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Quem é o líder opositor que desafia Putin na Rússia

Alexei Navalny levou milhares de pessoas às ruas para protestar contra a corrupção no governo. Ele pretende se candidatar em 2018, mas as chances de tirar a situação do poder são baixas

    Cerca de cem cidades em toda a Rússia tiveram, no domingo (26), protestos contra o governo do presidente Vladimir Putin, na maior demonstração de insatisfação popular em cinco anos no país.

    A data era aguardada especialmente por Alexei Navalny, que aos 40 anos é a principal figura de oposição a Putin no cenário interno russo e líder na organização das manifestações.

    O advogado, ativista, blogueiro e político é o criador da Fundação Russa Anticorrupção e atua sobretudo pela internet, com um uso intenso das redes sociais para difundir suas pautas em um ambiente inóspito às divergências políticas.

    E foi pela rede que Navalny conseguiu convocar tanta gente — a estimativa é que, na capital Moscou, cerca de 60 mil pessoas aderiram à causa. Outras grandes cidades, como São Petersburgo e Omsk, também juntaram um número considerável de pessoas, em sua maioria jovens na casa dos 20 anos.

    “[Estou] impressionado pelo número de cidades que participaram disso e por quanta gente deu as caras”

    Alexei Navalny

    Organizador dos protestos

    O governo tampouco esperava que o evento ganhasse tamanha proporção e optou pela repressão como forma de conter os protestos. Centenas de pessoas foram presas — incluindo Navalny, condenado a 15 dias de reclusão por organizar uma manifestação sem permissão e também resistir à prisão.

    Entre os outros detidos estão vários colegas de Navalny em sua fundação, alguns profissionais contratados por ele para fazer a cobertura do evento.

    Como ele se tornou a principal voz da oposição

    Vladimir Putin chegou ao poder em 1999, ainda como presidente interino após a renúncia de Boris Yeltsin, primeiro presidente pós-União Soviética. Putin já havia sido agente no exterior da KGB (serviço secreto soviético) e chefe tanto da KGB quanto da FSB, sua versão russa.

    Em 2000, assumiu como presidente definitivo e começou a colocar em prática seus planos de reconstrução da economia nacional, utilizando o nacionalismo como um dos pontos de apoio de seu governo. Governou até 2008 e não pôde se candidatar a um terceiro mandato.

    Seu aliado, Dmitri Medvedev, assume então a presidência e aponta Putin como primeiro-ministro. Durante esse período, Putin continuou com grande influência no governo executivo. Em 2012, eles destrocam — Putin volta à presidência e Medvedev vira premiê, o que permanece até hoje.

    Ele conseguiu recuperar a economia que estava em frangalhos após o fim da União Soviética e, em conjunto com sua política nacionalista e a tomada de territórios na Chechênia e Ucrânia, instalou um clima de guerra que lhe rendeu apoio por anos.

    Navalny começou a ganhar espaço com seu ativismo por volta de 2008, quando seu blog passou a atrair atenção por denunciar casos de corrupção e más práticas nas empresas estatais russas.

    O Estado controla algumas das principais companhias do país, como a Gazprom e a Rosneft — ambas envolvidas na produção de combustíveis e entre as 150 maiores empresas do mundo, de acordo com a lista de 2016 da revista “Fortune”.

    Nessa época, ele comprou ações de empresas petrolíferas para poder participar das reuniões de acionistas, publicizando o que era conversado.

    Desde então continuou com as investigações de corrupção. Nas eleições de 2012, que trouxeram Putin de volta à presidência, Navalny fez oposição ativa nas redes pedindo para que seus seguidores votassem em qualquer partido, menos no Rússia Unida de Putin. O argumento é que ele daria continuidade a um governo altamente centralizador.

    Não funcionou, mas os protestos organizados por ele depois das eleições tinham sido os últimos de grandes proporções na Rússia, e lhe renderam os mesmos 15 dias de prisão de 2017.

    No ano seguinte, Navalny se arriscou pela primeira vez em uma eleição, competindo pela prefeitura de Moscou. Ficou em segundo lugar, atrás do aliado de Putin Sergey Sobyanin, que venceu com 51,37% dos votos. Navalny foi proibido de participar de debates na TV e concentrou a campanha eleitoral na internet.

    27,2%

    dos votos na eleição para prefeito de Moscou em 2013 foram para Navalny

    Os protestos e o uso da internet

    Em seu blog Navalny lembrava, a cada nova postagem, que 26 de março seria o dia de “tomar as ruas contra a corrupção”. A mesma estratégia foi adotada em quase todas as suas páginas em redes sociais, que incluem Facebook, Twitter, Instagram, Telegram e YouTube.

    Ao longo de todo o domingo, seu blog fazia atualizações com imagens e relatos dos protestos em diferentes cidades do país, bem como destacava a repercussão que o movimento ganhava nas redes sociais. Pelo YouTube também houve uma transmissão com cobertura em tempo real por mais de dez horas.

    O uso constante e massivo das redes sociais é tido como um dos principais fatores que jogam a seu favor na hora de conquistar a simpatia do público, especialmente o mais jovem. Em entrevista à “Folha de S.Paulo”, o especialista em política russa Alexei Kolesnikov destacou que Navalny “trabalha muito bem a audiência jovem, pensando em longo prazo”.

    Foi também com um vídeo divulgado em seu canal no YouTube que Navalny conseguiu levar muitos jovens às ruas no domingo. Com mais de um milhão de visualizações, a gravação mostra uma professora tentando convencer seus alunos a não irem ao protesto.

    Qual a força dessas manifestações

    Embora o governo russo tenha demonstrado preocupação com a possibilidade desses movimentos crescerem, as chances de que isso realmente aconteça são baixas.

    Mesmo que Moscou tenha dado sinais do crescimento de Navalny em 2013, a tendência não parece ser tão forte no resto da Rússia, e o presidente ainda conta com a aprovação de 84% no país, segundo o instituto público de pesquisa Levada, em sondagem de fevereiro.

    Por outro lado, alguns especialistas acreditam que o alto engajamento de jovens em pautas da oposição pode ser um início de movimento contra a hegemonia do partido Rússia Unida.

    “As pessoas [...] vêm agindo por anos assumindo que o gelo é muito espesso e nunca vai quebrar. O que Navalny está tentando fazer é mostrar que não, e um dia ele vai quebrar”

    Samuel A. Greene

    Especialista em protestos na Rússia da King’s College de Londres, em entrevista ao “The New York Times

    Não tem sido fácil ser oposição na Rússia. A última principal força contra Putin foi Boris Nemtsov, morto a tiros ao lado da sede do governo, o Kremlin, em 2015. Em março de 2017, o ex-deputado Denis Voronenkov também morreu depois de ser baleado em Kiev, capital da Ucrânia, onde estava exilado.

    Já fazendo campanha para as eleições presidenciais de 2018, Navalny ainda nem sabe se poderá concorrer. Ele foi condenado por fraude e roubo, e agora recorre da decisão, contando com a ajuda da Corte Europeia de Direitos Humanos. Em 2013 ele viveu a mesma situação e acabou absolvido após intervenção do órgão europeu.

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