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Por que pessoas que escolhem não ter filhos ainda são estigmatizadas

Pesquisa feita nos Estados Unidos mostra percepção negativa sobre homens e mulheres que abrem mão da paternidade e da maternidade

 

Mesmo com a taxa de natalidade em declínio em várias partes do mundo, como nos EUA, Europa, Japão e também no Brasil, pessoas que decidem não ter filhos são vistas como menos realizadas no âmbito pessoal. 

É o que mostra um estudo feito pela professora de psicologia da Universidade de Indiana, Leslie Ashburn-Nard, e publicado em 2016 nos EUA sob o título “Parenthood as a Moral Imperative? Moral Outrage and the Stigmatization of Voluntarily Childfree Women and Men” (Paternidade Como Imperativo Moral? Indignação e Estigmatização de Homens e Mulheres Voluntariamente Sem Filhos, em português).

Os dados colhidos no país mostraram que pessoas sem filhos são percebidas de maneira menos favorável em relação aos que têm filhos. Segundo o estudo, isso se deve à obrigatoriedade que cerca o cumprimento dos papéis de mãe e pai ao longo da vida.

Trata-se das primeiras descobertas empíricas “sobre a paternidade como imperativo moral”, escreve a pesquisadora.

Qual foi o método utilizado no estudo

Participaram da pesquisa 197 universitários (147 mulheres, 49 homens e um participante cujo gênero não foi informado). Aleatoriamente, foi designada aos estudantes a tarefa de avaliar homens ou mulheres casados que haviam escolhido ter ou não filhos.

Primeiro, foi dito aos participantes que a pesquisa tinha a ver com intuição e com qual precisão poderiam prever o futuro. Cada um recebeu uma versão entre quatro possibilidades de anedotas sobre a decisão de ter filhos tomada por adultos casados. As versões variavam segundo o gênero do protagonista da história e a decisão de ter dois filhos ou nenhum. 

Depois, eles foram solicitados a avaliar qual julgavam ser o nível de realização pessoal de cada personagem e como se sentiam em relação a ele: desaprovação, raiva, ultraje, irritação e nojo em uma escala de 1 (“nem um pouco”) a 5 (“muito”), reações que, segundo a pesquisa, ajudam a preservar a escolha de ter filhos como norma.

A satisfação pessoal, por sua vez, foi medida por uma pontuação de 1 (extremamente improvável) a 7 (extremamente provável) para quesitos como o potencial do indivíduo da história para ser um bom pai ou mãe, satisfação dele e do parceiro na relação conjugal, probabilidade de que a relação termine em divórcio e satisfação com a própria vida em geral.

Segundo o estudo, o gênero das pessoas avaliadas foi levado em consideração, a princípio, como uma variável que poderia ter impacto na percepção sobre pessoas com ou sem filhos sentirem-se ou não realizadas.

O papel de pai e de mãe como imperativo moral e social

Crianças aprendem desde cedo, seja por observação ou por serem ensinadas pelos pais, por colegas e brincadeiras (como “brincar de casinha”), que o exercício da maternidade e da paternidade é, além de típico na sociedade, esperado delas e altamente desejável.

Apesar da pesquisa ter se baseado na realidade americana, “estudos de várias nações demonstram consistência notável em estereótipos de gênero e expectativas [sobre os indivíduos] em culturas diferentes. Estudos conduzidos na Turquia e na Índia demonstram estigmatização similar de pessoas sem filhos à observada nos Estados Unidos”, escreve Ashburn-Nardo.

A diferença entre os gêneros no estudo

Tanto homens quanto mulheres sem filhos foram estigmatizados igualmente no estudo, mostrando que a obrigatoriedade de ter filhos, ao menos nos EUA, pesa sobre ambos os gêneros de maneira semelhante.

Para a pesquisadora, essa descoberta é digna de nota porque boa parte da literatura acadêmica sobre o assunto fala sobre a expectativa de ter filhos que cerca as mulheres.

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