à Presidência em 2010, é o principal financiador e presidente do conselho.

    Acredito

    O grupo Acredito, que terá apoio da Raps, rechaça a polarização direita-esquerda. “Queremos ser uma alternativa de renovação nacional. Não alimentar a polarização, mas superá-la num movimento geracional por uma nova política”, diz o grupo. Seus fundadores reconhecem o papel transformador da geração anterior, responsável pela transição democrática, mas dizem que é preciso superar a estagnação atual, abrindo espaço para novas lideranças.

    Agora!

    O Agora! pretende identificar, selecionar e agrupar pessoas identificadas como “líderes da sociedade que pretendem influenciar a agenda pública”, não apenas em cargos eletivos mas em outros âmbitos de ação política. O grupo diz que não se situa em nenhum dos dois pólos extremos ideológicos, não financia candidatos e não se alinha a partidos. Destaca o recorte geracional da renovação na política e atua “escutando demandas da sociedade, formulando uma agenda de evolução do país e agindo concretamente para implementá-la”.

    Brasil 21

    Define a si mesmo como um “movimento social, político e cultural”, que começou a se reunir em 2011, no Rio de Janeiro. O grupo tomou em 2016 a decisão de “incidir diretamente na política formal”. Para isso, anunciou que apoiará 250 candidatos nas eleições de 2018 - todos pela Rede e Novo, “partidos que não fizeram caixa dois e que apesar de suas diferenças possuem uma intersecção programática para liderar as reformas de Estado que o Brasil precisa”. Os pré-candidatos têm de “colaborar produtivamente” com o movimento e apoiar um documento que está sendo produzido, chamado “Projeto Brasil”.

    Bancada Ativista

    A Bancada Ativista é um grupo suprapartidário que apoiou nove candidaturas do PSOL e da Rede nas eleições locais de 2016, em São Paulo. O grupo ajudou a eleger a vereadora Sâmia Bonfim (PSOL). Todos os candidatos tinham em comum a defesa de uma pauta que contemplasse questões de direitos humanos, transparência e maior participação da sociedade civil na gestão pública, além de bandeiras dos movimentos negro, feminista, LGBT e estudantil.

    Quero Prévias

    O Quero Prévias ainda não apoia nenhum candidato em particular. Ele defende uma mudança na forma como são escolhidos os candidatos à Presidência. Para seus membros, é preciso que todos os candidatos identificados com o “campo progressista” participem de uma prévia, da qual sairá um único vitorioso, responsável por aglutinar os votos desse setor nas eleições presidenciais de 2018.

    Nova Democracia

    O grupo ainda não foi lançado publicamente, mas vem funcionando como um “espaço plural de diálogo” com a intenção de “construir uma agenda mais ampla de vida democrática” e “influenciar o debate sobre reforma política no Brasil”. Seus membros reconhecem a contribuição da última geração, no período de consolidação da democracia, mas dizem que é preciso agora uma renovação programática e de atores na política. Não apóia candidatos específicos, nem se liga a partidos.

    O que há de novo nessa experiência

    O Nexo entrevistou o professor de Ciências Sociais da FGV-SP e doutor em Sociologia pela Universidade de Michigan, José Henrique Bortoluci, sobre a influência desses movimentos na política brasileira.

    O que há de realmente novo nesses atores que apresentam a si mesmos como novos?

    José Bortoluci Há uma grande diversidade interna entre esses grupos. Alguns nasceram como movimentos sociais, com uma influência mais autonomista, de ação horizontal, com um papel importante das assembleias internas, enquanto outros nasceram mais como organizações com pautas inicialmente bastante pontuais. Há ainda as coalizões suprapartidárias e os que surgiram dentro da grande onda de mobilização anti-corrupção e anti-PT. Então acho que eles têm formatos e destinos muito diferentes.

    'A novidade desse novo momento histórico é a crise geral da estrutura representativa tradicional, da relação direta entre partidos e eleitores'

    O que há de novo nessa grande constelação é que eles têm ocupado cada vez mais espaços que, antes, eram ocupados principalmente pelos partidos e por movimentos tradicionais - movimentos principalmente à esquerda do espectro político brasileiro, muitos dos quais associados ao PT, sobretudo nos anos 1980.

    A novidade desse novo momento histórico é a crise geral da estrutura representativa tradicional, da relação direta entre partidos e eleitores. Isso é o que une todos eles. Se você observa os dados sobre popularidade de partidos no Brasil, vê que todos perderam importância. O PT era o único que tinha historicamente altos índices de identificação comparativa do eleitor - 30%, por aí, dos eleitores se diziam, de alguma forma, identificados com o PT - e mesmo o PT perdeu muitíssimo desse apoio, dessa representatividade. Então acho que, de alguma forma, eles são tentativas de reinvenção da democracia.

