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Qual o problema do assédio russo sobre o governo Trump

Presidente americano e cinco de seus assessores são criticados por supostas ligações indevidas com Moscou. Perguntamos a dois professores de relações internacionais o que os russos querem com isso

    Quando o republicano Donald Trump era ainda candidato à Casa Branca e suas chances de vitória eram subestimadas pela maioria dos institutos de pesquisa e pela imprensa americana, qualquer notícia que sugerisse haver um elo secreto entre o magnata e o governo russo despertava um misto de incredulidade e desdém.

    O candidato era retratado com tanta insistência como um personagem absurdo que a combinação dos nomes dele e do presidente russo Vladimir Putin na mesma frase soava como uma teoria da conspiração.

    A coisa mudou no dia 27 julho de 2016, quando faltavam quatro meses para a eleição. Naquele dia, Trump fez um pronunciamento a seus eleitores. Porém, em vez de falar aos americanos, ele se dirigiu aos russos:

    “Rússia, se você estiver ouvindo, espero que você consiga encontrar os 30 mil e-mails que estão faltando. Acho que você vai ser muito bem recompensada pela nossa imprensa”

    Donald Trump

    Presidente americano, em declaração no dia 27 de julho de 2016, quando ainda era candidato republicano à presidência dos EUA

    Os “30 mil e-mails que estão faltando” eram mensagens que a adversária de Trump na corrida eleitoral, a democrata Hillary Clinton, não havia apresentado à comissão parlamentar que vinha investigando o uso de uma conta privada de e-mail dela para intercambiar correspondências oficiais no período em que esteve à frente do Departamento de Estado americano (equivalente, no Brasil, ao Ministério das Relações Exteriores), entre 2009 e 2013.

    Num país permanentemente preocupado com as questões de segurança, causou espanto que um candidato à Presidência estivesse convidando espiões russos a vasculhar, encontrar e publicar mensagens de uma autoridade do governo, sobretudo uma autoridade que era responsável pelas relações exteriores do país, incluindo assuntos de defesa.

    A questão foi tomada como uma ameaça à segurança, sobretudo pelos democratas que àquela altura tentavam debilitar a campanha adversária. “Isso [a fala de Trump] deixou de ser uma questão de curiosidade, deixou de ser uma questão política, para se tornar um assunto de segurança nacional”, declarou à época Jake Sullivan, conselheiro político de Hillary Clinton.

    A declaração em si não trouxe maiores consequências a Trump nos meses seguintes. Tanto assim que ele acabou se elegendo no dia 8 de novembro e tomando posse no dia 20 de janeiro, sem qualquer interpelação da Justiça por ter supostamente colocado a segurança do país em risco.

    Apesar disso, esse episódio se converteu no primeiro de uma série de associações voluntárias ou não entre Trump e a Rússia. Com o passar do tempo, essas conexões foram envolvendo também assessores próximos do presidente até que, nesta quinta-feira (2), o secretário de Justiça, Jeff Sessions, admitiu ter se reunido duas vezes durante a campanha presidencial de 2016 com o embaixador da Rússia no EUA, Sergei Kislyak. A informação havia sido negada por Sessions na sabatina pela qual ele passou no Senado americano, antes de ser aprovado para o cargo. “Não mantive comunicações com os russos”, é o que ele havia dito aos senadores anteriormente.

    Após a revelação sobre os encontros de Sessions, os jornais americanos recuperaram várias histórias que apontam para o que seriam ligações indevidas entre Trump, seus assessores e políticos e empresários russos. O britânico “The Guardian” montou gráficos mostrando cada uma das cinco conexões reveladas até agora. Mas a principal delas aponta para o próprio presidente americano:

    Dossiês, vídeos, barganha e pressão

    No dia 10 de janeiro, o site americano de notícias BuzzFeed publicou um texto com o seguinte título: “Estes relatórios alegam que Trump tem profunda ligação com a Rússia.”

    O material trazia 35 páginas do original de um relatório que até então era apócrifo, mas que em seguida passou a ser atribuído a um espião privado que havia recolhido informações comprometedoras a respeito de Trump, sob encomenda de rivais democratas.

    A maior revelação do espião, de acordo com o BuzzFeed, era a suposta existência de vídeos com conteúdo sexual envolvendo Trump. Esses vídeos, além de outras informações comprometedoras, estariam em poder dos russos que, sob ameaça de divulgá-los, mantinham o presidente eleito sob controle.

    Trump não apenas negou toda a história como declarou o que ele mesmo classificaria em seguida como uma “guerra contra a imprensa”.

