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As redes sociais e a internet são mesmo as principais culpadas pela polarização política?

Contrariando o senso comum recente, uma pesquisa da Universidade de Brown, nos EUA, sugere que as bolhas da internet não explicam o aumento da polarização de opiniões na sociedade

     

    As redes sociais e a internet estão criando bolhas. O Facebook, por meio de um algoritmo, mostra para você só o que você quer ver. A consequência disso, dizem especialistas, é a polarização política. O assunto é tema recorrente de livros, reportagens e ensaios - e foi usado como hipótese explicativa para a polarizada eleição americana de 2016, que acabou por colocar Donald Trump na presidência dos EUA.

    Uma nova pesquisa, porém, questiona todas as afirmações acima. Economistas da Universidade de Brown, no Estado de Rhode Island, descobriram que o crescimento recente da polarização política no país é maior em grupos demográficos que usam menos internet e redes sociais. Ou seja, os autores do estudo sugerem que a internet e as redes sociais não são o vilão que se supõe serem.

    “Nossos achados vão contra a hipótese de que a internet em geral  e as mídias sociais em particular são os principais agentes da crescente onda de polarização”

    Jesse M. Shapiro

    pesquisador da Universidade de Brown

    Como foi feito o estudo

    A pesquisa partiu da percepção cada vez mais comum de que as redes sociais e as fontes de notícias on-line formam caixas de reverberação de opiniões políticas. É a ideia do filtro-bolha, e do viés de confirmação - um viés cognitivo cujo efeito é chamar nossa atenção e aprovação para notícias e opiniões que reforcem nossas crenças pré-existentes. Essa tendência das pessoas a ler só o que confirma opiniões prévias geraria uma predisposição a negar opiniões divergentes e eliminaria a possibilidade de debate equilibrado.

    Nos EUA, a prova disso seria o acirramento do embate entre democratas e republicanos, liberais e conservadores. No Brasil, a disputa entre esquerda e direita, petralhas e coxinhas.

    Os autores do estudo resolveram testar essa percepção. Eles então usaram como base de dados uma pesquisa de opinião política nos Estados Unidos feita com a população americana votante desde 1948 até hoje em dia, a ANES (American National Election Study). Essa pesquisa faz perguntas sobre as predisposições políticas dos eleitores, seus valores sociais ou sobre qual é a percepção do eleitor sobre representantes e grupos políticos.

    Os economistas de Brown buscaram entender como diferentes grupos demográficos reagiam a diferentes perguntas relacionadas à polarização política. Para analisar os dados da pesquisa da ANES, eles dividiram os entrevistados em grupos demográficos que pudessem predizer um maior ou menor uso da internet e das redes sociais. A idade do entrevistado foi o principal fator de predição. Isso porque estudos prévios mostram que apenas 20% das pessoas com mais de 65 anos usam internet e redes sociais, ao passo que 80% das pessoas entre 18 e 39 anos usam-nas regularmente. Ou seja, quanto mais velha a pessoa, menos ela usa internet.

    A descoberta foi que a polarização política cresceu mais e em ritmo mais acelerado entre pessoas mais velhas (que usam menos a internet) do que entre pessoas mais jovens. Para demonstrar a descoberta, a pesquisa criou um índex próprio. Segundo esse índex, entre 1996 e 2012 a polarização cresceu, no total, 0.18 pontos nos EUA. Se você olhar apenas para o grupo de eleitores de 75 anos ou mais ela cresceu 0.38 pontos. Já entre pessoas de 18 a 39 anos, grupo que usa mais a internet e as redes sociais, cresceu apenas 0.05.

    O que dizem os pequisadores

    Os autores do estudo não negam que a internet e as redes sociais possam ter algum peso no incremento da polarização política. Mas as descobertas de sua pesquisa indicam a necessidade de ponderar esse peso, já que elas mostram que houve um incremento consideravelmente maior da polarização em grupos que têm acesso limitado à internet.

    O Nexo conversou com Levi Boxell, um dos autores da pesquisa. Ele reforçou que o objetivo do estudo foi testar com base em dados a ideia hoje disseminada de que a polarização é produto direto da internet.

    “Nós não sabemos de fato o que está causando este aumento da polarização. Há provavelmente questões mais profundas que explicam a disputa, como a desigualdade, ou talvez outras mídias, como a TV a cabo, tenham papel importante na questão”, diz Levi.  Ele cita um estudo de pesquisadores de Stanford que aponta a importância da TV a cabo na formação do debate político americano.

    “Qualquer que seja a explicação [para a polarização], ela tem que dar conta do fato que a polarização política vem crescendo desde antes do uso generalizado da internet e com o fato de que, em anos recentes, ela cresce mais rapidamente entre os mais velhos”, diz Levi.

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