    Por que essas pessoas não lançam simplesmente novos partidos políticos?

    José Bortoluci Porque esse é um momento de crise de representatividade no mundo todo, e o Brasil é um caso bastante importante desse grande momento. A crise de identificação dos eleitores com os partidos está em todo o mundo.

    'Da direita à esquerda houve uma reconstrução - principalmente entre estudantes mais jovens - de formas de fazer política. Então, se havia uma descrença no topo, o que estava acontecendo na base era uma efervescência de ativismo que ainda está acontecendo de alguma forma'

    Veja o que aconteceu agora nos EUA, por exemplo, com um grande racha interno nos partidos - dado que Donald Trump recebeu imensa oposição interna dos Republicanos até logo antes das eleições, e dentro do Partido Democrata você teve uma candidatura quase anti-sistêmica, do Bernie Sanders. Coisas parecidas estão acontecendo na Espanha, onde tem uma tentativa enorme de reconstrução do aparato representativo, desde os protestos de 2011, com a ocupação das praças; você tem a emergência de alternativas radicais de direita em vários países da Europa, com candidaturas fortes anti-sistêmicas, ou seja, contra um acordo de centro, digamos assim, que sustentou a política na maioria das democracias ocidentais nas últimas décadas.

    Então, nesse sentido, acho que no Brasil, também, há um cansaço com relação a essa estrutura institucional previamente estabelecida. E outra coisa que me parece também: muitos desses movimentos têm jovens ativistas. E, entre vários setores da juventude interessada na política, essa desconfiança com os partidos também se somou a uma transformação de identidade política. Vários movimentos hoje que são bastante atrativos para a juventude se focam em questões de identidade, que nunca tiveram papel central nos partidos políticos brasileiros - a questão LGBT, a questão negra, feminista, e todas essas outras agendas.

    O que aconteceu também, que eu acho fundamental, é que a partir de 2013 esse desgaste crescente do sistema representativo se aprofundou. No topo você tinha um desgaste do sistema representativo, mas, na base da sociedade, você teve uma disseminação de ativismo político. Quem estuda movimentos sociais vê que nas periferias de grandes cidades, ou nas faculdades com traços conservadores, há uma grande quantidade de alunos interessados em questões sobre liberalismo por exemplo. Da direita à esquerda houve uma reconstrução - principalmente entre estudantes mais jovens - de formas de fazer política. Então, se havia uma descrença no topo, o que estava acontecendo na base era uma efervescência de ativismo que ainda está acontecendo de alguma forma.

    Qual a chance de converter poder de mobilização em votos?

    José Bortoluci Isso também varia de movimento para movimento. Em geral, eles terão bastante ambiguidade e dificuldade com isso, porque muitos deles nascem negando esses caminhos tradicionais - veja, por exemplo, o caso importantíssimo do MPL (Movimento Passe Livre), que desde o início se colocou, talvez mais do que qualquer outro, na contramão do que eles acham que são os mecanismos eleitorais tradicionais para avançar na agenda. Ele se entende muito mais como organizador da sociedade civil, das bases da sociedade. Então, não é nem que alguns terão dificuldade, eles não têm é interesse nessa agenda.

    Outros, tudo indica pelas últimas eleições, vão tentar, sim, alavancar algumas figuras centrais. O Fernando Holiday, em São Paulo, foi um exemplo bastante importante dessa tentativa de passar de uma mobilização para uma agenda eleitoral. Para a maioria deles, essa passagem vai ser bastante difícil, pelo menos no médio prazo. Seja pelo desinteresse, seja porque é uma agenda bastante pulverizada, ou talvez - até mais importante de tudo - porque há pouco espaço dentro dos partidos para esse tipo de renovação mais radical. Acho que é um momento no qual os partidos ainda estão tentando entender como lidar com essa nova forma de política.

    Já alguns partidos da esquerda têm conseguido absorver parte da retórica, pelo menos. O PSOL já tem muito mais uma política centrada em questões de identidade, diferentemente daquela centralidade que eles davam, por exemplo, para a questão da renegociação da dívida, uns tempo atrás, agora há muito mais questões de direitos humanos, por exemplo. Então, talvez, dentro do PSOL, haja algum espaço para essa inclusão.

    Falando dos partidos mais à direita, tudo indica que algumas figuras muito representativas desses protestos de rua anti-PT, anti-corrupção, possam aparecer como puxadores de votos, mas me parece muito mais pontual do que um movimento sistemático de, realmente, integração desses movimentos nos partidos.

     

    ESTAVA ERRADO: O nome do professor José Henrique Bortoluci foi grafado de forma incorreta no subtítulo da primeira versão deste texto. A informação foi corrigida às 13h27 de 2 de abril de 2017.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!