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A crise do Uber em 2017. E as previsões sobre o futuro da empresa

Companhia enfrenta debandada de executivos, boicote de usuários, uma disputa legal com o Google e acusações de assédio moral e sexual dentro da empresa

     

    A saída de Jeff Jones, vice-presidente e chefe de marketing do Uber, anunciada no domingo (19), parece aprofundar a incerteza sobre os rumos da startup da cidade de São Francisco. O cenário envolve a saída de outros executivos da empresa, um processo judicial e episódios que prejudicam sua imagem, ocorridos ao longo dos últimos meses.

    Jones era o executivo “nº2” do Uber, logo abaixo de Travis Kalanick. Antes dele, em fevereiro, o engenheiro executivo Amit Singhal foi levado a pedir demissão depois de uma acusação de assédio sexual em seu trabalho anterior, na Alphabet Inc., conglomerado ao qual pertence o Google.

    Ed Baker, vice-presidente de produtos e crescimento e Charlie Miller, pesquisador na área de segurança da empresa, saíram no início do mês de março. Por último, Brian McClendon anunciou que pretende deixar o Uber no fim do mês, para se dedicar à política.

    Ao todo, já são sete - com a saída de Gary Marcus, chefe do laborátório de Inteligência Artificial e Raffi Krikorian, diretor sênior de engenharia - executivos de alto escalão que deixam a empresa nos últimos meses, movimento que o jornal “The New York Times” apelidou de “êxodo executivo” em uma reportagema sobre a saída recente de Jeff Jones.

    Mas a crise do Uber não se resume à “fuga” de pessoal da empresa. Desde o início de 2017, protestos de usuários, acusações de assédio dentro da empresa e por parte de usuárias, uma disputa judicial e críticas ao regime de trabalho dos motoristas têm somado para a atmosfera de crise na companhia. De janeiro a março, estes foram os entraves enfrentados pelo Uber:

    #DeleteUber

    O movimento que fez com que mais de 200.000 usuários americanos deletassem o aplicativo durante um fim de semana do mês de janeiro aconteceu depois de motoristas do Uber tentarem operar normalmente no Aeroporto JFK, em Nova York, durante uma greve de taxistas. A ação, orquestrada pela aliança de taxistas nova-iorquinos (“The New York Taxi Workers Alliance”) era uma resposta à decisão de Donald Trump de banir muçulmanos de 7 países diferentes de entrarem nos Estados Unidos. 

    O Uber foi acusado por usuários nas redes sociais de tentar lucrar com a greve em curso. A participação do CEO Travis Kalanick no conselho consultivo econômico do presidente Donald Trump - posição que ele deixou de ocupar no início de fevereiro, devido à controvérsia - também foi alvo de críticas dentro e fora da empresa.

    Assédio sexual e sexismo na empresa

    Em um curto intervalo após o boicote, em meados de fevereiro, a ex-engenheira do Uber Susan J. Fowler publicou um texto em seu blog sobre sua experiência como mulher na empresa, onde, segundo o relato, sexismo e assédio sexual no ambiente de trabalho não só eram comuns como tolerados. Devido à repercussão, o Uber decidiu lançar, no dia 21 de fevereiro, uma investigação interna das acusações feitas pela engenheira.

    Ambiente de trabalho ‘agressivo’

    A publicação de um extenso relatório sobre as condições de trabalho na empresa que sugeria que as denúncias de Fowler não eram episódios isolados. O texto descreve de que forma a meritocracia e a competitividade incentivada pelos princípios da empresa encorajam um clima em que o “homem é o lobo do homem”, em referência ao filósofo Thomas Hobbes. Machismo, homofobia, assédio moral e até ameaças de agressão contra funcionários que não cumprissem metas fazem parte do cenário descrito pela investigação do jornal “The New York Times”.

