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Como uma pesquisa indica que a floresta amazônica foi moldada pela ação humana

Estudo publicado na revista ‘Science’ mostra que espécies vegetais domesticadas pelas civilizações pré-hispânicas são mais abundantes na selva do que as que não passaram pelo mesmo processo

    A imagem de que a floresta amazônica, a maior do mundo tropical, é um espaço selvagem e de certo modo repelente à presença humana, tendo surgido independentemente da ação do homem, está bem arraigada no imaginário popular. Entretanto, um estudo publicado na sexta-feira (3) na revista Science, de divulgação científica, reforça que, muito longe do que supõe o senso comum, a selva foi amplamente “construída” pela ação antrópica.

     

    A partir da comparação de espécies vegetais, os pesquisadores sugerem que plantas presentes na Amazônia devem ter sido domesticadas pelos primeiros habitantes da região.

     

    Liderada pela bióloga Carolina Levis, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), que também é doutoranda da Universidade de Wageningen, na Holanda, a pesquisa buscou compreender a abrangência do impacto das civilizações pré-colombianas na formação da paisagem amazônica.

     

    A noção de que a Amazônia integra um cenário modificado pela cultura humana é propugnada há décadas por pesquisadores de ciências como a antropologia. Com o estudo recém-divulgado, os cientistas ajudaram a tornar a hipótese mais consistente. Para isso, eles compararam uma série de sítios arqueológicos com a distribuição de 85 espécies vegetais domesticadas pelas sociedades indígenas antes da colonização europeia do continente sul-americano, a partir do século 16.

     

    Descobriram que as espécies domesticadas têm cinco vezes mais chances de serem abundantes hoje em dia do que as que não passaram pelo mesmo processo. Entre as plantas que ganharam a preferência dos ameríndios ao longo dos milênios estão o açaí-do-mato, a castanha-do-pará e a seringueira.

     

    Em entrevista à revista Pesquisa, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Levis explicou que boa parte das domesticações ocorreu no sudoeste da Amazônia, local em que também teriam surgido famílias linguísticas como o Tupi e o Arawak.  “Esses grupos podem ter levado as plantas por grandes distâncias”, afirmou a pesquisadora.

     

    O trabalho contou com a participação de mais de 50 pesquisadores brasileiros de diferentes disciplinas acadêmicas, entre as quais a botânica, a arqueologia e a antropologia.

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