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Estas reconhecidas cantoras africanas se juntaram para dar voz à igualdade de gênero

Artistas de cinco países deram origem ao ‘supergrupo’ Les Amazones d’Afrique. Primeiro disco será lançado em março

    Em 2015, cantoras e instrumentistas mulheres de cinco países da África ocidental e equatorial, algumas reconhecidas internacionalmente, se uniram paralelamente às suas carreiras individuais em um grupo cuja principal intenção é ser uma voz para a igualdade de gênero.

    Juntas, elas são Les Amazones d’Afrique — em português, As Amazonas da África, nome que homenageia mulheres guerreiras no Benin entre os séculos 17 e 19 e também o primeiro grupo musical pop da Guiné composto só por mulheres, Les Amazones de Guinée.

    As “amazonas” são 12: as malinesas Kandia Kouyaté, Mariam Doumbia, Mouneissa Tandina, Mamani Keïta, Mariam Koné, Rokia Koné, Inna Modja e Massan Coulibaly; a beninense Angélique Kidjo; a nigeriana Nneka; a senegalesa Marema; e a gabonense Pamela Badjogo.

    Elas se autointitulam “o primeiro supergrupo da África ocidental só de mulheres”.

    Em 10 de março, lançarão o primeiro disco, “République Amazone”, com 12 faixas. Até agora, só três estão disponíveis nas plataformas digitais como YouTube e Spotify. Uma delas já tem clipe: “I play the kora” (“Eu toco kora”), lançado na quinta-feira (16). Comum na África ocidental, apenas recentemente o instrumento deixou de ser restrito a homens.

    Cantada no idioma mandinga, há versos como “eu sou sua esposa/ você não tem o direito de me bater”, “mulheres do mundo, escutem a nossa mensagem” e “não ria e não zombe de mim/ quando digo que eu quero ser presidente da República/ não zombe de mim/ mulheres, acordem!/ uma mulher comanda hoje a Libéria”.

    As artistas se alternam no repertório e nem todas participam de todas as canções.  O “supergrupo” começou a se apresentar em outubro de 2015, ainda com uma formação inicial. Ao longo de 2016 novas cantoras e instrumentistas foram convidadas.

    Segundo elas, a receita com o trabalho de Les Amazones d’Afrique, que inclui shows e a venda de discos e músicas, é revertida para o Hospital e Fundação Panzi, sediados na República Democrática do Congo e voltados para o atendimento a mulheres. Denis Mukwege, médico cofundador do hospital, recebeu em 2008 o Prêmio de Direitos Humanos da ONU pelo trabalho.

    De acordo com a fundação, mais de 85 mil meninas e mulheres já receberam tratamento ginecológico no hospital. Entre as pacientes atendidas, 48 mil haviam sido vítimas de violência sexual.

    Como começou

    A ideia, relatam as artistas, surgiu em conversas informais em 2014. Inicialmente, eram apenas Keïta, Doumbia, a cantora malinesa Oumou Sangaré e a produtora francesa Valérie Malot, que virou agente do que depois se tornou Les Amazones d’Afrique. Um dos temas recorrentes nessas conversas eram as implicações, nas suas vidas e carreiras, de ser mulher, muitas vezes traduzidas em problemas ou obstáculos.

    “O que nós descobrimos foi que a repressão às mulheres no continente e no mundo é algo que afeta todas as mulheres. Não é uma questão de cor ou cultura, é algo genérico”, disse Malot ao jornal britânico “The Guardian”.

    Além das cantoras, elas queriam também uma banda de instrumentistas mulheres, o que foi uma dificuldade na montagem do grupo, pela predominância de homens na área. Inicialmente, fazer um álbum apenas com mulheres parecia inviável, mas o projeto terminou sendo bem-sucedido.

    “Você está lá com pessoas talentosas, que têm algo a dizer e que você pode ouvir e aprender. A maioria delas são mulheres mais velhas que tiveram um grande impacto em suas sociedades ou em suas cidades de origem”, disse a nigeriana Nneka.

    Mulheres ganhando espaço na música

    Apesar das particularidades do Les Amazones d’Afrique, o grupo acompanha uma tendência global recente de um maior protagonismo das artistas mulheres na indústria da música e o consequente espaço que o tema da desigualdade de gênero vem ganhando.

    No Brasil, artistas mulheres têm se destacado mais como intérpretes e compositoras de gêneros musicais como funk e o sertanejo, que, tradicionalmente, têm um histórico de pouca abertura às mulheres, seja nas letras ou na falta de espaço para que elas cantem e componham.

    No funk, nomes como Valesca Popozuda e MC Carol têm cantado — e se manifestado fora dos palcos — em defesa dos direitos das mulheres, abordando temas como tratamento igualitário, negando julgamentos estéticos e reafirmando o direito a uma sexualidade livre, por exemplo. No caso do sertanejo, já há até um novo termo específico: o “feminejo”, que tem como principais expoentes a cantora Marília Mendonça e a dupla Maiara e Maraisa.

    Nos EUA, novas rappers vêm se destacando nos últimos anos, também num gênero que desde de seu surgimento, nos anos 1970, tem sido pouco aberto às mulheres.

    Em dezembro de 2016, a cantora islandesa Björk, famosa mundialmente no meio da música pop e independente, publicou uma carta em seu perfil no Facebook em que critica o espaço socialmente determinado para cantoras e compositoras, o de tratar somente de assuntos românticos. Björk também disse que o teor das críticas a seu trabalho como DJ tiveram cunho sexista, com avaliações negativas que não seriam dirigidas a DJs homens.

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