    Conexões no governo

    Jeff Sessions

    O secretário de Justiça de Trump se reuniu duas vezes com o embaixador russo nos EUA durante a campanha presidencial de 2016 e, apesar disso, negou a informação aos senadores que participaram de sua sabatina de confirmação no cargo, em janeiro de 2017. Os encontros aconteceram justamente quando os serviços de inteligência dos EUA investigavam a ação de espiões russos na campanha eleitoral americana.

    Michael Flynn

    O conselheiro de Segurança Nacional de Trump se demitiu do cargo no dia 13 de fevereiro depois da revelação de que ele falou cinco vezes com o embaixador russo em Moscou, no dia 29 de dezembro de 2016, durante a campanha presidencial. Neste mesmo dia, o então presidente Barack Obama anunciava um pacote de sanções contra a Rússia pelos ciberataques atribuídos aos russos, contra os partidos Democrata e Republicano durante a campanha.

    Paul Manafort

    O chefe de campanha de Trump renunciou no dia 19 de agosto após ser implicado num escândalo de recebimento de dinheiro do partido de Viktor Yanukovych, ex-presidente da Ucrânia e aliado de Putin. O jornal americano “The New York Times” também diz que “agências de inteligência dos EUA estão examinando comunicações interceptadas e transações financeiras” entre Manafort e os russos.

    Michael Cohen

    O advogado de Trump é acusado de ter mantido encontros com os russos em agosto de 2016 para discurtir a renúncia do chefe de campanha de Trump, Paul Manafort. Além disso, teria discutido posicionamento de Trump num eventual futuro mandato republicano na Casa Branca, em relação às disputas de interesse russo no leste europeu envolvendo a Ucrânia e a Crimeia.

    Rex Tillerson

    Ao longo de 40 anos, o secretário de Estado de Trump foi presidente, executivo-chefe e diretor da área de gás e petróleo da gigantesca americana ExxonMobil. A empresa foi acusada de agir para debilitar sanções que haviam sido impostas à Rússia. Em 2013, Tillerson foi condecorado com a Ordem da Amizade, dada pelo governo russo.

    Qual o problema do assédio russo sobre o governo Trump?

    O Nexo fez a pergunta acima a dois especialistas em relações internacionais que pesquisam especialmente assuntos de defesa e de segurança internacional.

    ‘Mistura entre assuntos privados e de Estado’

    Gunther Rudzit

    Coordenador do curso de relações internacionais das Faculdades Rio Branco, e consultor em temas de segurança e defesa

    “A primeira preocupação é que um presidente tem que tomar as decisões baseado no que seria um consenso do interesse nacional, não visando interesses da sua própria corporação econômica.

    Então, o fato de o presidente Trump não ter se afastado totalmente dos negócios, ou o fato de seus filhos estarem no comando dos negócios da família e manterem esse contato tão íntimo com o pai, levanta a dúvida sobre se as decisões que ele [Trump] toma como presidente da República são decisões tomadas em nome do interesse nacional americano ou em nome do interesse privado das empresas Trump. Esse é o primeiro problema.

    O segundo problema é que se houver alguma informação comprometedora a respeito de Trump em posse do governo russo, isso poderia ser usado contra o presidente, para chantageá-lo e para que ele não defendesse os interesses americanos.

    Seriam essas as duas principais preocupações, que são preocupações até dos republicanos. Não são preocupações apenas dos democratas da oposição. Trata-se principalmente de defender os interesses americanos na Europa e no Oriente Médio, onde hoje a atuação russa mais coloca em risco os interesses americanos. Envolve, portanto, um risco geopolítico, de disputa de influência.”

    ‘Russos movem guerra híbrida’

    Bernardo Wahl

    Professor de relações internacionais das Faculdades Metropolitanas Unidas e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, especialista em temas de defesa

    “Trata-se de uma importante questão de segurança nacional, área nevrálgica de um Estado nas relações internacionais.

    Se de fato houve uma operação de inteligência russa visando a ajudar a eleger um presidente dos EUA mais favorável a Moscou, e até mesmo a tentar ‘controlar’ o presidente norte-americano, isso significa que o processo político interno estadunidense sofreu alguma interferência externa. Isso não é necessariamente uma novidade, pois operações encobertas com esse fim são frequentes na política internacional, embora, por sua natureza, ocorrem sempre distantes do olhar do público.

    Se a Rússia não é páreo para os EUA em um conflito militar convencional, ela se valerá de outros recursos para se favorecer, como atividade de inteligência, operações de guerra cibernética, armas nucleares, etc. Existe uma ‘arte da guerra russa’, entendida por alguns como ‘guerra híbrida’, que foi vista na guerra da Geórgia, na tomada na Crimeia, na intervenção na Síria, no atual processo político dos EUA, entre outros casos. Um dos objetivos da política externa russa é criar uma ordem internacional que não seja dominada pelos EUA. E influenciar o processo político doméstico desse país pode ser um caminho para isso.”

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