Ir direto ao conteúdo

Como o consumo de playlists está mudando a nossa maneira de ouvir música

Listas feitas por serviços de streaming, por artistas ou pelos próprios usuários estão entre os produtos mais valiosos e promissores desse mercado

    “More Life”, uma coleção de 22 faixas inéditas feita com a colaboração de diversos artistas e assinada pelo rapper canadense Drake, foi lançada no dia 18 de março nas plataformas de streaming. O projeto não foi anunciado como um álbum. E sim como uma playlist.

    Esse detalhe expõe transformações fundamentais já em curso na música: o valor da playlist como principal forma de consumir música hoje pelos serviços de streaming e a mudança de status do álbum, antes a principal unidade artística e comercial em que se pensava em termos de lançamento.

    Há, no entanto, quem questione a diferença entre “More Life” e um álbum convencional ou mesmo uma mixtape.

    Segundo o dicionário de língua inglesa Merriam-Webster, o primeiro uso conhecido da palavra “playlist” data de 1972. A princípio, como está definido pelo dicionário, tratava-se de uma lista de gravações tocadas em um programa de rádio.

    Com o tempo, passou a denominar uma lista usada para organizar uma coleção pessoal de música digital e, a partir do crescimento dos serviços de streaming no fim da primeira década dos anos 2000, essas listas de reprodução passaram a ser curadas também por esses serviços, assim como por artistas e personalidades.

    Em 2014, a Billboard modificou suas regras, passando a permitir que playlists aparecessem nas paradas.

    Abaixo, o Nexo mostra como as playlists estão tomando conta do mercado, seja apenas por uma simples substituição de nome de algo que já existia, seja por uma real mudança na maneira como consumimos música atualmente.

    Como surgiu a cultura da playlist

    O formato mp3 e o aumento progressivo da velocidade das conexões fez com que, no final dos anos 1990, o download — pirata — de arquivos digitais já fosse bastante difundido. Essa é a história contada pelo livro “Como a música ficou grátis”, de Stephen Witt.

    O download era feito por redes peer-to-peer (quando usuários são, ao mesmo tempo, cliente e servidor, permitindo a troca direta de arquivos entre eles), usando ferramentas como o Napster, plataforma de download “pirata” de música, hoje convertida em serviço de streaming. Apesar do caráter colaborativo, a maioria dos mp3 pirateados vinha, segundo Witt, de grupos organizados.

    A disponibilidade de downloads grátis ilegais na internet fez a receita das vendas de CDs cair e colocou a indústria fonográfica em crise. Gravadoras reagiram, tentando combater a pirataria. Mas o anonimato e as redes difusas dificultam sua erradicação: quando um site de downloads cai, logo é substituído por outro.

    Em 1999, mesmo ano de lançamento do Napster, dois pesquisadores lançavam o artigo “Automatic Generation of Music Programs” (Geração Automática de Programas Musicais, em português). 

    O estudo de François Pachet, da Sony Music, e Pierre Roy, da Universidade da Califórnia, se preocupava com a oferta estonteante dos catálogos digitais, principalmente de música, que se tornava possível com o formato digital e conexões mais potentes. Ele antevia problemas e oportunidades que essa revolução da música digital criava.

    Um dos problemas criados — para usuários e provedores de conteúdo — pelo acesso a esses catálogos musicais tinha a ver com a seleção do que se ouve, uma vez que é possível ouvir tudo.

    “Do ponto de vista do usuário, os objetivos são combinar preferências, assim como fornecer música nova a eles. Do ponto de vista de quem provê o conteúdo, o objetivo é explorar o catálogo da melhor forma possível”, diz o artigo.

    O dilema descrito por Pachet e Roy, assim como a solução proposta para esse novo contexto — sequências musicais geradas por cálculos de computadores —, enuncia o nascimento da cultura das playlists, quase uma década antes da criação do Spotify, em 2008.

