O que acontece quando o eleitor acha que está ‘todo mundo na lama’

Dois cientistas políticos avaliam quais as consequências diante de um cenário marcado pela Lava Jato, que atinge lideranças dos principais partidos, e em que a maioria do eleitorado associa política à corrupção

     

    As investigações da Lava Jato têm como ponto comum o envolvimento de políticos dos principais partidos em atuação no país, entre eles o PMDB, PT, PSDB e PP. Ainda em 2017, o Supremo Tribunal Federal deve dar sequência a ações que podem levar a julgamento dezenas de parlamentares e ministros, suspeitos de envolvimento com o esquema de corrupção na Petrobras.

    Em meio ao avanço da operação, institutos de pesquisa identificaram um aprofundamento da rejeição do brasileiro a partidos e a políticos. Em novembro de 2015, por exemplo, pela primeira vez a corrupção apareceu como o maior problema do país, para 34% dos eleitores, segundo o Datafolha. Até então, saúde liderava essa relação.

    Em fevereiro de 2017, levantamento encomendado pela Confederação Nacional do Transporte ao Instituto MDA mostrou que para 91% dos entrevistados nenhum partido político está “livre de corrupção”. Quando questionados a quem se relaciona a “prática da corrupção”, 58,6% responderam “políticos”, 25% responderam “população em geral” e 4% disseram “empresários”.

    Como o eleitor escolhe neste cenário

    A pesquisa CNT/MDA ouviu 2.002 pessoas, em 138 municípios das cinco regiões do país, e tem margem de erro de 2,2 pontos percentuais. No mesmo levantamento, o instituto perguntou em quem os eleitores votariam se as eleições presidenciais ocorressem agora. Na versão estimulada, em que o pesquisador sugere os nomes, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera nos três cenários. O petista manteve a liderança registrada nas outras três edições do levantamento.

    Desempenho parecido foi identificado pelo Datafolha, em pesquisa feita em dezembro de 2016. O petista, que deixou a Presidência em 2010, aparece em primeiro mesmo diante de um contexto negativo à sua imagem. Ele é réu em cinco ações penais, três delas no âmbito da Lava Jato, e seu partido ainda não se recuperou de desgastes importantes, com o impeachment de Dilma Rousseff e derrotas nas eleições municipais.

    Intenção de voto para 2018

     
     

    Outros possíveis candidatos, o senador Aécio Neves (PSDB) e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), perderam preferência entre o eleitorado. Aécio responde a dois inquéritos na Lava Jato e há menções a campanhas do tucano em delações de executivos da Odebrecht. O senador diz que todas as doações recebidas foram legais.

    Alckmin não é investigado, mas delatores mencionaram pagamentos de propinas em contratos do governo paulista e caixa dois para suas campanhas em 2010 e 2014, declarações negadas pelo tucano.

    A ex-senadora Marina Silva (Rede), que ficou em terceiro lugar nas últimas duas eleições presidenciais, também perdeu preferência. A fundadora da Rede não é investigada pela Lava Jato, mas tem aparecido pouco em agendas públicas e seu partido ainda tem reduzida expressão nacional.

    Na versão espontânea, quando o pesquisador não sugere nomes ao eleitor, Lula também aparece em primeiro colocado. Em fevereiro de 2016, a liderança era de Aécio, mas o percentual de votos no tucano caiu.

    Intenção de votos para 2018

     

    Nesse cenário, Aécio foi superado pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que também cresceu na pesquisa estimulada. Militar da reserva, ele ficou conhecido por sua ligação com pautas conservadoras no campo dos costumes e também por ostentar um discurso duro contra o PT. O deputado não é investigado pela Lava Jato.

    Nos cenários de segundo turno, Lula venceria as disputas contra Aécio, Marina e o presidente Michel Temer. Já o tucano venceria se concorresse com Temer e ficaria numericamente empatado com Marina. A ex-senadora só venceria se disputasse com Temer. Bolsonaro não foi colocado nos cenários de segundo turno.

    Projeções para 2018

    As pesquisas de intenção servem como indicadores do momento presente. Ainda não é possível dizer como a Lava Jato vai interferir no cenário eleitoral de 2018, nem quem de fato será candidato à Presidência. No entanto, a operação continuará a ter desdobramentos, o que deve manter em evidência a temática da corrupção e revelações contra políticos e partidos.

