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5 fatos sobre as mulheres no Brasil, segundo este estudo do Ipea

Pesquisa domiciliar feita entre 1995 e 2015 traz dados sobre trabalho, família, escolaridade e uso do tempo das mulheres brasileiras

    As mulheres brasileiras estão no mercado de trabalho, são chefes de família e apresentam níveis de escolaridade maiores do que os homens. No entanto, a inserção no mercado atingiu um “teto” nas últimas duas décadas, sem beneficiá-las pelo maior grau de escolaridade. Desigualdades entre mulheres negras e brancas, a nível de escolaridade e renda, por exemplo, também persistem.

    Os dados do cenário descrito são do estudo “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça”, divulgado no dia 6 de março pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e feito em parceria com a ONU Mulheres. O estudo analisou indicadores com base na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), entre 1995 e 2015. Abaixo, selecionamos cinco conclusões:

    A ‘dupla jornada’ das mulheres permaneceu praticamente inalterada

    “A responsabilização das mulheres pelo trabalho doméstico não remunerado segue sendo o padrão predominante na sociedade brasileira”

    Trecho do estudo ‘Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça’

    O índice de mulheres que declaram realizar atividades domésticas se manteve quase inalterado em mais de uma década e meia: 94,1% das mulheres maiores de 16 anos realizavam tarefas domésticas em 1995, e 89,9% em 2015.

    Sem mudança

     

    O número de horas dedicadas por elas aos serviços de casa foi reduzido no período, de 30,9 horas semanais para 24,4 — essa pergunta só começou a ser feita pela pesquisa em 2001, portanto não há dados desde 1995. Mesmo assim, o tempo é muito superior ao gasto pelos homens, que não se alterou.

    Queda tímida

     

    Portanto, o fato de as mulheres exercerem atividade remunerada não fez com que surgisse uma nova divisão das tarefas entre homens e mulheres nos domicílios.

    7,5

    é o número de horas semanais que, em média, as mulheres trabalham (trabalho remunerado + não remunerado) a mais que os homens

    Quanto mais alta a renda entre as mulheres, menor a proporção das que afirmam realizar afazeres domésticos: entre aquelas que apresentam renda de até 1 salário mínimo, 94% dedicavam-se aos afazeres domésticos em 2015, contra 79,5% das mulheres com renda superior a 8 salários mínimos.

    A porcentagem menor de mulheres mais ricas que realizam trabalho doméstico não implica, entretanto, uma divisão mais igualitária das tarefas na família — elas têm, em vez disso, a possibilidade de contratar trabalhadoras domésticas e maior acesso a eletrodomésticos.

    Mulheres atingiram um ‘teto’ na participação no mercado de trabalho

    Os últimos vinte anos indicam que as brasileiras atingiram um “teto” de participação no mercado de trabalho. Entre 1995 e 2015, de 54% a 55% das mulheres de 16 a 59 anos estavam no mercado de trabalho. Ou seja, praticamente nada mudou. Quase metade das brasileiras em idade ativa, portanto, está fora do mercado de trabalho.

    A título de comparação, os homens chegaram a registrar, no período, uma taxa de 85%. Agora, no último ano pesquisado, esse índice estava em 78%.

    A explicação para o estancamento na participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro nos últimos 20 anos é que elas continuam a ser responsáveis pelo trabalho doméstico não remunerado e também por trabalhos de cuidado, não só de filhos pequenos como de pais idosos, segundo a pesquisadora do Ipea Natália Fontoura, em entrevista ao Nexo.

    Renda das mulheres negras aumentou, mas elas ainda são a base da pirâmide

    O trabalho doméstico remunerado ainda é, segundo os dados de 2015, a ocupação de 18% das mulheres negras e de 10% das brancas no Brasil.

    Em vinte anos, sua importância diminuiu pouco entre o número total de mulheres com emprego: de 17,3% para 14,3%. Mas há, atualmente, um envelhecimento na categoria e menos mulheres jovens trabalhando como domésticas: mais de 51,5% das trabalhadoras domésticas tinham até 29 anos de idade em 1995 e somente 16% estavam nessa faixa de idade em 2015.

    “O crescimento de renda da mulher negra foi muito grande, maior do que a média de aumento entre a população ocupada, e o crescimento da renda das empregadas domésticas tem a ver com isso. É um exemplo bom de avanço que não resolveu a distância. Mesmo tendo crescido tanto, continua sendo a menor [renda], muito mais baixa que a dos homens brancos”, diz Natália Fontoura.

    Comparação

    Entre 1995 e 2015, a renda média das mulheres negras teve crescimento real (descontando a inflação do período) de 80,1%. No entanto, elas seguem com a menor renda em comparação com as mulheres brancas e com homens negros e brancos.

    A proporção de domicílios chefiados por mulheres cresceu

    Em 1995, 23% dos domicílios tinham mulheres como pessoas de referência, pergunta feita na pesquisa domiciliar com o objetivo de identificar o/a chefe de família.

    Em 2015, o número chegou a 40%, principalmente nas cidades, onde a quantidade de domicílios com mulheres como pessoa de referência cresceu 18 pontos percentuais (na área rural, a variação foi menor, de 10 pontos).

    Aumento

    Segundo o estudo, os lares chefiados por mulheres não são exclusivamente aqueles em que não há a presença masculina: o cônjuge está presente em 34% deles. Ainda assim, o patamar de famílias chefiadas por mulheres sem cônjuge e com filhos é elevado, e a vulnerabilidade social nesses casos é maior, uma vez que a renda média das mulheres, especialmente a das mulheres negras, continua bastante inferior à dos homens.

    “Podemos atribuir o aumento em parte à mudança de percepção das próprias mulheres sobre sua posição na família”, diz Ana Laura Pinheiro ao Nexo, pesquisadora do Ipea que também participou do estudo. “A noção de chefe esteve por muito tempo associada ao homem, pelo seu lugar nas convenções sociais, mas também por terem acesso a maior renda. Para além do aumento na proporção de mulheres que são as principais responsáveis pelo domicílio, uma parcela começa a se perceber como responsável nas decisões da casa, ainda que tenham companheiros morando junto.”

    Média de anos de estudo cresceu para todas as mulheres, mas diferença de escolaridade entre negras e brancas permanece

    Em 2015, entre as mulheres brancas com 15 anos de idade ou mais, 4,9% eram analfabetas. No caso das negras, este número era mais que o dobro: 10,2%. Vinte anos antes, a taxa de analfabetismo entre as mulheres brancas era de 10,1%, e entre as mulheres negras, 23,1%.

    Em alta

     

    “Apesar dos avanços nos últimos anos, com mais brasileiros e brasileiras chegando ao nível superior, as distâncias entre os grupos perpetuam-se”, diz o estudo.

    A média de anos de estudo cresceu para todas as mulheres, mas a diferença de escolaridade entre negras e brancas permanece. Em 1995, mulheres brancas tinham em média 6,1 anos de estudo, e mulheres negras, 4,2. Em 2015, a média de anos de estudo das mulheres brancas cresceu para 8,5, enquanto as mulheres negras têm, em média, 7,1 anos de estudo.

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