Ir direto ao conteúdo

Quem são e o que querem as feministas secundaristas

As jovens  não toleram comentários machistas de professores, criam coletivos de apoio nas escolas, citam páginas do Facebook e Simone de Beauvoir

    Foto: Acervo Pessoal / Victoria Barreto
    Secundaristas na Escola Centro de Ensino Médio 304 de Samambaia, em Brasília, durante ocupação em 2016

    Quando no oitavo ano do ensino fundamental pediram um trabalho sobre o que os alunos mudariam na escola, Ana Paula Santos lembrou das aulas de Educação Física. “Me incomodava muito os meninos e professores falando de nossas roupas de ginástica.”

    Estudante de Porto Alegre, Ana tirou fotos das vestimentas, as organizou em slides e apresentou à sala em forma de questionamento: “Os professores falam para só usarmos legging de cores escuras, para não aparecer a calcinha. Enquanto isso os meninos usam bermudas baixas mostrando a cueca. Por que não é mais fácil ensinar os meninos?”

    O incômodo, lembra a secundarista, foi sua descoberta como feminista. Depois disso, começou a acompanhar páginas no Facebook que debatiam os temas com os quais se identificava, sem até então saber o que isso queria dizer. “Elas me ajudaram em muita coisa, a aceitar meu corpo, a me empoderar, a não ficar quieta”, conta.

    Ana faz parte de uma geração de jovens que tiveram contato com o feminismo ainda adolescentes e levaram a questão da mulher para as escolas e para as famílias, provocando tanto conflitos geracionais como mudanças importantes.

    “Nessa época, comecei a conversar com algumas colegas. Quando acontecia algum caso de machismo, escrevíamos um documento e levávamos para a secretaria, para que isso não fosse só um caso em sala de aula.”

    Ana Paula Santos

    Secundarista

    Essas meninas estiveram à frente do movimento de ocupação das escolas de 2015 e 2016, exigindo mudanças na educação pública nacional, além de corrigirem pequenos hábitos corriqueiros: na organização das ocupações, meninos e meninas dividiam as tarefas igualmente.

    Elas chamam a atenção de professores que fazem piadas e comentários machistas em aula, respondem a familiares que controlam suas roupas e confrontam colegas de sala que desrespeitam amigas e namoradas.

    As jovens que falaram ao Nexo citaram páginas do Facebook como referência para a descoberta dessas ideias, além de novas publicações voltadas para o público mais jovem, como a revista digital AzMina e a Capitolina. Mencionam expoentes atuais da luta da mulher, como Djamila Ribeiro, mas leem também clássicos, como Simone de Beauvoir e Angela Davis.

    Para a antropóloga Heloisa Buarque de Almeida, há algumas hipóteses para esse contato prematuro com o feminismo. Entre eles, inevitavelmente, a internet, além de um ressurgimento do movimento nos últimos dez anos, associado às demandas por equiparação salarial, pela defesa do corpo, direito ao aborto e em combate à violência contra a mulher. 

    “Há uma mudança no panorama de comunicação. Não é só TV e rádio, mas também internet, as novas redes sociais… Tudo isso atinge muito mais as pessoas mais jovens do que as mais velhas. O acesso e o uso da internet tem corte de classe e tem corte de idade, os mais jovens usam mais. Essas meninas foram então se informando por canais alternativos.”

    Heloisa Buarque de Almeida

    Antropóloga, ao Nexo

    Embora reconheça haver certa ingenuidade no debate levado por essa geração, a antropóloga destaca a importância do fenômeno, porque o tema faz refletir sobre questões muito íntimas na esfera privada. Ao falar de feminismo, as estudantes refletem sobre relações de amor, entre pais e filhos, entre mulheres. Refletem sobre o trabalho doméstico, a violência doméstica, a violência que mata e as violências simbólicas - como as cantadas na rua.

    Outro ponto relevante, lembra ela, é a resposta que o movimento dá a retrocessos do Congresso Nacional, em tempos nos quais políticos hostilizam o que chamam de “ideologia de gênero” nas escolas - basicamente, o debate em torno das questões de gênero.

    Segundo Buarque de Almeida, enquanto isso, há uma demanda crescente de instituições de ensino em busca de cursos e orientação para tratar da questão. O núcleo de estudos que coordena na USP, o Numas (Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença), criou, recentemente, um projeto de extensão para atender a essa procura, levando pesquisadores para as escolas em palestras e oficinas voltadas para alunos, pais e professores.

