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O que é a deep web e por que ela está encolhendo

Rede funciona em camadas que protegem anonimato. Normalmente associada a atividades ilícitas, ela sofre um ataque hacker

     

    A deep web é uma parte da internet que exige métodos e técnicas bastante específicos para ser acessada. Algumas estimativas afirmam que a Surface Web, onde, provavelmente, você está neste momento, compreende apenas 4% de todo o potencial da rede, enquanto 96% é composto pela deep web (a “rede profunda”, em tradução literal do inglês).

    Uma das principais ferramentas para se acessar essa área abaixo da superfície, o TOR,  pode estar desaparecendo. É o que diz o novo “relatório de Onionscan” da Mascherari Press, uma organização independente que mapeia segurança da rede de computadores à qual nem todos têm acesso. O relatório aponta que apenas 4.400 sites dos cerca de 30 mil acessados via TOR estão no ar atualmente.

    Esses sites acessados via TOR representam parte da dark net (rede sombria, em tradução literal do inglês), região ainda mais escondida da deep web. O encolhimento da dark net revela o encolhimento de uma das poucas áreas da deep web que se pode quantificar.

    Como o sistema funciona

    TOR é um navegador (browser). É a sigla para “The Onion Router” (“o roteador cebola”, em tradução literal). Ele cria camadas, como as da cebola, durante a navegação na internet, o que permite que o usuário acesse conteúdos com mais segurança e anonimato.

    O programa cria nós nas linhas de código dos canais de comunicação entre duas redes, os chamados túneis IP (protocolo da internet). Ao criar esses nós, o TOR acaba dificultando o rastreamento do IP gerado pelo usuário ao acessar a rede.

    Um exemplo mais corriqueiro - e menos protegido - de protocolo que utiliza túneis é o “https” (Protocolo de Transferência de Hipertexto Seguro). É o protocolo que usamos na superfície da web.

    Ele permite que o usuário troque informações com outro sistema operacional utilizando criptografia para proteger os dados. Olhe para o endereço desta página: há um “https://” antes do endereço do Nexo. Isso significa que você está trocando informações criptografadas com o jornal.

    Já quando se utiliza o TOR para troca de informações o caminho é mais complexo. Se você faz, por exemplo, uma pesquisa sobre o termo “carro”, o software recebe um requerimento que iniciará a troca de informações entre sistemas operacionais.

    Os dados necessários para realizar essa ação viajam entre diversos servidores e roteadores, de maneira que se desenvolvam camadas e mais camadas de nós. Assim, a origem do requerimento se camufla, dificultando o rastreamento do IP responsável pela ação.

    Por ser mais protegido, sistemas como o do TOR para navegar na deep web são usados para diversas atividades que requerem anonimato - ou clandestinidade. De articulações políticas em ambientes sensíveis a  comércio de drogas ilícitas. E é esse aspecto impenetrável da deep web que a estigmatizou como lugar obscuro e perigoso.

    Por que a deep web está diminuindo

    O sistema, porém, não é tão impenetrável assim. O  recente encolhimento da rede acessada pelo TOR, de 30 mil para 4.400 sites ativos é prova disso. A principal hipótese para essa queda brusca é que hackers tiraram do ar um importante serviço de hospedagem chamado FH2 (Freedom Hosting II) e o servidor de e-mails “Sigaint”.

    Quando um serviço como o FH2 sai do ar, os dados dos seus usuários ficam expostos. Isso já aconteceu antes, com o FH1, e, na época, em 2013, a saída foi criar um novo serviço de hospedagem: o FH2.

    A ativista e pesquisadora canadense de anonimato e privacidade, Sarah Jamie Lewis - responsável pelo relatório de Onionscan - disse ao Nexo que a queda dos dois serviços, que levou a maior contração dessa parte da deep web acessível pela rede TOR, foi resultado do ataque realizado por um grupo de hackers a três grandes fóruns usados para exploração sexual infantil.

    “É possível que o banco de dados vazado pelo hack seja útil para identificar pessoas nos fóruns que abusam de crianças. Contudo, é possível, ainda, que existam operações e investigações acontecendo na deep web cujo processo pode ter sido prejudicado. O FH2 também continha milhares de outros sites e fóruns menores, incluindo muitos pequenos blogs políticos, e o hack tomou esses sites das pessoas, dificultando o anonimato online.”

    Sarah Jamie Lewis

    Ativista e pesquisadora autônoma de anonimato e privacidade na internet

    A deep web é o meio, não o fim

    Associações entre a deep web e a prática de crimes como exploração sexual de crianças e mulheres, a compra de armas e drogas ou até mesmo a aquisição de serviços de um assassino de aluguel são comuns, mas dizem mais sobre as sociedades com acesso à internet do que sobre a própria rede.

    É o que defende o advogado, cofundador e diretor do Internet Lab, Francisco Brito Cruz. Ele disse ao Nexo que os boatos sobre a deep web ser um lugar relegado ao crime e a “tudo que é proibido” passam a mensagem de que todos que utilizam o anonimato que redes como TOR  fornecem estão fazendo algo ilegal ou imoral.

    Ele sugere que a discussão sobre a internet além da web da superfície requer maior esclarecimento, e que para tratar problemas ligados a crimes virtuais, por exemplo, é necessário compreender a origem desses crimes: a sociedade.

    “TOR é uma ferramenta de segurança importantíssima para uma série de pessoas que correm risco de vida em países e regimes autoritários que monitoram a internet. Ela foi criada com o objetivo muito nobre de proteger o anonimato desses dissidentes [...] sendo a deep web uma ferramenta de segurança tão poderosa, ela foi apropriada por pessoas com motivos menos nobres que aquelas que a criaram.”

    Francisco Brito Cruz

    Diretor do Internet Lab

    O advogado diz que os crimes promovidos na deep web, por mais terríveis que sejam, “já existem na sociedade”. Para ele, utilizar uma ferramenta como TOR é como utilizar uma faca, ou seja, “pode ser usada como ferramenta para cozinhar ou como um arma letal”, conclui.

     

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto não deixava clara a diferença entre deep web e dark net. A dark net, que esta encolhendo, é parte da deep web. A informação foi corrigida às 11h47 de 20 de março de 2017.

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