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A relação entre os novos filmes sobre racismo e a violência policial, segundo esta pesquisadora

Para Suzane Jardim, que estuda dinâmicas raciais, três documentários que concorreram ao Oscar de 2017 usam a causa negra para fazer a população branca pensar em seus privilégios

    Dos cinco longas-metragens que concorreram ao Oscar de melhor documentário em 2017, três — “O.J.: Made in America”, “A 13ª emenda” e “Eu não sou seu negro” — são produções que retratam, cada qual a partir de uma perspectiva, o racismo nos Estados Unidos.

    Alimentando o surgimento dessas obras cinematográficas, há uma força evidente e ainda muito atual: a violência da polícia contra jovens negros. É a avaliação que faz Suzane Jardim, historiadora, educadora e pesquisadora de dinâmicas raciais da USP.

    Ela mantém um perfil no Medium dedicado a análises sobre o racismo e também à desconstrução de estereótipos. A pedido do Nexo, a especialista comentou os filmes de um ponto de vista mais amplo, buscando contextualizá-los no presente histórico.

    De acordo com ela, o movimento Black Lives Matter (“vidas negras importam”, em tradução livre), que surgiu em 2013 nas redes sociais, em resposta à truculência policial contra pessoas negras, também “influenciou e inspirou todas as produções”, que, com exceção de “O.J.: Made in America”, fazem uso de imagens de Ferguson, cidade do estado de Missouri onde, em 2014, estouraram protestos após o assassinato do garoto negro Michael Brown por um policial branco. Foi o momento em que o Black Lives Matter ganhou repercussão nacional e mundial.

    “Todos [os filmes] servem como respostas à pergunta que ocupou as bocas e as mentes de toda a sociedade branca: por que ‘vidas negras importam’ e não ‘todas as vidas importam’?. A existência de questionamentos como esse provam o quanto os três documentários são necessários e quanto o princípio de ‘Eu não sou seu negro’ permanece atual: a população branca vive nas sombras, sem conhecer e sem se esforçar para entender a existência e as demandas negras.”

    Suzane Jardim

    Historiadora

    Não por acaso, segundo ela, as três produções exibem cenas do vídeo em que o taxista Rodney King aparece sendo espancado por quatro policiais em 1991 — eles foram considerados inocentes quando submetidos a julgamento.

    “Assim como em 1991, a sociedade pós-Black Lives Matter reagiu aos fatos: nos anos 90, a violência policial e o racismo do Judiciário foram temas de canções de hip-hop, de livros, de pesquisas acadêmicas, de discursos na mídia e do próprio julgamento de O.J. Simpson. Hoje, a causa negra se tornou tema de canções pop, de apresentações no Super Bowl [maior evento esportivo dos Estados Unidos, assistido por milhões de espectadores] e de discussões entre celebridades no Twitter.”

    Entretanto, a historiadora observa que há de se separar o joio do trigo, posto que uma parte da mobilização acabou sendo cooptada pelo mercado, “sem real compromisso com a mudança”. Segundo ela, o próprio fato de os três documentários terem sido indicados ao Oscar, após a campanha #OscarSoWhite, em 2016, “revela muito mais a preocupação com as aparências e com as críticas do que uma repentina e milagrosa tomada de consciência da indústria cinematográfica”.

    De qualquer modo, Jardim diz que os filmes são capazes de promover discussões aprofundadas. “Ouso afirmar, então: nenhum dos filmes é sobre racismo. Todos eles são sobre os Estados Unidos e suas contradições. São todos filmes que nos fazem questionar a narrativa hegemônica e oficial sobre o ‘American way of life’ que influenciou costumes e as políticas em países como o nosso. São três obras que usam a causa negra para fazer a população branca pensar em seus privilégios e no quanto foi e ainda é culpada pela ignorância que faz com que as políticas racistas continuem fortes e atuantes.”

    Ainda num paralelo com a realidade do Brasil, a historiadora explica que, como nos Estados Unidos, os negros e pobres constituem aqui a maioria da população carcerária e a maior parte das pessoas em situação de pobreza. “Isso não é apenas coincidência, é o compartilhamento de um projeto em comum.” A seguir, a análise da especialista sobre cada um dos três filmes.

    ‘O.J.: Made in America’

    Dirigido por Ezra Edelman, o vencedor da estatueta investiga as raízes da tensão racial que acompanha a sociedade americana desde a sua fundação, salientando aspectos como a legislação racista (conhecida como “Jim Crow”) vigente em estados sulistas no século 20 — responsável pela migração em massa de afro-americanos para outros cantos do país, como a Califórnia. Foi para lá que se mudaram os avós de Orenthal James Simpson, o O.J. do título, que se tornaria um famoso jogador de futebol americano, além de suposto pivô de um crime amplamente espetacularizado nos anos 1990. Como afirmam seus produtores, o filme é a crônica da América contemporânea, “uma saga de raça, celebridade, mídia, violência e sistema criminal judiciário”.