    A partir do fim da primeira década dos anos 2000, quase uma década depois da música “ficar grátis”, os serviços de streaming estão fazendo com que usuários voltem, pouco a pouco, a considerar a possibilidade de pagar pela música que ouvem.

    Nesses serviços, como Spotify, Deezer, Apple Music e Tidal, a música está embutida em uma plataforma que permite acesso instantâneo a um catálogo de milhões de faixas sem precisar armazená-las para ouvi-las, além de fornecer playlists personalizadas baseadas nos gostos do usuário e outras, curadas pelas próprias plataformas.

    Com a oferta de playlists para começar o dia, para fazer exercícios, se concentrar no trabalho e um mix personalizado para os usuários, elas acompanham o dia a dia das pessoas e se tornaram a forma por meio da qual usuários mais ouvem música.

    Apesar disso, o que vivemos hoje está longe de atingir o auge das potencialidades dessa cultura, segundo Yasmin Muller, gerente editorial da Deezer Brasil, um dos serviços de streaming que atuam no país.

    “Ainda estamos em um momento muito inicial da cultura de playlists. Por mais que se tenha [uma herança] vinda desde as rádios, desde as mixtapes, isso como cultura de massa, nesse formato, é muito novo”, diz.

    Como funciona a curadoria dos serviços

    As playlists oferecidas aos usuários das plataformas de streaming são um resultado misto de curadoria humana e matemática.

    “A ideia é que os humanos alimentam a inteligência do algoritmo. A maioria das playlists é feita por curadores humanos, mas quais playlists vão chegar no usuário é, muitas vezes, determinado pelo algoritmo” explica Muller. Ou seja, o processo de oferta de conteúdo depende mais do algoritmo, enquanto a criação do conteúdo passa mais pelo humano.

    ‘Acho que, com o tempo, a gente vai caminhar na direção de ter playlists mais ousadas, talvez, menos fechadas no gênero e mais amplas’

    Além disso, apesar de o processo de criação de uma playlist partir muito da percepção humana, ele também se baseia em dados: a lista é criada e adaptada em função dos dados que as plataformas possuem sobre os usuários e suas preferências. É possível, por exemplo, saber se e quando uma pessoa abandona uma música e quantas vezes avançou a faixa, além do estilo dos artistas que mais ouve.

    Ao oferecer playlists de que os usuários provavelmente irão gostar, maiores serão as chances de que eles decidam continuar pagando pelo serviço.

    “Hoje em dia a gente ainda está num ponto em que as playlists ainda são muito fragmentadas por gênero [musical] e por temas específicos”, diz Muller. “Mas acho que, com o tempo, a gente vai caminhar na direção de ter playlists mais ousadas, talvez, menos fechadas no gênero e mais amplas. E aí vem o grande desafio de vender, com um nome e uma imagem, o que essa playlist traz [em termos de] sensação”. 

    A ideia de que a internet borra as fronteiras entre gêneros musicais e que usuários procuram, cada vez mais, vivenciar uma diversidade musical maior ao mesmo tempo também é colocada pelo texto “The playlist is the new album” (“A playlist é o novo álbum”), publicado no dia 14 de março pelo site The Outline.

    A curadoria feita por artistas

    Ao mesmo tempo, em um cenário de crescentes incertezas para os artistas — sem que se saiba o novo papel de gravadoras ou mesmo do álbum, ou sequer se ambos sobreviverão —, a playlist também se tornou uma nova “commodity”, como define o artigo do The Outline, que pode ser oferecida pelos músicos aos fãs.

    Mais do que isso, é um produto personalizado e mais íntimo, que permite que fãs muito dedicados de um artista em particular entrem em contato não só com a música que ele produz, mas com aquilo que ele ouve e com o que o influencia. 

    O projeto “Deezer By”, do serviço francês Deezer, e playlists compartilhadas por artistas em suas próprias páginas do Spotify são alguns exemplos dessa tendência.

