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Transmissão de futebol: como Atlético-PR e Coritiba colocam em xeque o atual modelo

Clássico de domingo (19) entre as equipes paranaenses foi cancelado, após times se recusarem a fechar contrato de transmissão com emissora

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    O principal clássico do Paraná não aconteceu no domingo (19). O cancelamento da partida entre Atlético-PR e Coritiba se deu por uma questão política: a disputa dos times para acabar com o monopólio de transmissão dos jogos.

    Os clubes paranaenses recusaram uma proposta da Rede Globo, historicamente detentora dos direitos de transmissão, e decidiram exibir a partida via streaming, pelo canal das entidades no YouTube e no Facebook, com as gravações sendo feitas por uma produtora independente contratada pelos clubes. Ambos têm mais de 20 mil inscritos em suas páginas e o plano envolvia a atuação de narradores, comentaristas e até repórteres de campo.

    No momento do jogo, no entanto, a equipe de transmissão foi impedida pela Federação Paranaense de Futebol de realizar o trabalho. O árbitro Paulo Roberto Alves recebeu ordens para só dar início ao jogo quando as imagens disponíveis na internet fossem interrompidas - o que não aconteceu. Mais de uma hora de um campo esvaziado depois, o jogo foi oficialmente cancelado e a torcida deixou o estádio.

    “Os clubes lembram que a ação pioneira foi realizada, pois as duas equipes não venderam os direitos de transmissão de seus jogos no Campeonato Paranaense, por não concordarem com os valores oferecidos. Diante da posição arbitrária e sem qualquer razoabilidade da Federação Paranaense de Futebol, os clubes lamentam o prejuízo causado ao futebol paranaense, em especial aos seus torcedores.”

    Trecho de nota oficial dos clubes

    O presidente da Federação Paranaense, Hélio Pereira Cury, disse que o jogo não aconteceu pois a equipe de transmissão não estava credenciada. Segundo ele, o credenciamento deveria ter sido feito na federação 48 horas antes do clássico.

    No entanto, em um áudio original da transmissão do clássico, divulgado pelo UOL Esporte na manhã desta segunda-feira (20), o quarto árbitro da partida, Rafael Traci, alega que a interrupção se deu pelo fato de a transmissão não ser feita pelos detentores dos direitos de transmissão do campeonato. O Grupo Globo, em nota oficial, alegou não ter nenhuma relação com o episódio.  

    O impasse foi apenas o último capítulo de um imbróglio que se desenrola nos últimos anos e envolve uma divisão desigual de repasses para clubes na venda de direitos para a televisão e a dependência das equipes em relação a esses contratos.

    “É direito da TV achar que o jogo vale menos do que os clubes querem? É. E é direito dos clubes fazerem o que bem entenderem com os jogos que não venderam para a TV? Sem dúvida, também é.”

    Juca Kfouri

    Jornalista esportivo, em seu blog

     

    O que aconteceu com o ‘Atletiba’

    Segundo a lei nacional, o direito de imagem da partida pertence aos clubes. Ou seja, são eles que decidem quem irá fazer a transmissão de suas disputas, mediante contratos. Esses contratos são por vezes intermediados pelas federações - e representam parte expressiva do orçamento das equipes. Segundo uma pesquisa de 2014, a cota de TV é responsável, em média, por 33% do faturamento dos 24 maiores times do Brasil. 

    As federações de futebol têm por função organizar campeonatos, fazer a escala de arbitragem e lidar com outras questões burocráticas necessárias ao andamento do jogo.

    Segundo a ESPN, tanto o Atlético-PR quanto o Coritiba recusaram proposta da Globo de cerca de R$ 1 milhão para transmitir suas partidas durante três anos. Por isso, sem uma emissora para exibir o clássico, decidiram recorrer ao streaming.   

    Qual é o problema do monopólio de transmissão 

    No Brasil, a Rede Globo historicamente detém o monopólio desses contratos na TV aberta, graças a seu grande poder de negociação. Poucas vezes a emissora perdeu sua exclusividade. Mesmo quando a transmissão foi dividida com outros canais, o concorrente apenas poderia transmitir a mesma partida o que, no final das contas, é vantajoso para o canal, já que reduz os custos de captação.

    O controle pareceu chegar em seu ápice em 2011, quando o Corinthians anunciou sua saída do Clube dos Treze, bloco que reunia as principais equipes do país, com o objetivo de defender os interesses políticos e comerciais de todas elas.

