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Por que a Grécia quer que um de seus países vizinhos deixe de ser chamado de Macedônia

Gregos não aceitam nome por considerarem uma apropriação de sua história e cultura nacional

    A Macedônia declarou independência da Iugoslávia em 1991 e logo adotou o nome oficial de “República da Macedônia”. Isso, contudo, durou apenas dois anos, e em 1993 mudou para “Antiga República Iugoslava da Macedônia” (também conhecida pelo acrônimo em inglês Fyrom), nome que dura até hoje.

    A razão principal para isso não é uma homenagem ao antigo Estado comunista. Os macedônios vivem, na verdade, em um país com um nome “provisório”, segundo a própria ONU (Organização das Nações Unidas).

    O motivo é que a Grécia, sua vizinha, se recusa a aceitar que o termo “Macedônia” seja usado de qualquer forma como nome próprio por um país, evocando para isso a existência de um reino homônimo que existiu dois séculos antes de Cristo. A mudança de 1993 pode ter sido aceita pela ONU, mas não pelos gregos, que exigem uma mudança completa.

    O governo da Grécia se baseia em dois motivos principais para adotar essa posição.

    Motivos para a Grécia rejeitar o nome

    História

    Segundo o governo, o termo “Macedônia” é de origem grega e os habitantes do antigo reino eram de origem étnica helênica — a mesma dos gregos de hoje. Portanto, o nome tem raízes culturais e históricas que são parte da identidade grega e não deveria ser utilizado por outro país.

    Geografia

    Além da questão cultural, os gregos lembram que o Reino da Macedônia era muito maior do que o território da Macedônia atual. Partes do antigo reino abrangem regiões que hoje fazem parte da própria Grécia, da Bulgária e da Albânia.

    A Grécia inclusive tem duas regiões administrativas que possuem o nome de Macedônia, e que se localizam no território que pertencia ao reino antigo, como mostra o mapa abaixo.

    Por isso, os gregos entendem que, ao adotar o nome “Macedônia” após sua independência, os vizinhos demonstram a intenção de expandir suas fronteiras recuperando todo o território que correspondia ao reino. Ou seja, sob o ponto de vista da Grécia, além de uma apropriação da cultura e história helênica, os macedônios também representariam uma ameaça à segurança nacional.

    Batalha dos símbolos

    Representações culturais e históricas recebem grande atenção nessa disputa. A bandeira da Macedônia após sua independência, por exemplo, consistia em um fundo vermelho e um Sol de Vergina à frente. Essa figura do sol é um símbolo cultural da região macedônia e, portanto, reivindicado pela Grécia.

    Em 1995, o governo da Macedônia concordou em alterar o desenho, e trocou o Sol de Vergina por um sol estilizado, com raios que avançam desde o círculo amarelo no centro da imagem até a borda da bandeira.

    Até mesmo a figura histórica de Alexandre, o Grande, é motivo de desentendimentos. O imperador e líder militar nasceu na região — seu nome era Alexandre III da Macedônia. Por isso, é considerado um figura importante pelos gregos e sua história.

    Em setembro de 2011, uma estátua com um grande guerreiro em seu cavalo foi inaugurada no centro de Skopje, capital da Macedônia. Ela é considerada uma homenagem a Alexandre, mas seu nome oficial é “Guerreiro em um Cavalo” para evitar reclamações gregas.

    Problemas para entrar na comunidade internacional

    O conflito inusitado acaba tendo impactos importantes para o projeto político da Macedônia enquanto país. Pelo fato de a Grécia ser um Estado independente há mais tempo, membro das principais organizações internacionais antes da Macedônia sequer existir, os gregos usam seu peso político para evitar que o país vizinho tenha acesso a essas mesmas organizações.

    Em 1993, o país foi aceito na ONU após adotar o prefixo provisório de Fyrom, em uma proposta feita por Espanha, França e Reino Unido — na época, os três países da Comunidade Europeia que faziam parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas a mesma tática não adiantou para entrar nem na União Europeia, nem na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

    No caso do bloco regional europeu, do qual Croácia e Eslovênia — que também eram parte da Iugoslávia — já fazem parte há alguns anos, o Conselho Europeu deixou claro, em documento de 1992, que o nome é de fato um impedimento.

    "O Conselho Europeu [...] expressa sua prontidão em reconhecer a república existente dentro das fronteiras existentes [da antiga República Iugoslava da Macedônia] de acordo com sua declaração [de independência] de 16 de dezembro de 1991 sob um nome que não inclua o termo Macedônia"

    Conselho Europeu

    em documento de 1992, página 43

    O mesmo fator atrapalha os macedônios na tentativa de entrar na aliança militar. Em 1999 a Macedônia entrou no Plano de Ação para novos membros da Otan, mas continua lá até hoje, sem integrar efetivamente a organização, mesmo desenvolvendo algumas parcerias com o grupo.

    Em 2008, uma reunião da aliança expressou que para se tornar um membro efetivo, a Macedônia deveria compartilhar dos “valores e princípios” do resto do grupo, e que deve haver boa vontade, confiança mútua e relações de boa vizinhança com os outros membros. Uma clara referência aos problemas com a Grécia, que integra a Otan desde 1952.

    O lado da Macedônia

    Os macedônios já deram diversas indicações ao longo dos anos que estão dispostos a negociar uma mudança no nome do país. Em 2010, em entrevista à emissora CNN, o então primeiro-ministro Nikola Gruevski disse que queria cooperar, mas que esperava que os gregos também cedessem de alguma forma. “Compromisso significa que ambos os lados tomem atitudes, não apenas um lado faz concessões e o outro lado tem uma vitória”, ele disse.

    Gruevski permaneceu no cargo até janeiro de 2016, quando foi retirado do posto em um acordo nacional, mediado pela União Europeia, para resolver uma crise institucional e política do país.

    Antes disso, em 2015, Gruevski sugeriu novamente o início de conversas com a Grécia e levantou a possibilidade de organizar uma consulta popular em forma de plebiscito para decidir sobre a mudança de nome. As propostas nunca avançaram.

    A população, contudo, não parece tão aberta. Em 2008, por exemplo, um outdoor na capital macedônia mostrava uma bandeira grega com o símbolo da suástica — associado ao nazismo — no lugar da cruz na sua parte superior esquerda. O governo da Macedônia negou qualquer envolvimento e lamentou a imagem.

    Agora, o país vive um governo de transição e deve ter um novo primeiro-ministro ainda em 2017, que herdará o nome provisório e as restrições gregas como barreiras para avançar no plano nacional de integrar a União Europeia e a Otan.

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