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Um jornal colombiano está checando correntes de WhatsApp

Desde janeiro, periódico que cobre a política do país sul-americano recebe 15 mensagens por semana; 90% do conteúdo verificado é falso

Na era da pós-verdade, correntes de WhatApp são como catalisadores: os boatos se espalham na velocidade das mensagens instantâneas. Toques de recolher, aumento súbito de impostos, golpes no semáforo, declarações absurdas de políticos: o repertório de notícias duvidosas é vasto. Hoje, são 1,2 bilhão de usuários ativos de WhatsaApp no planeta e o problema não é exclusividade do Brasil.

Um jornal então resolveu combater a questão. Em janeiro de 2017, o “La Silla Vacía”, periódico que cobre a política da Colômbia, lançou o Detector de WhatsApp. O jornal já tem há alguns anos o Detector de Mentiras, que checa notícias de forma geral.

Funciona assim: os leitores mandam, via WhatsApp, um print da tela do celular com a corrente que gostariam que fosse checada. O jornal então vê se a corrente atende aos seguintes critérios:

  • O assunto tem que ser de interesse público. O jornal não checa histórias que são relacionadas à vida privada das pessoas;
  • A corrente tem que estar ligada aos temas que o jornal cobre: poder e política da Colômbia;
  • A mensagem tem que ter alguma substância e ser “checável”. Não vale teoria da conspiração.

O “La Silla Vacía” contou ao Nieman Lab, centro de pesquisa em jornalismo da universidade MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos, que recebe cerca de 15 correntes por semana para serem checadas. De acordo com a diretora do jornal, Juanita León, 90% do conteúdo verificado é falso. A ideia do periódico é, com o tempo, detectar, além das mentiras, tendências — e assim descobrir como, quem e por que os boatos são gerados. O jornal planeja checar também vídeos enviados em correntes, mensagens de áudio e memes.

Leitor precisa ‘reespalhar’ a notícia checada

Uma vez que analisa e estabelece os fatos, o jornal pede, em contrapartida, que o leitor inocule o “antiviral” em suas redes. O “La Silla Vacía” envia uma mensagem com a investigação, que deve ser propagada nos mesmos canais pelos quais a corrente chegou. O jornal pede um print que comprove o envio, por parte do leitor, da versão checada.

“Checar as correntes de WhatsApp é um jeito de se envolver nas conversas que pessoas reais estão tendo e dar a elas as ferramentas para formar opiniões baseadas em fatos e não em boatos”, disse Léon ao Nieman Lab. Ela conta que o recurso já rendeu matérias para o jornal e acaba sendo uma forma de captar alguns temas que preocupam os leitores.

As correntes de WhatsApp são um problema especialmente forte na Colômbia. Isso porque, nos fins de 2016, o país discutiu e decidiu em plebiscito sobre um acordo de paz para pôr fim ao conflito de mais de 50 anos entre o governo e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Boatos e versões sobre as negociações circularam à época — e podiam ter impacto direto na decisão dos colombianos. A primeira checagem, por exemplo, foi de uma corrente sobre a entrega de armas das Farc.

Correntes e checagem no Brasil

No Brasil, surgiram alguns sites e agências especializadas na checagem de fatos em anos recentes. São o caso da Aos Fatos, Agência Lupa e a seção Truco da Agência Pública. Elas averiguam a veracidade de informações que circulam em jornais, redes sociais, verificam declarações dadas por políticos ou pessoas públicas. A Agência Pública, em 2017, checou duas correntes de WhatsApp que circulam no Brasil.

A primeira, que se revelou mentirosa, era sobre um suposto aumento no imposto de renda. A mensagem dizia que a alíquota máxima iria subir, por decreto, de 27,5% para 35%, e “atingir a classe média”. Notícia falsa. 

A outra era, na verdade, sobre um ponto comum às correntes que viralizam. É que abundam dizeres como: “Se você passar essa mensagem para 6 pessoas, em breve essa notícia atingirá todos os brasileiros”. A agência verificou a afirmação, cruzando dados de quantas pessoas usam o WhatsApp com dados da população brasileira, sob a consulta de uma matemática da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Concluiu que a afirmação é falsa. “Ainda assim, as contas mostram que informações erradas podem se espalhar numa velocidade extremamente rápida”, concluiu a reportagem.

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