    A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie publicou, neste ano, "Para Educar Crianças Feministas”, que propõe quebrar as barreiras de gênero por meio da educação, outro exemplo sobre como tratar da questão de gênero com jovens alunos.   

    Conheça algumas dessas jovens, estudantes do ensino médio da rede pública de ensino:

    Ana Júlia Ribeiro, 16

    Curitiba (PR)

    “Eu acho que estava no nono ano e fui fazer uma redação, o tema era ‘Quem sou eu’. Eu não sabia o que era feminismo na época, mas me coloquei no texto como feminista. Na hora que fui fazendo veio essa ideia e aquilo foi se enraizando. Hoje, me considero feminista e luto pelo feminismo.

    Na minha escola não existe coletivos de meninas. É meio que cada uma por si. Mas converso muito com amigas sobre isso. Em sala de aula, por exemplo, a gente não estuda mulheres. Não conheço filósofas mulheres, nem teorias feitas por elas. Não é possível que durante toda a história não tenha tido mulheres falando sobre filosofia.

    Na escola, há mais espaço para os alunos falarem depois das ocupações. As meninas que estavam à frente do movimento aqui. Quem puxaram as ocupações foram elas. Quando ia visitar outras escolas, eu via a mesma coisa, eram as ditas minorias.

    Acho que tive contato bem mais cedo que todas as mulheres da minha família com o feminismo. Minha mãe aprendeu um pouco por mim. Quando comecei a falar sobre isso, coisas que nem sabia direito, queria ouvir a opinião dela, e acho que o que ela falava naquela época era bem diferente do que pensa hoje. Como a questão do aborto, por exemplo, hoje ela não vê com todo aquele peso de que não pode abortar nunca. Em alguns pontos ela mudou muito, com as nossas conversas.

    Agora estou lendo sobre feminismo branco e negro. Assisti a um vídeo na internet de uma doutora falando sobre o tema, sobre as relações entre as castas, tentando explicar feminismo. Recentemente, eu conheci a Djamila Ribeiro num seminário do qual participei, em São Paulo, e agora acompanho as coisas que ela escreve.”

    Ana Paula de Souza dos Santos, 18

    Porto Alegre (RS)

    “Feminismo está muito em alta na escola. Ano passado, no início do ano, a coordenadora passou nas salas para dar boas-vindas aos alunos e falou para as meninas ‘cuidarem’ das roupas que usavam. Naquela semana inteira, sem combinar, todo mundo foi de shorts. Foi uma semana bem importante, porque estava todo mundo questionando esse tipo de coisa, até os professores. Hoje em dia, quando vemos um problema com as meninas, batemos o pé para que seja resolvido. Eles [os diretores] sabem que se falarem ‘não’, vai ter uma multidão de gente na direção.

    Os professores também estão fazendo uma autocrítica sobre a aula. Tomam mais cuidado para não usar apenas pronomes masculinos ou se referir a profissões como se só houvesse homens nelas. Em matemática, tem aquela coisa de exatas não ser para mulher, então agora a escola fala em ter uma professora para a matéria. São coisas pequenas que significam muito. 

    Nas ocupações, pela primeira vez, a gente teve espaço de protagonismo. As principais comissões sempre tinham mulheres, seja na limpeza, na comunicação, na segurança, sempre tínhamos um equilíbrio de gênero. Dissemos que se não tivesse também homem na cozinha, ninguém ia comer. Foi uma construção, um espaço que nunca tivemos na escola, no cotidiano. Podíamos ser quem quiséssemos, usar a roupa que queríamos.

    Sigo algumas páginas no Facebook, como a “Vamos Juntas?” e “Você não está louca”. Elas foram muito importantes para mim, porque às vezes eu realmente achava que estava louca, que problemas eram coisa da minha cabeça. Depois comecei a ler várias meninas de Porto Alegre, que falavam sobre temas específicos, como feminismo negro, feminismo relacionado à prostituição, violência contra a mulher. Acompanho a Marcia Tiburi, a Winnie Bueno, a Rosana Pinheiro e a Júlia Franz, entre outras.”

     

    Ana Flavia Barbosa, 16

    Brasília

    “Atualmente, eu estudo em um colégio onde o debate é mais aberto. Mas uma vez fizemos um projeto em que as feministas foram atacadas. Tínhamos que escrever qualquer coisa nos papéis que forravam as mesas e meninos deixaram mensagens como ‘morte às feminazis’ e ‘queimem as bruxas’. A diretora então passou em sala para debater isso e as meninas puderam falar.