    Batalha legal com o Google 

    Apesar de ser um de seus investidores, o Google processou o Uber também em fevereiro, acusando-o de roubar tecnologia original desenvolvida por ele para carros autônomos, ou seja, que dirigem sozinhos. O Waymo, grupo do Google que se dedica ao setor, alega que a tecnologia foi levada para o Uber por um antigo empregado da Waymo, e que agora o Uber a utiliza e planeja seu futuro em torno dela. Segundo uma reportagem do site de negócios Bloomberg, entre todos os escândalos já enfrentados pela empresa nesse ano, esse é o que tem maior potencial de impacto financeiro sobre ela.

    Em agosto de 2016, o Uber adquiriu a Otto, uma startup de caminhões autônomos com apenas alguns meses de existência, fundada pelo ex-Google Anthony Levandowski. O Google acusa o Uber de infringir a patente da tecnologia desenvolvida primeiro na empresa e de roubo de arquivos que pertenceriam ao Google. Ambas empresas acreditam que a tecnologia de carros autônomos renderão trilhões de dólares ao ano no futuro.

    A disputa ainda não chegou ao fim. O Uber pode brigar judicialmente com o Google pela posse da tecnologia ou negociar o licenciamento da patente com a empresa.

    Kalanick discute com motorista em vídeo

    Fevereiro foi um mês sem fim para o Uber. No dia 28, um vídeo em que o CEO Travis Kalanick é mostrado discutindo com um motorista a respeito da diminuição dos valores repassados aos trabalhadores. O motorista reclama da situação de quem conduz o Uber Black, categoria com veículos mais confortáveis que deveria trazer um retorno melhor para o motorista, mas que, segundo ele, vinha rendendo cada vez menos. Kalanick respondeu que “algumas pessoas não gostam de assumir a responsabilidade por sua própria situação”.

     

    A repercussão negativa levou o CEO a se desculpar publicamente e admitir que “precisava crescer”, segundo a revista “Fortune”. 

    Relatório mostrou como empresa driblava autoridades

    O uso de uma ferramenta (chamada “Greyball”) pela empresa - e de outras técnicas, como o mapeamento digital de autoridades legais pela cidade - para driblar a lei em locais onde o serviço não é regularizado foi revelado no início de março. Os métodos foram usados durante anos em cidades como Boston e Paris e países como Austrália, China e Coreia do Sul, onde o aplicativo foi banido ou desperta resistência, para identificar e contornar a atuação de fiscais nas ruas.

    Qual é o futuro do Uber

    A previsão do pesquisador americano Steven Hill, um dos primeiros a darem um nome para o novo modelo de economia compartilhada praticado por empresas como o Uber e um de seus grandes críticos, é de que a empresa desapareça em cinco anos. “É uma estimativa”, disse Hill por e-mail ao Nexo. “Pode ser que seja daqui quatro ou seis anos, mas meu artigo recente explica por que o modelo [do Uber] é fatalmente falho”.

    No texto a que Hill se refere (“Uber: The Road Not Taken”, Uber: a estrada não tomada, em tradução livre), ele descreve as falhas na sustentação do modelo e sugere que antes de ser pioneira em carros autônomos ou voadores, como a empresa vem concentrando esforços em ser, ela deveria buscar soluções práticas para pagar seus motoristas decentemente.

    Parte do problema é que, segundo Hill, o custo cobrado pela corrida é baixo demais. Para alcançar uma rentabilidade ainda que modesta, aponta que as viagens precisam deixar de ser subsidiadas pelos investidores, como acontece atualmente, permitindo que o preço das corridas aumente e encontre equilíbrio entre oferta e demanda.

    No Brasil, o Uber enfrenta a concorrência de outros serviços de motoristas particulares como o serviço espanhol Cabify e dos aplicativos de desconto

    Sua chegada às cidades brasileiras provocou reações negativas de taxistas e posterior tentativa de adaptação ao modus operandi dos particulares: taxistas também oferecem balas e água e perguntam a estação de rádio de preferência do passageiro. 

    “Não há dúvida de que esse serviço fornecido por um aplicativo é impressionantemente inteligente e conveniente. Pode ser que os passageiros estejam dispostos a pagar mais para usá-lo. Com o tipo certo de gestão e aspirações menos grandiosas, o Uber pode encontrar muitas oportunidades em meio a essas limitações”

    Steven Hill

    No artigo “Uber:The road not taken”

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