    Apesar de não haver consenso a respeito de “More Life”, de Drake, ser ou não uma playlist, o título da crítica “On Drake’s ‘More Life,’ the Creator Meets the Curator” (“Em ‘More Life’, de Drake, criador e curador se fundem”, em tradução livre) publicada pelo jornal “The New York Times” reflete essa convergência.

    A crítica de “More Life” aponta Drake como o primeiro artista grande a assumir o desafio criativo de lançar algo no formato desde que a Billboard modificou suas regras.

    E afirma que o sucesso da empreitada deve encorajar outros artistas a experimentarem o formato. “Identificar a playlist como mecanismo de entrega para música nova, e não só para compilar músicas de outros artistas, é um ‘boom’ conceitual para os serviços de streaming”, escreve Jon Caramanica, do “The New York Times”.

    A gerente editorial da Deezer Brasil vê a conversão das playlists feitas por artistas grandes em produto de lançamento como um caminho  interessante. Mas discorda que “More Life” seja uma playlist.

    “Talvez ela não caiba como um álbum dentro da discografia dele, mas acho que para ser uma playlist ela precisaria dar outros passos para haver uma ruptura estética, formal e até de mercado, de como esses direitos são distribuídos dentro de uma obra”, pondera.

    “Se é uma playlist, cada faixa tem seus direitos autorais, de cada autor. A partir do momento em que isso é um produto do Drake, entregue por ele com o nome dele, é difícil chamar isso de playlist. Por mais que ele queira que isso cole dentro da lógica colaborativa que aquilo foi feito”.

    O que mudou

    De fato, os serviços de streaming fizeram com que os álbuns abrissem espaço para a playlist, uma mudança comportamental detectada por um estudo do Spotify. Mas isso não significa, necessariamente, que o álbum esteja morto.

    “Sou um pouco cética com essa coisa de que as playlists estão destruindo o álbum como um formato artístico”, diz Yasmin Muller, da Deezer. Para ela, as playlists assumiram o lugar que era do rádio: dão um direcionamento personalizado para quem não sabe o que ouvir.

    Apesar disso, as playlists trazem uma complexidade maior para a curadoria: se antes a seleção ficava por conta de algumas rádios, agora ela está na mão de mais gente, inclusive dos próprios usuários: a curadoria foi, de certa forma, democratizada.

    Seja por curadoria humana ou de algoritmos, a exposição a novidades também aumentou. Entra-se em contato com artistas ou gêneros que  talvez nunca se chegasse a conhecer. “Quem buscava [descobertas musicais], agora tem uma facilidade maior”, diz Muller. “Mesmo que seja uma parcela limitada de pessoas, elas estão abrindo os ouvidos muito mais do que abririam antes”.

    Em meio a tantas transformações, o álbum pode não ser mais o principal formato do mercado fonográfico, mas não parece estar em extinção. Na Deezer, apesar de playlists liderarem o consumo, usuários ainda consomem os álbuns, mesmo que não inteiros. Os dados da plataforma mostram que usuários ainda acessam a página do álbum e dão play, dedicando-se a ouvir, pelo menos em parte, o que um artista propõe como álbum.

    O fato de o álbum não ser mais uma obrigação comercial para os artistas pode ser, inclusive, um fator que tem impulsionado um certo renascimento conceitual do formato. É o que indicam lançamentos como “Lemonade” (2016), o álbum-visual de Beyoncé.

    “Artistas que antes seguiam o álbum muito mais como formato de mercado, passam a levar a sério o conceito de álbum por ter se tornado tanto uma escolha deles: só colocam um álbum [disponível] quando faz sentido. Senão, lançam uma mixtape, um EP, singles soltos. Tudo é válido. E para a experiência do fã é muito mais interessante, porque vira uma coisa mais lúdica, mais instantânea: você tem uma coisa nova do seu artista favorito muitas vezes durante o ano”

    Yasmin Muller

    Gerente editorial da Deezer Brasil

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!