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Por que os anúncios da Nasa deixam muita gente frustrada

Agência espacial americana anunciou mais uma grande descoberta: planetas muito semelhantes à Terra numa constelação relativamente próxima. Mas não foi suficiente

No dia 20 de fevereiro a Nasa, agência espacial americana, marcou uma coletiva de imprensa para fazer um grande anúncio. Nos dois dias que se seguiram, um rebuliço padrão se espalhou por redações de jornais e pelas redes sociais. O que poderia ser a mais nova descoberta da mais importante agência de exploração do espaço?

A expectativa tem um pano de fundo em comum entre leigos e entendidos do assunto: a possibilidade de termos finalmente encontrado vida extraterrestre.

“Quando a Nasa convocou para um grande anúncio ‘além de nosso Sistema Solar’ no começo da semana, estava claro que seria algo excitante. E no espaço, a coisa mais excitante que existe é óbvia: alienígenas”

Chau Tu

Jornalista, no site Slate

O anúncio foi menos avassalador, embora extremamente importante para os rumos da ciência. Os astrônomos da Nasa encontraram um sistema com sete planetas rochosos, de proporções semelhantes à Terra, que orbitam uma estrela anã superfria e são potencialmente habitáveis.

“Essa descoberta pode ser uma peça significante no quebra-cabeça de encontrar ambientes habitáveis, lugares que poderiam ser apropriados para a vida. Responder à pergunta ‘estamos sós’ é uma prioridade da ciência e encontrar tantos planetas como esses, na ‘zona habitável’, pela primeira vez é um passo memorável no sentido de atingir esse objetivo”

Thomas Zurbuchen

Administrador associado da Science Mission Directorate, organização da Nasa

O que a descoberta da Nasa significa

A recente descoberta foi publicada simultaneamente à entrevista na revista científica “Nature”. Segundo a pesquisa, os sete planetas do sistema (chamados exoplanetas, por estarem fora do nosso Sistema Solar) giram em torno da estrela anã Trappist-1, em uma órbita curta. E todos apresentam, em diferentes níveis, temperaturas adequadas para a existência de água em estado líquido em sua superfície - o que pode significar, basicamente, condição para vida.

O sistema foi localizado na constelação de Aquário, a 40 anos-luz da Terra. Um avião padrão levaria 44 milhões de anos para chegar lá - uma distância curta em parâmetros universais. 

Se é possível a existência ou não de vida em cada um desses planetas é algo a ser descobertos por investigações futuras. Pelo que se sabe até agora, há tanto bons indícios quanto fatos desencorajadores.

Segundo o jornalista Akshat Rathi, que escreve sobre ciência para o site Quartz, a vida extraterrestre que procuramos provavelmente não está em nenhum desses sete planetas. Mas a recente descoberta coloca os cientistas na direção certa nesta busca.

“[A descoberta] do sistema solar Trappist-1 é importante pois ele servirá como banco de testes para acelerar nossa busca por vida alienígena”

Akshat Rathi

Jornalista, no site Quartz

A mesma interpretação da notícia foi feita pelo executivo do setor aeroespacial Allen E. Hall, em artigo no site Quora:

“O significado dessa e de outras descobertas semelhantes será o desenvolvimento de um programa e de esforços mundiais para responder à questão ‘estamos sozinhos’. Essa é de fato uma questão poderosa e significativa em termos científicos, filosóficos, sociais e religiosos e sua resposta tem o potencial de mudar a humanidade e nossa visão sobre nosso lugar no universo para sempre”

Allen E. Hall

Executivo, ao site Quora

Como foi a recepção à notícia

Ainda não foi dessa vez que o grande anúncio convocado pela Nasa revelaria vida extraterrestre. Mas a descoberta foi a mais perto já feita nesse sentido e permitiu que veículos de notícia inserissem “alienígenas” em suas manchetes de alguma forma. 

“O Santo Graal da Nasa”, escreveu o jornal britânico “Independent”. “Sistema solar que poderia sustentar vida alienígena é descoberto”. “Aliens? Não. Mas as grandes notícias da Nasa ainda são fascinantes”, diz o título do “San Diego Union-Tribune”. “Sete ‘Terras’ alienígenas encontradas orbitando estrela próxima”, diz a “National Geographic”. “Vida pode ter evoluído em três dos planetas”, escreve o “Telegraph”.

A ânsia pela possível descoberta é tratada de forma mais jocosa na internet. Memes ilustram o interesse preciso do público em relação ao comunicado. “Como deveriam ser os anúncios da Nasa”, diz um quadrinho que circulou nas redes sociais, dando as opções: “há alienígenas” e “não há alienígenas”.

Foto: smbc-comics
Coletiva de imprensa
Quadrinho faz piada sobre como deveriam ser os anúncios da Nasa
 

A brincadeira leva também a inúmeras especulações de como seria feito de fato a divulgação da descoberta de vida extraterrestre. A Nasa faria uma coletiva de imprensa? O fato seria divulgado ao grande público ou seria segredo de Estado? Como a humanidade iria reagir?

A ficção científica trabalha com essas possibilidades há anos no cinema e nos livros e é difícil imaginar uma alternativa que ainda não tenha sido registrada de forma fantasiosa. Na maior parte dos casos, na verdade, são os próprios alienígenas que se auto-anunciam, prefaciando uma guerra entre mundos. 

Mas em se tratando de cosmos, realidade e ficção se misturaram algumas vezes. Em setembro de 2015, cientistas da agência espacial americana escolheram uma data precisa para fazer o anúncio da descoberta de água em marte: o dia da estreia, nos Estados Unidos, do filme “Perdido em Marte”, com Matt Damon.

O livro homônimo de Andy Weir, no qual o longa é inspirado, está na cabeceira de boa parte dos entusiastas do espaço. Nele, o protagonista Mark Watney é um astronauta que precisa sobreviver sozinho em Marte após ser considerado morto por seus colegas.

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