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Qual é o problema e o debate por trás da boneca espiã

Brinquedo que interage com crianças foi proibido na Alemanha, sob o argumento de se tratar de um aparelho de espionagem ilegal

     

    Autoridades alemãs proibiram a venda de um brinquedo apelidado de boneca espiã, na sexta-feira (17). My Friend Cayla, produzido pela empresa americana Genesis Toys, é conectado à internet e foi considerado um “aparato de espionagem ilegal” no país.

    A Agência Federal de Redes, órgão alemão responsável por regular as telecomunicações, entre outros serviços nacionais, orientou pais e responsáveis a destruírem exemplares que possuírem em casa. Por sua vez, vendedores e distribuidores devem acabar com os estoques do produto ou desabilitar a conexão wireless da boneca.

    Lançada em 2014, My Friend Cayla possui um sistema de reconhecimento por voz que permite a crianças interagirem com a boneca. É possível, por exemplo, fazer uma pergunta ao brinquedo, que irá respondê-la após acessar sistemas online como o Google e a Wikipedia.

     

    O produto foi alvo de acusações em outros países nos quais é comercializado. O mesmo aconteceu com um robô da mesma companhia, também conectado à rede. Nos Estados Unidos, o Electronic Privacy Information Center (Epic), organização que representa o interesse público, junto a outras entidades de defesa dos direitos das crianças, apresentou uma queixa contra os dois brinquedos na Comissão Federal de Comércio americana.

    A Alemanha, porém, foi um passo além na interdição, resultado de uma lei nacional que proíbe a produção, venda e posse de qualquer objeto de vigilância que esteja disfarçado para outros fins.

    “Estou preocupada com o impacto de bonecas conectadas na privacidade e segurança das crianças.”

    Vera Jourová

    Comissária da União Europeia para  justiça, consumidores e igualdade de gênero

    Qual é o problema da boneca espiã

    Hackers e invasão de privacidade

    Segundo ativistas contrários à comercialização de Cayla, hackers podem acessar o sistema por conexão bluetooth a uma distância de até 15 metros, podendo ouvir  conversas travadas próximas à boneca e até se comunicar com a criança diretamente. Além disso, para se conectar ao aplicativo que coordena o brinquedo, a criança precisa fornecer informações pessoais, como o nome dos pais, nome da escola e predileções, que podem acabar nas mãos erradas devido a um sistema de segurança frágil.

    Finalidade das gravações

    Segundo a CNN, as gravações de áudio capturadas são também armazenadas em um sistema da Nuance Communications, empresa de tecnologia que tem agências de inteligência e órgãos militares como clientes. O vice-presidente da Nuance, Richard Mack, disse que a empresa não vende nem usa as gravações coletadas para fins comerciais.

    Marketing indireto

    Nos Estados Unidos, a boneca foi acusada de divulgar produtos da Disney. A queixa feita pela Epic alega que o brinquedo é pré-programado para dizer frases com referências às produções e parques da companhia, como afirmar que seu filme preferido é “A Pequena Sereia” e sua canção predileta é “Let it Go”, parte da trilha sonora de “Frozen”.

    A invasão da privacidade infantil

    A veículos de mídia, a fabricante manifestou que casos de hackers eram isolados e que estavam sendo analisadas formas de aprimorar a segurança de seus brinquedos.

    Ainda assim, o fato de o aplicativo associado ao produto exigir informações pessoais das crianças viola o Children's Online Privacy Protection Act, lei americana de 1998 que protege os direitos das crianças na internet. Segundo essa lei, websites precisam da autorização de pais para fazer qualquer uso de informações fornecidas online por menores de 13 anos.

    Essa não é a primeira vez que um aparato infantil conectado à rede é alvo de escrutínio. Antes de My Friend Cayla, babás eletrônicas com câmeras revelaram-se um risco. Se, por um lado, permitem que pais acessem imagens dos filhos remotamente, por outro, se hackeadas, possibilitam  que as imagens sejam exibidas em sites acessíveis a qualquer pessoa.

    Os casos chamam atenção para os perigos e precauções envolvidos nos avanços da chamada “internet das coisas” - termo utilizado para se referir à tecnologia de conectar dispositivos do cotidiano à internet. O conceito até ganhou sua subcategoria “internet dos brinquedos”. Estima-se que hoje milhões de câmeras estejam transmitindo imagens íntimas sem consentimento de seus proprietários.

    “Enquanto mais e mais brinquedos são conectados à internet, precisamos nos certificar que a privacidade e segurança das crianças estão garantidas. Quando um brinquedo coleta informações pessoais sobre uma crianças, a família tem o direito de saber e precisa ter opções claras para decidir como a informação de seus filhos será usada.”

    Katie McInnis

    Advogada do Consumers Union, organização voltada para os direitos do consumidor nos EUA

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