Por que o papa pediu perdão pelo genocídio de Ruanda

Igreja Católica assume pela primeira vez na história o papel institucional que teve no assassinato de centenas de milhares de tutsis em 1994

    O papa Francisco pediu “perdão a Deus” na segunda-feira (20) pelo papel da Igreja Católica no genocídio que aconteceu em Ruanda, na África, em 1994. O pontífice fez o pronunciamento em um encontro que teve com o atual presidente do país, Paul Kagame, e a esposa do político ruandês, Jannette, na Cidade do Vaticano.

    Foi a primeira vez que o líder da Santa Sé admitiu que a instituição contribuiu para o massacre com “pecados e faltas”. Até então, o posicionamento da Igreja era de condenar a ação individual de alguns de seus membros no episódio. A cúpula católica de Ruanda já havia pedido desculpas no fim de 2016, embora o Vaticano ainda não o tivesse feito.

    A estimativa é que de 800 mil a 1 milhão de pessoas morreram naquele episódio de 1994, que durou cerca de 100 dias. A maioria das vítimas era da etnia tutsi, e foi assassinada sistematicamente em ataques perpetrados pela etnia hutu, em maior número no país — cerca de 85% da população. Entre 150 mil e 250 mil mulheres foram estupradas, segundo as Nações Unidas.

    84%

    da população tutsi de Ruanda morreu no genocídio de 1994

    Qual foi o papel da Igreja

    A maior parte de padres e outros representantes da instituição católica em Ruanda eram hutus, de acordo com o padre e professor de filosofia Octave Ugirashebuja em livro sobre o papel da Igreja no episódio. O autor explica que foram poucos aqueles que se manifestaram contra a escalada nas violências no início do processo de genocídio, além da tentativa de minimizar seus efeitos nos momentos posteriores.

    Mas a participação dos membros da Igreja não ficou apenas na omissão. Os tutsis, fugindo da perseguição hutu, buscavam espaços como ginásios, escolas e igrejas para se esconder, julgando que ali teriam proteção. Não esperavam, contudo, que padres e responsáveis por algumas paróquias permitissem que hutus entrassem nos santuários e exterminassem todos os que estavam ali refugiados.

    Estima-se que não houve nenhum outro local específico que abrigou tantas mortes em Ruanda quanto as igrejas. As vítimas incluíam idosos, crianças e mulheres, sendo que algumas delas foram estupradas antes de serem assassinadas.

    11%

    de todos os assassinatos durante o genocídio aconteceram em Igrejas, segundo estimativa de Carol Rittner, professora de Estudos sobre o Holocausto e Genocídios na Faculdade Richard Stockton, nos EUA

    As formas de assassinatos nas paróquias variavam. Algumas das igrejas eram queimadas enquanto as vítimas estavam trancadas para dentro. Outras vezes, os padres permitiam a entrada de assassinos com facões (amplamente utilizados no genocídio), armas de fogo e granadas.

    Quatro padres foram indiciados no Tribunal Penal Internacional da ONU sobre o episódio de Ruanda, acusados de participar no genocídio. Um deles, Athanase Seromba, foi condenado a 15 anos de prisão por participar da morte de 2.000 pessoas.

    Membros de organizações de direitos humanos, como a African Rights, dizem que o número de acusados é bem menor do que o número real de membros da Igreja que participaram do massacre.

    A Igreja, mesmo com o pedido de desculpas, ainda é acusada de abrigar, em algumas de suas paróquias na Europa, outros padres acusados de participar do genocídio. O padre Wenceslas Munyeshyaka, por exemplo, foi condenado a prisão perpétua em Ruanda, mas a Igreja Católica da França o mantém protegido em uma paróquia na região da Normandia.

    O que foi o genocídio em Ruanda

    A FPR (Frente Patriótica de Ruanda), de maioria tutsi, era um movimento político e militar fundado no país vizinho, Uganda, com a intenção de derrubar o presidente ruandês Juvénal Habyarimana — que era hutu e durante seus 21 anos no cargo favoreceu membros de seu grupo — e reformar o sistema político para incluir a divisão do poder entre as etnias do país.

    Em 6 de abril de 1994, o avião que transportava Habyarimana foi derrubado, e as acusações eram de que se tratava de uma ação da FPR. Uma das principais redes de comunicação do país, a Radio Television Libres Des Mille Collines, espalhou a versão.

    Todos os tutsis que viviam em Ruanda eram acusados de serem cúmplices das ações da FPR, em um processo de campanhas e pronunciamentos públicos de líderes hutus que já durava alguns anos — entre eles, também havia padres. A partir daí começaram as mortes sistemáticas de tutsis e mesmo de líderes hutus moderados.

    O episódio só foi terminar quando, em 22 de junho de 1994, o Conselho de Segurança da ONU autorizou o envio de forças lideradas pelo exército francês para o país. Os assassinatos continuaram até o início de julho, quando as violências foram contidas.

    As origens da tensão étnica

    Embora um dos genocídios mais marcantes do século 20 tenha sido motivado por divisões étnicas, a população daquela região africana era unificada antes da colonização europeia.

    A Conferência de Berlim, em 1884, dividiu o continente entre as potências da Europa, e o que hoje é Ruanda ficou sob o poder alemão. O controle desse território passou para os belgas após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.

    Uma das primeiras ações dos novos governantes foi classificar a população local — até então unificada e com um sistema eficiente de governo centralizado — em três categorias, ou etnias, definidas por características físicas arbitrárias como o tamanho do nariz e a cor dos olhos: hutus, tutsis e twas. A ideia era dividir a população para governar mais facilmente.

    Os colonizadores belgas passaram, com o tempo, a beneficiar os tutsis por entenderem que o grupo apresentava traços mais parecidos com os de pele branca e, portanto, segundo correntes de pensamento racista, estaria mais próximo da civilidade. Colocaram, então, os tutsis no poder. Os hutus, em maioria, sentiam-se oprimidos.

    Em 1959, uma revolta conquistou a independência de Ruanda e instalou os hutus no poder, após um processo que envolveu assassinatos em massa de tutsis. As tensões entre os dois grupos permaneceram ao longo das décadas até culminar, em 1994, no episódio do genocídio.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: