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O que fazem as escolas de samba entre março e dezembro

O ‘Nexo’ conversou com integrantes da diretoria de três agremiações sobre o que acontece nos meses menos badalados de preparação para o Carnaval

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    “Todo mês de fevereiro, aquele passo”. O verso da canção “Aquele abraço”, de Gilberto Gil, reverencia algo pelo qual milhões de brasileiros anseiam ao longo do ano: o Carnaval. Além dos foliões anônimos, fevereiro é também aguardado pelas escolas de samba, que, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, fazem desfiles vistosos de repercussão nacional — e até internacional.

    Apesar da evidência que ganham em fevereiro, as escolas precisam de uma preparação longa. O que elas fazem no período de março a dezembro é pouco conhecido mesmo para quem costuma assistir aos desfiles.

    “Nós temos um trabalho de um ano todo. Muita gente pensa que a escola de samba só acontece quando toca a sirene [que indica o início do desfile], e não é nada disso”, disse ao Nexo Fernando Penteado, diretor-geral de harmonia da Vai-Vai, 15 vezes campeã do Carnaval de São Paulo.

    São muitas as etapas para pôr um desfile na avenida: escolha do tema, composição e definição do samba-enredo, confecção de fantasias, adereços e alegorias, organização de ensaios, captação de recursos, entre outras. Abaixo, o Nexo destaca algumas delas e o que dizem pessoas que participam do dia a dia das escolas.

    O enredo

    Na preparação para o próximo desfile, nada vai adiante se não estiver definido o tema da escola. O samba, as fantasias, os carros alegóricos e até os famosos que desfilarão dependem do enredo.

    Cerca de duas ou três semanas depois do fim do Carnaval, há uma reunião dos diretores para dar início ao processo de escolha do enredo do próximo ano.

    “Muitas vezes esse enredo já está até escolhido antes, mas já marca uma reunião, porque o Carnaval tem dia e hora para começar”, diz Penteado. Segundo ele, o enredo precisa estar definido até, no máximo, o início de maio.

    “Geralmente quando você tem algum patrocinador, você fecha [o enredo] antes. Senão, a gente começa a pensar nisso em abril para efetivamente em junho já ter tudo na mão e começar a correr para o Carnaval”, afirma Alexandre Salomão, diretor-geral do Camisa Verde e Branco, escola paulistana que já venceu nove vezes o Carnaval e atualmente está no grupo de acesso, uma divisão abaixo do grupo especial.

    “Hoje as escolas escolhem [o enredo] e guardam a informação para algum lançamento em um momento mais oportuno, visando à publicidade”, diz Pablo Brandão, diretor de divulgação da Mangueira, 18 vezes campeã do Carnaval do Rio, a mais recente em 2016. Segundo ele, a Mangueira costuma decidir o enredo entre abril e junho, variando de ano a ano.

    “Quando se está terminando um Carnaval, a gente já está pensando no próximo, porque esse já era”

    Fernando Penteado

    diretor-geral de harmonia da Vai-Vai

    O samba-enredo

    Para que os compositores ligados à escola escrevam sambas sobre o tema do próximo desfile, eles recebem previamente a sinopse, que é feita pelo carnavalesco e consiste no detalhamento do enredo. Com ela, podem se inspirar e se embasar melhor para compor.

    Na Vai-Vai, diz Penteado, o compositor tem 40 dias entre receber a sinopse e entregar o samba-enredo. No Camisa, são cerca de 30 dias.

    Os compositores competem entre si. Após etapas eliminatórias, chega-se à final, onde é decidido o samba-enredo vencedor que irá ecoar no Carnaval — e também alguns meses antes, quando a escola divulga a música para todos decorarem e o desfile ganhar força.

    A definição se dá geralmente entre setembro e outubro — na Mangueira, por exemplo, são cerca de dois meses para se selecionar o samba-enredo definitivo, de acordo com Brandão. Em seguida, os músicos de cada escola gravam o samba em estúdio, pois em novembro ou dezembro é lançado o disco com as músicas do Carnaval.