    “Uma obra de mais de sete horas sobre um caso que já foi tão explorado pela mídia que muitos pensaram não ter nada de novo para mostrar. Mesmo o diretor da obra, Ezra Edelman, pensou em negar o convite para assumir o projeto por considerar um assunto já saturado. A ideia de produzir um filme sobre O.J. Simpson existia na ESPN desde 2007, mas a aceitação de Edelman só veio em fevereiro de 2014, após ter permissão para produzir um filme sobre O.J. que não focasse em seu julgamento ou na tentativa de descobrir se ele é ou não culpado pelas mortes de sua ex-esposa, Nicole Brown, e de Ron Goldman em 1994. Quem começou a assistir a produção da ESPN esperando belas imagens sobre a glória esportiva de um ex-atleta, seguidas por um pequeno momento sobre sua decadência, se decepcionou. O.J. Simpson se tornou apenas uma alegoria, um recurso usado para destrinchar a história negra norte-americana, a realidade do abuso policial e, principalmente, o fato de que figuras como O.J. Simpson só puderam ser quem foram por viverem na sociedade norte-americana e respirarem seus princípios, seus símbolos e, principalmente, seu racismo. ‘O.J.: Made in America’ tem esse nome exatamente porque seu foco não é uma vida individual e sim uma tentativa de nos mostrar que só a sociedade americana e suas contradições poderiam ter produzido um O.J. Simpson e todos os fatos que fizeram de seu julgamento o ‘julgamento do século’. Esse é o grande trunfo da obra e o elemento que a torna merecedora do prêmio que recebeu. Repensar O.J. Simpson é repensar toda a América, é se forçar a entender que sua história e a história do negro são e sempre serão inseparáveis.”

    Suzane Jardim

    Historiadora

    ‘A 13ª Emenda’

     

    Focado na rede carcerária americana, esta produção, dirigida por Ava DuVernay, busca demonstrar como a corriqueira associação entre negros e mundo do crime foi cuidadosamente construída para atender a interesses privados. O longa analisa dados censitários, entrevista especialistas, além de esmiuçar a história do modelo punitivista da Justiça dos EUA, reforçado após a abolição da escravidão (pela 13ª emenda à Constituição) e a guerra civil nos anos 1860.

    “É o meu filme favorito entre os três. Por��m, dificilmente um filme com tal temática levaria um prêmio como o Oscar. Isso porque ‘A 13ª emenda’ é uma obra que afirma didaticamente e sem medo que grande parte da sociedade americana foi construída e idealizada em cima da morte e do encarceramento em massa da população negra. O norte-americano que assiste a esse documentário é obrigado a compreender que o candidato que ele apoiou em eleições do passado construiu sua vitória e seu governo em cima da morte, da miséria e da prisão de negros e latinos. É obrigado a compreender que os discursos institucionais sobre ‘lei e ordem’, que tanto sucesso fazem até hoje, cresceram e sobreviveram graças à existência de estereótipos sobre a população negra, a recusa de ver os sujeitos negros como mais do que pessoas problemáticas que atrapalham a ordem e a negação do fato de que os problemas existentes nas comunidades negras são em grande parte fruto de políticas institucionais e da ignorância. Ignorância sobre quem é o negro, sobre o que o motiva e o que o revolta. Assistir a ‘A 13ª emenda’ é um convite para repensar toda a cultura punitivista e todo o sistema penitenciário, mas não só. É um convite para repensar a sociedade e seus pilares de sustentação, baseados em um tratamento estatal desigual dado a pessoas que por lei são reconhecidas como iguais: nos EUA, desde 1865 com a promulgação da Décima Terceira Emenda da Constituição Americana e no Brasil desde 1888 com a promulgação da Lei Áurea — ambas leis que encerram o regime escravista e dão abertura para uma integração e uma igualdade que jamais chegou ao povo negro de uma maneira digna.”

    Suzane Jardim

    Historiadora

    ‘Eu não sou seu negro’

    Rodado pelo diretor Raoul Peck, é um documentário que traz à tona aspectos da cisão racial por meio da trajetória de três importantes figuras do movimento negro. Todos têm em comum o fato de terem sido assassinados na década de 1960 e também de serem amigos de James Baldwin, escritor e intelectual morto em 1987 e que conduz a narrativa — montada a partir de um manuscrito incompleto de um livro de sua autoria.

    “Em 1979, James Baldwin, importante escritor, poeta e ativista negro norte-americano, começa a escrever sobre como a ‘terra da liberdade’ nunca o foi por completo e que só pôde ser assim chamada graças às deliberadas tentativas de fingir que o negro é uma exceção, que não faz parte do curso normal da gloriosa e colorida história dos Estados Unidos da América. ‘Remember this house’, obra inacabada devido ao falecimento de Baldwin em 1987, tenta construir uma narrativa sobre o que é ser negro nos EUA usando como base os assassinatos de três de seus amigos pessoais: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King, e é esse escrito que inspira e dá formato ao documentário. A narração da obra, feita por Samuel L. Jackson, é intercalada com cenas de palestras, entrevistas e declarações públicas de Baldwin durante os anos 1960 e 70. Poderia ser um filme de memórias e uma homenagem póstuma a Baldwin, porém, o filme pretende e consegue ser mais. Não é sobre Baldwin. Não é sobre racismo. É sobre a branquitude e ignorância. A grande mensagem deixada ao público após o término da sessão é basicamente a de que a população branca desconhece completamente a narrativa negra do país e o faz por ter medo de ser confrontada por sua própria culpa no ciclo de violência, descaso e opressão. Hoje, em 2017, ao ver o filme e as cenas dos últimos 20 anos usadas em sua montagem, o que percebemos é a continuidade de narrativas subalternas, de construções que não consideram o negro como sujeito da história. O grande recado aqui é: a construção e a continuidade dos EUA dependeram do negro e as vidas negras não podem ser apagadas da narrativa oficial. Ao fazer isso, a branquitude permanece em um ciclo de ignorância e de negação onde o racismo é um fato isolado e não um elemento estrutural dessa sociedade. O filme não é sobre ser negro, nem sobre o mal que o racismo traz. É sobre como os Estados Unidos não podem mais continuar sendo idealizados sem levar a história negra em consideração. Recado válido para todos os países de passado colonial e que tiveram a escravidão negra como ponto de partida.”

    Suzane Jardim

    Historiadora

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