Quais museus brasileiros estão liberando uso de imagem de seus acervos

Museus da USP como os de Anatomia Veterinária, Geociências e do Ipiranga terão em breve seu acervo completo disponível na Wikipédia

    A Universidade de São Paulo tem uma série de museus sob sua administração. Eles cumprem uma função educativa importante, mas acabam tendo seus acervos restritos a quem pode visitá-los em suas dependências físicas.

    Essa limitação, no entanto, está sendo revista. Órgãos como o Museu de Anatomia Veterinária e a Matemateca, ambos da USP, estão passando pelo processo de “Glam”, sigla para “Gallery Library Archive & Museums”, algo como “Biblioteca-galeria de arquivos e museus”, que disponibiliza na Wikipédia o conhecimento que guardam.

    Com isso, passam a integrar um movimento mundial de digitalização e abertura para livre acesso on-line às imagens dos acervos dos museus.

    O “Glam” é um processo que resulta do esforço de pessoas e organizações no mundo inteiro para que a informação contida em museus e institutos culturais passe a ser acessada pela internet por qualquer um, livremente e sem custo.

    No Brasil, ele está sendo executado pelo grupo local de usuários da Wikimedia, que é também quem edita muitos dos verbetes presentes no site. São pessoas que trabalham voluntariamente na área de compartilhamento livre de conhecimento na internet.

    O processo tem três etapas:

    1. A digitalização dos acervos
    2. O relicenciamento, que envolve a verificação dos direitos de imagem sobre o acervo
    3. O aprimoramento do uso educacional, produzindo, por exemplo, verbetes sobre as obras e disponibilizando outros conteúdos explicativos a respeito delas 

    Quais museus fazem parte da iniciativa

    O processo de digitalização e upload em domínio público das imagens de peças de museus ainda é raro nos países em desenvolvimento. “Os museus dos países mais ricos normalmente já tem seus acervos digitalizados”, o que facilita o procedimento, diz ao Nexo João Alexandre Peschanski, sociólogo e coordenador de comunicação do NeuroMat, um centro de pesquisa da USP. Peschanski é um dos responsáveis pelo processo de disponibilização dos acervos. “Muitas vezes, museus de países mais pobres não têm nem inventário”, afirma. 

    O Museu de Anatomia Veterinária foi a primeira iniciativa brasileira para disponibilizar um acervo inteiro, com centenas de itens, na Wikipédia, a partir de uma parceria estabelecida em 2014 com a Wikimedia Commons. Atualmente, cerca de 200 imagens já estão disponíveis, entre fotos de ossadas, órgãos e animais taxidermizados presentes no museu. A resposta superou expectativas: as imagens carregadas já atingiram 3 milhões de visualizações globais.

    A “wikificação” do Museu de Anatomia Veterinária da USP também faz parte do projeto. Isso quer dizer que, para tornar o impacto educativo das imagens ainda mais completo, cada uma das peças deverá ter um QR Code, um código que pode ser escaneado usando a maioria dos telefones celulares. Ao código será associado um verbete da Wikipédia que explica cada item do acervo, escrito por um dos bolsistas que colaboram no projeto. 

    O sucesso da iniciativa permitiu que ela se expandisse para outros museus da USP. A coleção da Matemateca, museu ligado ao Instituto de Matemática e Estatística da universidade, está sendo fotografada por um voluntário e progressivamente colocada para visualização na Wikipédia. A ideia não é somente compartilhar o acesso às peças do museu, mas criar um “museu para download”, algo que reproduza a experiência de visitar e descobrir o espaço.

    Por isso, além das imagens, estão sendo produzidos filmes que demonstram experimentos, vinhetas explicativas para as imagens e vídeos em que professores da USP explicam a matemática por trás dos artefatos da Matemateca, que também serão disponibilizados. O carregamento das imagens deve ser finalizado ainda no primeiro semestre de 2017, segundo Peschanski.

    Os próximos acervos a serem democratizados pelo trabalho do grupo do coordenador serão o Museu da Educação e do Brinquedo, espaço vinculado à Faculdade de Educação da USP que trata dos aspectos educacionais das atividades lúdicas, e o Museu de Geociências do Instituto de Geociências da USP. A digitalização do acervo mais importante do Brasil na área de geociências, que tem entre 7.000 e 8.000 peças, deve começar em maio.

    A parceria mais recente do projeto foi feita entre a Wikipédia e o Museu Paulista da USP. Também conhecido como Museu do Ipiranga, ele se encontra fechado para reforma desde 2014 e está previsto para reabrir ao público em 2022.

    No caso do Museu do Ipiranga, trata-se de um acervo de mais de 100 mil peças. As imagens, porém, já existem, o que deve fazer com que o grupo dê conta de colocá-las na Wikipédia sem muita demora, estima Peschanski.

    O que é um museu?

    Além do caráter educativo do uso das imagens, a abertura dos acervos proporciona que se repense o que é um museu e para que — e quem — ele serve, segundo Peschanski.

    “Convencer os museus a licenciarem livremente seu conteúdo é desafio político”

    João Alexandre Peschanski

    sociólogo e um dos responsáveis pela disponibilização dos acervos de museus da USP

    O desafio é ainda maior quando quem está à frente dos museus não está familiarizado com o “creative commons”, licença que autoriza o compartilhamento de conhecimento. Ou, ainda, se considerarmos que coleções privadas, ao contrário do que acontece nos museus da USP, vendem o acesso às obras cobrando uma entrada pela visitação. “Lidar com a ideia do conhecimento livre também é lidar com a ideia de torná-lo gratuito”, diz o coordenador.

    Para Peschanski, as regras de propriedade patrimonial precisam ser revistas para que a abertura das imagens do acervo seja viabilizada. É essa a forma divisada por ele para que os museus possam se adequar ao presente, democratizando seus acervos e atingindo o maior número possível de interessados.

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