O mapa interativo que mostra onde, quando e como surgiram centenas de doenças

Em 60 anos, quase triplicou o número de registros de novas patologias infecciosas. Entre as causas estão avanço de pesquisas médicas na área e urbanização

    Um mapa interativo reúne dados sobre onde e quando foram registrados os primeiros casos de centenas de doenças ao longo dos últimos 77 anos. O mapa foi feito pela organização EcoHealth Alliance em uma parceria com a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), do governo americano. Clique aqui para ver o mapa.

    Em seis décadas, dados compilados pelo mapa mostram que as doenças catalogadas quase triplicaram. Entre 1940 e 1944, por exemplo, nove doenças infecciosas foram classificadas. Entre 2000 e 2004, essas doenças, chamadas emergentes, já eram 26. O site da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul define doença emergente como “o surgimento ou a identificação de um novo problema de saúde ou um novo agente infeccioso”. 

    A pesquisa que sustenta o mapa traz dados desde 1940 sobre as primeiras ocorrências de cada enfermidade. Ao clicar em cada ponto do mapa, são reveladas informações sobre como a doença foi descoberta, sintomas relacionados e as causas de sua difusão.

    A culpa é dos humanos

    É recorrente associar o descobrimento de novas doenças à evolução tecnológica da medicina e do estudo de patologias. A suposição é de que as novas doenças já existiam, mas não eram detectadas por cientistas. Isso é verdade em parte. Mas especialistas mostram que houve de fato um aumento real de doenças. E a culpa é também dos humanos.

    Doenças “surgem” pela conjunção de fatores ambientais e demográficos. Normalmente, aparecem pelo contato de pessoas com micro-organismos ou animais que os hospedam, além de mutações de vírus e bactérias.

    Jean Gorinchteyn, médico infectologista do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, disse ao Nexo que o papel do ser humano no aumento de doenças emergentes registradas fica evidente quando observada a expansão das cidades e dos centros urbanos sobre a natureza.

    Gorinchteyn também explica que as doenças se espalham mais rapidamente devido à formação dos grandes centros e zonas periféricas, locais cujas estruturas de saneamento básico costumam ser precárias ou ineficientes.

    “As cidades tendem a invadir áreas rurais, locais em que [causadores de doenças] estariam confinados. Além disso, uma crise mundial em termos de saneamento básico, a má alimentação, tudo isso cria condições propícias [às doenças]. Assim as doenças, de forma geral, acabam sendo emergentes e reemergentes. Aí temos exemplos como a zika, a febre amarela e até mesmo a diarreia”

    Jean Gorinchteyn

    Médico infectologista do Instituto Emílio Ribas

    A medicina também melhorou

    Ao longo dos 77 anos classificados no mapa, o Brasil registrou nove casos de doenças emergentes. Ainda que o número de enfermidades infecciosas tenha aumentado no mundo, as possibilidades de tratamento e medicação também ganharam reforços na contenção de surtos e epidemias.

    Após a pandemia, em 2009, da gripe A, ou gripe suína, originada pelo vírus H1N1, duas vacinas foram criadas: a trivalente e a tetravalente (também conhecida como quadrivalente). No dia 3 de março, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, disse em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo” que a campanha de vacinação contra a gripe será antecipada em 2017, para evitar surto de casos fora da época esperada, como observado no ano anterior.

    Gorinchteyn explica que o avanço das doenças leva, consequentemente, à melhora no tratamento contra elas. Entretanto, ele diz que campanhas de prevenção contra enfermidades que se originam de vírus também são marcos importantes do avanço da medicina e das políticas públicas.

    “Quando falamos de vírus, falamos da implementação de vacinas e campanhas vacinais com maior cobertura, e estamos pensando o tratamento do vírus muito mais como uma questão de prevenção. Estamos falando da vacina e de sua socialização, não só sua disponibilidade, mas também o amparo de todas as classes sociais, de maneira que a população realmente tenha acesso, e que [as vacinas] não fiquem restritas apenas a clínicas privadas”

    Jean Gorinchteyn

    Médico infectologista do Instituto Emílio Ribas

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