    A retirada estava associada às negociações do bloco com a Record e a RedeTV!. Contrário à transação, o time paulistano alegou que negociaria seus direitos de imagem de forma independente. As demais equipes acabaram indo atrás e fecharam o acordo com a Globo, quebrando o Clube dos Treze. O episódio foi sintomático da influência exercida pela emissora carioca sobre os clubes.

    A exclusividade, por sua vez, é importante para a emissora manter uma audiência cativa, o que aumenta a cota de anunciantes ao longo das transmissões - portanto, o lucro da rede com espaço de publicidade. O controle traz diversas consequências tanto para os clubes, quanto para os espectadores.

    Do que os clubes reclamam

    Divisão desigual de valores

    Por deter os direitos de transmissão dos principais campeonatos, a Globo consegue impor os valores para os contratos de direito de imagem com os clubes, fazendo repasses menores para equipes de menor proeminência. Essa divisão aumenta a desigualdade entre os clubes, fortalecendo aqueles de maior porte e aprofundando crises nos menores.

    Horários e dias escolhidos pela rede

    É do interesse dos clubes que partidas sejam televisionadas, pois assim as equipes têm maior visibilidade - essencial para anúncios e patrocínios. Devido a essa dependência, a emissora acaba decidindo o horário do jogo e quais partidas serão televisionadas. A agenda que mais se adequa à grade da televisão, no entanto, não é a melhor para os clubes, nem para os espectadores: os jogos acabam sendo transmitidos tarde da noite, um desgaste tanto para jogadores em campo quanto para torcedores. Para os que vão ao estádio, a situação é ainda pior: muitos perdem o horário de funcionamento do transporte público na hora de voltar para casa.

    Perda de visibilidade e patrocínio 

    A forma como os contratos são feitos engessam as possibilidades de exploração da imagem dos clubes, reais responsáveis pela produção de conteúdo. Novamente os times menores saem perdendo, pois recebem repasses menores e menos atenção das câmeras. 

    O que significa a atitude do Atletiba

    Embora a partida não tenha acontecido, o  cancelamento serviu para jogar ainda mais luz sobre a insatisfação dos clubes com o modelo de transmissão de jogos de futebol. Em entrevistas diversas, o presidente do Atlético-PR, Luiz Sallim Emed, fez um chamado a outras equipes nacionais para que digam “não” a contratos que considerem abusivos e insuficientes.

    Para Ary Rocco, professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP, a medida aponta para uma mudança importante na forma como os clubes se posicionam no cenário esportivo - o que pode ter importantes consequências para o futebol como modelo de negócios.

    “De todos os agentes envolvidos na indústria, os menos favorecido hoje são os clubes, porque eles ficam na mão de federações, meios de comunicação e patrocinadores. Por uma série de motivos, sujeitam-se ao que eles determinam, aos horários da TV, porque são mal administrados e não têm consciência de seu valor na cadeia produtiva”, diz o professor. “Mas o futebol hoje pode acontecer sem as federações, é possível montar uma liga e eles [os clubes] gerenciarem o campeonato. As redes sociais mostraram que eles podem viver sem a TV, porque podem eles mesmo transmitir a partida. Mas a competição não acontece sem os clubes.”

    “Atletiba começou a enxergar a força que têm na geração de conteúdo esportivo no cenário de comunicação que temos hoje, com as novas mídias. Não preciso mais da emissora com toda a tecnolgoia para por meu conteúdo à disposição do público. Posso fazer isso com custo mais baixo e relativa qualidade usando as redes.” 

    Ary Rocco

    professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP

    Para o especialista, o futebol deixou de ser uma competição esportiva para tornar-se entretenimento, e portanto ele deve ser explorado como tal.

    “Pelo menos duas equipes enxergaram que podem ganhar muito mais se começarem a gerar seu próprio conteúdo. O espetáculo vale muito mais do que isso. Equipes esbarraram nesse problema estrutural do futebol brasileiro, que é arcaico, conservador e detesta novidade.”

    Ary Rocco

    professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP

    A decisão do Atletiba de transmitir o jogo via streaming foi inédita entre grandes clubes no Brasil, mas é uma medida já adotada em outros países. No geral, o modelo de negociação com as redes de TV varia de lugar para lugar. Em Portugal, as emissoras pagam aos clubes pelo direito de transmitir os jogos que acontecem no estádio da equipe.

    Na Inglaterra, os clubes se uniram e montaram uma liga, que negocia diretamente com a televisão, tirando as federações da jogada. Além disso, todas as equipes recebem o mesmo valor. Na Argentina, o governo de Cristina Kirchner lançou o programa Futebol para Todos, que nacionalizou as transmissões da modalidade.

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