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Por que artistas americanos estão discutindo hoje um caso de racismo de 1955

‘Open Casket’, obra da artista Dana Schutz, está exposta na bienal de arte do Museu Whitney, nos EUA. Seu tema é o assassinato do jovem negro Emmett Till

    Foto: Reprodução /Twitter
    'Open Casket', de Dana Schutz
    'Open Casket', de Dana Schutz
     

    Em 1955, com as leis de segregação racial ainda em vigor nos Estados Unidos, a morte brutal de um jovem negro de 14 anos traumatizou a comunidade negra do país. Emmett Till foi espancado por homens brancos até ser desfigurado, sob a alegação de que ele havia desrespeitado uma mulher branca, Carolyn Bryant.

    Mamie Till, mãe do adolescente, decidiu realizar um funeral com o caixão aberto. A cerimônia atraiu uma multidão. Ela autorizou a publicação das fotos do filho morto em uma revista. 

    O assassinato de Emmett Till foi um catalisador do movimento americano pelos direitos civis e o impacto duradouro das imagens, mais de 60 anos depois do ocorrido, voltou a ressoar na bienal de arte do Museu Whitney, em Nova York, que vai de 17 de março a 11 de junho de 2017. 

    A obra “Open Casket” (Caixão aberto, em português), pintada em 2016 pela artista americana Dana Schutz, retrata o rosto e peito de Till em seu caixão, com base nas fotos divulgadas na época, e está exposta na bienal, onde tem gerado protestos.

    Nela, o rosto do adolescente aparece borrado pelo pincel, sem feições definidas. A polêmica gira em torno do fato de que a artista, que é branca, estaria explorando – como espetáculo e produto comercializável – a violência histórica sofrida pela população negra.

    Quem está protestando

    Desde o dia 17, abertura da bienal, o artista negro americano Parker Bright foi visto, ao longo de vários dias, protestando diante do quadro de Schutz. Ele se posiciona em frente à obra, bloqueando parcialmente a vista de visitantes, e veste uma camiseta com as palavras “Black Death Spectacle” (Espetáculo da morte negra, em português) nas costas.

     

    Bright também fez uma transmissão ao vivo em seu perfil no Facebook falando sobre o assunto. Ele argumenta que a obra de Schutz é uma injustiça e uma violência contra a comunidade negra.

    A artista e escritora Hannah Black (negra, nascida na Grã-Bretanha e residente em Berlim) escreveu uma carta aberta aos curadores da bienal, Mia Locks e Christopher Y. Lew. Na carta, solicita não apenas que a obra seja removida da exposição, como também destruída.

    A discussão acalorada também ganhou as redes sociais durante a primeira semana da bienal de arte, reverberando os protestos de artistas.

    Uma das causas para o mal-estar gerado pela obra é a relação de poder entre uma mulher branca e um jovem negro, expressa tanto na representação feita por Schutz quanto no próprio evento que levou à morte de Till. É o argumento desenvolvido em um artigo do site “New Republic”:

    “Emmett Till morreu porque uma mulher branca mentiu sobre a breve interação que houve entre eles. Morreu porque a versão dele da história não significava nada para os dois homens brancos que o mataram, nem para o júri que os absolveu. Uma mulher branca pintar o rosto mutilado de Emmett Till comunica não só uma surdez com relação à história do assassinato dele como uma ignorância a respeito do papel do discurso de uma mulher branca nesse crime — o discurso dela anulou o que foi dito por Till, com efeito letal [para ele]”

    Josephine Livingstone e Lovia Gyargye

    Repórteres do site “New Republic

    Renata Felinto, artista visual, pesquisadora e professora da Universidade Regional do Cariri, analisou o caso em entrevista ao Nexo. Ela vê a exposição da obra de Schutz como uma espetacularização desnecessária e desrespeitosa.

    “Há muitas formas dos brancos lidarem com o racismo, e essa não é a melhor, a mais educativa, a mais interessante. Expor a nossa dor, e entendo essa dor de irmandade pois dividimos o mesmo passado histórico de crime contra a humanidade, é banalizar essa experiência traumática. E corpos e rostos de judeus mortos? Seriam pintados dessa forma? E se tivéssemos o rosto desfigurado de uma Anne Frank, será que seria aceito?”, diz a pesquisadora.

    O que dizem os curadores

    A curadoria diz ter incluído a obra de Schutz na Bienal porque ela se encaixa no recorte desta edição, da qual participam muitos artistas que abordam a violência – seja em sua faceta racial, econômica ou cultural. Nesse contexto, defendem que a obra levanta questões relevantes na atmosfera política atual, em que raça, poder e privilégio são questões prementes.  

    Na concepção da mostra, disse a curadora Mia Locks ao jornal “The New York Times”, obras que provocariam a discussão sobre raça e identidade (temas que ela reconhece como sensíveis) foram convidadas intencionalmente com esse propósito. Locks também diz que o quadro de Schutz lhe pareceu uma maneira de não permitir que a morte do adolescente seja esquecida, como Mamie Till desejava.

    Locks e Christopher Y. Lew, co-curador da mostra, se reuniram com Parker Bright, o artista que vinha protestando, para discutir o assunto. Lew diz que a obra aponta para uma questão maior: “Sim, são os homens negros que são mortos, mas num sentido mais amplo isto é um problema americano”.

    A bienal de arte do Museu Whitney tem o propósito de mostrar a “temperatura cultural” do país, segundo o “New Republic”. A edição de 2017 tem sido considerada humanista e pró-diversidade e conta com trabalhos de 63 artistas e coletivos, dentre os quais quase metade são mulheres e metade são artistas não brancos. 

    A defesa da artista

    Em uma declaração dada na terça-feira (21), a artista disse não saber o que é ser negro no país, mas que sabe o que é ser mãe e se relaciona com a morte de Till imaginando a dor da mãe do adolescente, que era seu único filho. Ela define a arte como “um espaço para a empatia”: reconhece não ser possível saber como é estar no lugar do outro, mas estabelece a arte como uma possível via de conexão. 

    Schutz também respondeu às críticas à exploração comercial do acontecido dizendo que não pretende colocar o quadro à venda.

    “A raiva em torno da pintura é legítima e eu entendo. É uma obra problemática e eu sabia no que estava me metendo. Mas realmente acho que é melhor se envolver em algo extremamente desconfortável, e talvez impossível [de acertar], do que não reagir de nenhuma forma”

    Dana Schutz

    Em entrevista ao site ‘Artnet’ 

    Reverberações recentes do caso

    Em janeiro de 2017, surgiu pela primeira vez a confirmação de que Carolyn Bryant havia mentido em seu testemunho contra o jovem Emmett Till. Ela concedeu uma entrevista ao historiador e professor da Universidade de Duke, Timothy B. Tyson, que conduzia uma pesquisa para o livro recentemente publicado “The Blood of Emmett Till” (O sangue de Emmett Till).

    Também há pelo menos três adaptações americanas para o cinema sobre a história de Till em produção.

    Na quinta-feira (23), uma carta direcionada ao museu, supostamente escrita por Schutz, pedia a retirada da obra da bienal, assim como de todas as imagens existentes dela de circulação. A artista desmentiu a autoria do pedido.

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