    O Nexo perguntou a dois cientistas políticos como o eleitor se coloca diante desse cenário, considerando as atuais circunstâncias e os resultados verificados por pesquisas de intenção de voto. São eles:

    • José Paulo Martins Junior, cientista político e professor da Escola de Ciência Política da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)
    • Vitor Marchetti, cientista político e professor da UFABC (Universidade Federal do ABC)

    Qual a consequência eleitoral quando se tem a sensação de que, para o eleitor, todos os políticos estão associados à corrupção?

    José Paulo Martins Junior A corrupção não é uma variável do jogo político. O eleitor, por mais que se preocupe com essa questão, não a leva em consideração no momento da decisão do voto, uma vez que ele entende que todos os políticos são muito parecidos neste quesito.

    O que decide voto na minha opinião, do ponto de vista do eleitor, é o que aquele governante fez no passado pelo cidadão. Isso pode ser um indicativo para entendermos o desempenho do Lula nas pesquisas. Apesar do contexto negativo em que o nome dele aparece, o eleitor se mostra disposto a votar nele por associá-lo a um bom momento que o Brasil teve no passado.

    Políticos nunca tiveram grande credibilidade perante ao eleitor, mas isso se acentuou com a Lava Jato. A questão é saber como o atual momento influenciará o voto. A economia sempre foi um fator de peso nas eleições. A estabilidade predominou em 1994 e 1998. Em 2002, foi o desemprego. A corrupção pode ser essa nova questão conjuntural, que norteia o debate eleitoral, mas não está claro ainda que será esse o foco de 2018. O fator econômico ainda tem influência maior a meu ver.

    Vitor Marchetti  Vejo um efeito causado nem tanto pelo cenário de corrupção, mas pelo método usado para se combatê-la. O centro da investigação da Lava Jato é a estruturação partidária e atingiu todas as legendas porque pegou uma questão delicada, que é o financiamento de campanha. Esse processo de esfacelamento reforça uma característica já conhecida do eleitorado brasileiro de priorizar pessoas e não partidos.

    O cenário que une, de um lado, a liderança de Lula e, de outro, o crescimento de Bolsonaro é o de derretimento completo das organizações políticas partidárias. Com isso, sobram figuras, pessoas. Lula tem um capital de imagem e de liderança que é próprio dele e há muito tempo extrapola a capacidade do PT de organizar candidaturas. O Bolsonaro, guardadas as devidas proporções, tem uma lógica parecida. Ele se mostra como uma figura que corre por fora dos partidos e que tenta se projetar para ser um anti-Lula.

    Que cenário surge em um contexto como esse? Algum perfil político é mais favorecido?

    José Paulo Martins Junior Já estamos observando no Brasil e no mundo a emergência de outsiders. O cenário brasileiro, de descrença ainda maior com partidos, favorece essas figuras. Não vejo o Bolsonaro como um exemplo desse movimento porque ele é antigo na vida pública e a família dele também está na política. Ele se projeta agora em parte por causa das ideias e dos valores que defende, que agradam parte do eleitorado mais conservador, que se opõe ao aborto e à legalização das drogas, por exemplo.

    Hoje, acho mais provável prosperar um candidato outsider que tenha apoio de grandes partidos, a exemplo do João Doria [prefeito de São Paulo, filiado ao PSDB], e de outros nomes como o publicitário e apresentador de TV Roberto Justus, Bernardinho [ex-técnico da Seleção Brasileira masculina de vôlei]... São todos nomes sem uma carreira política prévia, conhecidos publicamente e com pouca ou sem vinculação partidária.

    Vitor Marchetti O que vamos ter de novidade em 2018 é um debate conservador mais organizado e que vai polarizar, de um lado, uma figura que representa um campo de esquerda e, de outro, o campo da direita. Essa pesquisa CNT/MDA mostra essa lógica, com o Bolsonaro como um representante de um campo conservador, com adesão inclusive de eleitores de alta renda e com instrução.

    No campo da esquerda ainda vejo dificuldades de ter alguém capaz de suplantar Lula. No outro, vejo um movimento de quem tenta ser o anti-Lula e que tenta representar melhor essa direita, que vem se reorganizando na última década. Doria [prefeito de São Paulo], por exemplo, cutuca o Lula várias vezes em suas declarações. Ele atrela a esses ataques a ideia de gestor, de trabalhador e da anti-política, um discurso de negação da política que o Bolsonaro também tenta vender.

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