    As fantasias e carros alegóricos

    Com a sinopse pronta, o carnavalesco começa a desenhar as fantasias e a se reunir regularmente com os chefes das alas e a diretoria de carnaval, a fim de definirem confecções coerentes com o enredo, que tenham apelo visual e façam sentido na sucessão de alas.

    Em seguida, tem início a produção em si dos carros e das fantasias. Parte delas é vendida para quem tiver interesse em desfilar, mas a maioria é dada pela escola para quem estará na avenida, em geral pessoas da própria comunidade.

    Quando finda o Carnaval, é comum reaproveitar a base e a ferragem dos carros. As escolas definem se vendem, doam ou reutilizam cada adereço e fantasia.

    Salomão conta que o Camisa Verde e Branco vende parte das fantasias para escolas menores do interior e do litoral paulista. “Não tem doação, é venda mesmo que a gente faz, quando não há reaproveitamento”.

    “Precisa limpar o barracão para começar o outro Carnaval”, diz Penteado, da Vai-Vai.

    Nem tudo é preparação para o desfile

    Nem só de samba vivem as escolas. Ao longo do ano, as agremiações realizam eventos que não têm — ao menos diretamente — relação com o próximo desfile no sambódromo.

    As escolas não fecham durante um período do ano. Reuniões entre integrantes da escola ou cursos abertos à comunidade são atividades frequentes nas agremiações.

    Festas, feijoadas, locações, shows e ensaios ocupam as quadras das escolas durante o ano. São maneiras de arrecadar dinheiro e também de manter a proximidade com os moradores da comunidade e região onde a escola está sediada.

    Oficinas e projetos sociais são comuns, inclusive com parcerias com os poderes municipal e estadual. No Camisa, são três cursos: de padaria artesanal, moda e construção civil. Na Mangueira, há cursos profissionalizantes na própria quadra da escola em áreas como manicure, eletricista, cabeleireiro e pintor.

    Em período de crise econômica federal, estadual e municipal, o repasse de verbas do poder público diminui. As escolas, principalmente as do Rio de Janeiro, tiveram um orçamento mais curto em 2017, o que também aconteceu com blocos e outros grupos carnavalescos em todo o país.

    “Hoje essa cultura carnavalesca se tornou um grande espetáculo, que gera empregos, movimenta a economia, atrai turistas para a cidade, é a principal vitrine do Rio de Janeiro, ano após ano. A subvenção [repasse de dinheiro pela prefeitura às escolas de samba], nesse sentido, deve ser entendida como um investimento da cidade na própria cidade”

    Pablo Brandão

    diretor de divulgação da Mangueira

    O glamour da avenida

    Além das cores diversas, plumas, comissões de frente, baterias e carros alegóricos, um fator que atrai a atenção de quem gosta dos desfiles é a presença de celebridades. É comum haver rainhas de bateria que são famosas em outras áreas.

    A Mangueira, por exemplo, que homenageou a cantora Maria Bethânia em 2017, contou com a presença de Caetano Veloso, Alcione, Regina Casé, Chico César, Gaby Amarantos, Adriana Calcanhotto, Mart’nália, Renata Sorrah e Zélia Duncan, além da própria Bethânia.

    Brandão, da Mangueira, diz que famosos não são pagos para desfilar. “Desfila se quiser e se tiver alguma relação com a escola. Para fazer figuração dispensamos”.

    Na Vai-Vai, Penteado afirma que a escola já cogita alguns famosos de acordo com o enredo. “Tem algumas figuras que já são da escola, eles vêm e procuram a escola para desfilar.”

    Ele diz que os 15 dias que antecedem o Carnaval são o “período em que não se dorme mais”. Cerca de uma semana antes, os carros alegóricos são transportados para o sambódromo, onde são feitos os ajustes finais.

    “O pessoal hoje [início de fevereiro] me procura, amigos que me encontram na rua: ‘e aí, tá pronto?’. Não tá, mas quando tocar a sirene, ele pode olhar, que eu tô lá.”

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