Ir direto ao conteúdo

Quais os efeitos da trajetória de Doria sobre Alckmin

Início da gestão na capital paulista tem conferido projeção ao tucano, a ponto de integrantes do PSDB o considerarem um nome viável para 2018, posto cobiçado por seu padrinho político

    A eleição de João Doria (PSDB) para a Prefeitura de São Paulo em 2016 representou importante suporte aos planos do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), de sair candidato à Presidência em 2018. Passados apenas três meses de gestão na capital paulista, a influência de Doria para os planos de Alckmin se transformou de apoio para um sinal de atenção.

    O prefeito e o governador são amigos. Doria foi escolhido candidato por vontade de Alckmin. Além da aposta em um nome novo para vencer o PT na capital, o empresário é um aliado relevante numa eventual disputa presidencial, em razão do vínculo dele com o setor empresarial — elo de peso em uma campanha ao Planalto.

    Alckmin disputa a candidatura pelo PSDB com o senador Aécio Neves (MG), presidente nacional da legenda. Logo, contar com outras fontes de apoio poderia ser relevante para Alckmin. Mas recentemente ao menos parte dos integrantes do PSDB começou a ver justamente em Doria uma outra alternativa para as eleições presidenciais, segundo relatos publicados pela “Folha de S.Paulo”, no domingo (5).

    O que fez Doria entrar no radar

    Efeito Lava Jato

    Tucanos avaliam que os desdobramentos da investigação podem desgastar nomes tradicionais do partido. No atual momento, Aécio é alvo de dois inquéritos na Lava Jato e seu nome tem aparecido em delações premiadas. Alckmin não é investigado, mas delatores lançaram suspeitas de propinas em obras do governo de São Paulo.

    Avanço de outsiders

    Como consequência dos desgastes provocados pela Lava Jato à imagem da classe política, a leitura do momento é que rostos novos e pouco associados a partidos, os chamados outsiders, têm mais chances de sucesso entre os eleitores. A avaliação é partilhada por cientistas políticos, em análises recentes feitas ao Nexo.

    Em paralelo, Doria está atraindo atenção para seu governo. Ao menos por ora, o estilo de gestão adotado por ele, que inclui muitas aparições e uso intenso de redes sociais, agradou parte considerável do eleitorado paulistano, segundo pesquisa do Instituto Datafolha. Alckmin, de acordo com levantamentos recentes de intenção de voto, perdeu força entre o eleitorado.

    Alckmin nas pesquisas

    A trajetória inicial do empresário à frente da prefeitura já vinha fazendo com que ele fosse considerado um sucessor de Alckmin ao governo de São Paulo em 2018. Embora se trate de movimentações ainda recentes, o fato é que elas tiveram efeito sobre Alckmin.

    Seja para garantir seu espaço na disputa presidencial, seja para buscar a mesma popularidade que Doria conquistou até agora, o governador já deu três sinais de que está atento à trajetória de seu aliado.

    Declaração pública sobre 2018

    Alckmin evitava falar claramente sobre suas intenções de ser candidato à Presidência. Até então, cabia ao próprio Doria fazer a propaganda antecipada do aliado. Durante a campanha de 2016, por exemplo, o empresário não se furtava a declarar que seu candidato em 2018 era Alckmin. O governador, por sua vez, tergiversava:

    “Olha, [a eleição] está muito longe, né? Meu pai dizia que a cada dia sua agonia. Nós temos que fazer bem feito o que estamos fazendo hoje. Agora, se você perguntar ‘o senhor pretende ser candidato?’ Eu respondo: ‘candidatíssimo à presidência do Peixe, do Santos Futebol Clube’”

    Geraldo Alckmin (PSDB)

    governador de São Paulo, em declaração em 13 de maio de 2016

    Nesta segunda-feira (6), em um evento voltado a empresários, as palavras de Alckmin pela primeira vez foram outras:

    “Se eu disser que não quero ser [candidato à Presidência], que não pretendo ser, não é verdadeiro. Agora, cargo majoritário não é vontade pessoal, é fruto de uma vontade coletiva. E tudo tem seu tempo”

    Geraldo Alckmin (PSDB)

    em declaração em 6 de março de 2017

    Presente no mesmo evento, Doria voltou a dizer que Alckmin é seu candidato, por quem disse ter “gratidão”. Quando questionado por 2018, ele costuma responder que seu compromisso é “prefeitar”.

    Mais vídeos nas redes sociais

    A presença constante na internet é uma das marcas de Doria. O prefeito publica pelo menos dois vídeos por dia em seu perfil no Facebook, cuja página é seguida por mais de 2,1 milhões de usuários. Seu padrinho político é seguido por 858 mil.

    Até janeiro de 2017, o governador dedicava espaço a vídeos institucionais, com registros de sua agenda ou de programas do governo. Aqueles em que somente ele próprio fala, sem grandes produções (a exemplo do que Doria faz), foram apenas quatro.

    Em 26 de janeiro de 2017, Alckmin começou a adotar estilo do prefeito, com vídeo mais curtos, nos quais fala diretamente para a câmera e com uma mensagem rápida. Foram 20 postagens desde então.

    Perfil de gestor

    Uma das estratégias de Doria na campanha eleitoral foi a de construir uma imagem de gestor. “Não sou político”, repetia. Depois de eleito, o prefeito enfatizou essa característica, priorizando agendas em que aparece limpando ruas ou fiscalizando unidades de saúde. Alckmin vem tentando incluir essa abordagem ao seu estilo e à sua agenda pública.

    Ao menos nas redes sociais, o enfoque principal dado às atividades do governador era de caráter institucional, com registro de visitas a obras ou de inaugurações. As postagens costumavam ser intercaladas por fotos de família e imagens com cenas cotidianas, como cumprimentos a eleitores, tomando café em padarias ou engraxando sapatos.

    Já no fim de janeiro, juntamente com a estratégia de postar mais vídeos, o tom institucional passou a vir acompanhado de frases que lembram seu afilhado político: “Vamos continuar o trabalho para melhorar cada vez mais”. No dia do aniversário da capital, 25 de janeiro, ele apareceu recolhendo lixo deixado pelo parque da Água Branca e diz que vai “cuidar” e “fiscalizar” o local.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!