Como a nova ferramenta do Google mexe com comportamento e privacidade dos usuários

Trajeto, e não mais só a localização fixa, poderá ser compartilhado pelo aplicativo a partir dos próximos dias

    A nova ferramenta do Google Maps, anunciada na quarta-feira (22), teria vindo a calhar no Carnaval de 2017. Os usuários poderiam, a partir do dispositivo, saber exatamente onde alguém está e acompanhar a sua movimentação. Achar um amigo no meio da multidão dos blocos, portanto, seria tarefa fácil.

    O recurso chega a usuários do mundo todo dentro de alguns dias, segundo o Google. Em vez de dizer onde estamos ou a que horas chegamos em algum lugar, será possível compartilhar os próprios movimentos no mapa da cidade com os contatos de nossa escolha.

    “É possível selecionar apenas o trajeto (assim o compartilhamento será desativado quando o usuário chegar ao local) ou escolher o compartilhamento por um tempo determinado”, explica a assessoria do Google.

    O Nexo consultou um especialista em direito e internet sobre duas dimensões do uso da ferramenta que impactam o usuário:

    Impactos legais

    Apesar de não ser uma mudança radical nas funcionalidades do aplicativo, o pesquisador Luiz Fernando Moncau, do Center for Internet and Society da Faculdade de Direito de Stanford (EUA), vê a nova ferramenta como um compartilhamento extra dos dados pessoais que colocamos à disposição das empresas e, em alguns casos, do Estado.

    “O problema em relação à privacidade é que vemos a erosão dela em pequenos passos. Esse pode ser mais um”, diz Moncau em entrevista ao Nexo. Na prática, estaremos gerando mais dados que ficarão sob a posse do Google.

    Segundo o Marco Civil da Internet brasileiro, uma empresa ou serviço pode coletar apenas dados relacionados à finalidade do aplicativo. Ao Google Maps, portanto, é permitido coletar informações de localização do usuário, uma vez que elas se relacionam com o que é oferecido por ele.

    O tipo de dados coletados e a forma como a empresa dispõe deles — vendendo-os, por exemplo, para outras empresas — estão previstos nos termos de uso. As informações sobre por onde circulamos podem servir, por exemplo, como indicativo de renda. Por isso, têm valor para o direcionamento da publicidade de marcas.

    Para o especialista Luiz Fernando Moncau, a possibilidade de que haja coleta dos dados de onde o usuário está em tempo real, caso a ferramenta esteja ligada continuamente, implica um compartilhamento (ainda) mais permanente.

    A partir disso, uma consequência imaginável é que, no futuro, autoridades solicitarão dados à empresa para fins de apuração criminal, e até mesmo que os próprios usuários vão pedir esses dados, no caso de, por exemplo, precisarem provar que não estiveram em determinado lugar.

    O pesquisador diz que mantém desligada a localização de seus aparelhos e só a ativa quando precisa. Também possui o mínimo possível de aplicativos instalados, por questões de segurança. “Não tem como o consumidor ter certeza de quais dados estão sendo coletados. Toda vez que você acessa um aplicativo, ele também ganha acesso a você”, diz.

    Impactos comportamentais

    “[A ferramenta nova] pode ser muito útil, mas bastante problemática se o uso for inadequado. O fato dela ser útil significa que estamos sendo constantemente pressionados a usar porque torna nosso dia mais eficiente”, diz Moncau. “Quem não adere a esse tipo de ferramenta acaba gastando tempo com coisas que pessoas que estão dispostas a sacrificar sua privacidade mais facilmente têm um ganho de eficiência”.

    Além disso, no que diz respeito às relações entre as pessoas, dizer a amigos e familiares onde se está ou a que horas chega pode não ser mais suficiente para quem usa o Google Maps. Nesse aspecto mais sociológico, Moncau avalia que a ferramenta pode criar uma cobrança pela comprovação vinda da família, do companheiro, ou mesmo por parte do empregador.

    “Isso tem a ver com a erosão da privacidade não com relação à empresa ou ao Estado, mas a terceiros”, diz. Para ele, a possibilidade de circular anonimamente pela cidade pode estar sendo perdida.

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