    O que mais ganhei com o feminismo foi a liberdade: de poder ser quem eu sou, usar o que eu quero usar, fazer o que eu quero fazer.  Eu sempre briguei com meu irmão toda vez que ele era machista, chamando ex-namoradas de ‘puta’ ou ‘vagabunda’. Hoje, mesmo que às vezes a gente não tenha uma relação legal, ele percebeu que tem que me respeitar. Não só a mim, mas as meninas todas. Não ouvi mais ele falando assim.

    Em 2016, houve as ocupações de escolas por todo o Brasil. Isso mostrou que as mulheres são realmente linha de frente. As tarefas eram divididas, as mulheres eram maioria, as plenárias eram democráticas. As ocupações mostraram nosso poder, nossa independência e nossa organização. A gente mostrou qual a escola, qual educação pública queremos, o que a gente pensa, quais são os nossos ideais.

    Eu leio Carolina de Jesus, Simone de Beauvoir. Comecei a ler ‘Mulher, Raça e Classe’ [de Angela Davis]. Li um pouco sobre a Patricia Hills e sobre o Black Lives Matter. Leio blogs e páginas do Facebook, como ‘As Minas na História’ e “AzMina”.”

    Vitória Barreto, 17

    Brasília

    “Cresci com minha mãe e, desde muito pequena, comecei a brincar de carrinho e outras coisas de menino. Minha mãe sempre falava que eu não podia, por ser de menino. Eu pensava: ‘Como assim? Por quê?’. Nunca entendi ao certo. Eu nunca gostei de boneca. Não fazia o menor sentido eu brincar de algo de que eu não gostava.

    No colegial, uma vez, eu defendi uma menina numa discussão e um garoto me chamou de feminista. Fiquei pensando nisso… feminismo tem a ver com mulher, então fui pesquisar. Vi que sou isso mesmo.

    Comecei a ler mais, ouvir relatos, assistir a documentários. Me apaixonei por sociologia e por filosofia. Vi que sou uma ativista feminista revolucionária. Comecei a participar também dos movimentos sociais. Nos movimentos, vi que os homens se respeitavam entre si, mas não respeitavam as mulheres. Tinha assédio, violência, várias coisas. Para mim, tudo é machismo. Nascemos numa sociedade altamente machista.

    É muito difícil essa questão da mulher na sociedade, de como ela é aceita, como ela é submissa. Só serve para reproduzir e ficar calada. Ela não pode se impor, expressar opiniões nem ideias. Conforme fui criando corpo de mulher, fui vendo como era difícil, que havia estupros, violência, violência psicológica. Estamos conversando sobre um assunto libertador, mas uma mulher pode estar sofrendo, pode estar morta. Precisamos combater isso e é um caminho enorme. Não devíamos ter que empoderar meninas. Isso já devia nascer com a gente.

     

    Ingrid Rieger Rocci, 17

    São Paulo (SP)

    “Eu me tornei feminista em 2015, quando tinha 15 anos. Antes, eu era uma pessoa mais insegura, com baixa autoestima. Fiquei sabendo pela minha irmã mais velha, que já é formada. Hoje ela tem 32. Aprendi também por páginas do Facebook com as quais me identificava, que falaram sobre mulheres poderem ficar com quem quiserem e decidirem sobre o próprio corpo.

    Acompanhar esses temas, além de me abrir portas, despertou meu interesse pela política e pelos movimentos sociais. No ensino fundamental não falávamos muito sobre esses assuntos, mas no ensino médio debatemos bastante nas aulas de sociologia e filosofia. Mas acho um pouco tarde. Na escola, muita gente ainda é machista ou tem ideias meio antigas.

    Um professor de Educação Física uma vez nos disse que mulher tinha que se dar valor, que quando usa shortinhos, tá pedindo para os outros olharem. As meninas não deixaram passar e discutiram. Ele mudou de assunto, não falou mais sobre isso, mas manteve sua opinião.

    De alguns anos para cá, tem muita gente mudando de opinião, por conta desse debate. Eu não me calo. Faço feminismo sem demagogia. Gosto bastante da Simone de Beauvoir, da Frida Kahlo. Hoje em dia, todas as pessoas que são feministas na TV, já começamos a gostar. Quando comecei a falar sobre essas coisas com minha mãe, acho que ela também se sentiu mais empoderada.”

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: