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Darcy Ribeiro: 5 reflexões sobre vida pública e direitos

O mineiro foi ministro da Educação, ministro-chefe da Casa Civil e fundou duas universidades

Darcy Ribeiro nasceu em 1922, na cidade de Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Filho de professora e farmacêutico, iniciou os estudos em medicina em Belo Horizonte, mas largou para cursar antropologia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1942. Há 20 anos, em 17 de fevereiro de 1997, o antropólogo, político, escritor e pensador brasileiro morreu em função de complicações de um câncer, diagnosticado três anos antes. 

Nos anos 1950,  participou de expedições pelo Brasil para estudar  as culturas indígenas. Suas pesquisas culminaram na criação do Museu Nacional do Índio em 1953, ainda em atividade. No início da década seguinte, durante o governo de Juscelino Kubitschek, ajudou a fundar a Universidade de Brasília e virou  seu primeiro reitor.

Envolvido com o debate público sobre o direito à educação, o antropólogo ingressou na política, onde seguiria carreira até o fim da vida. Foi ministro da Educação e ministro-chefe da Casa Civil de João Goulart. Após o golpe militar, refugiou-se em outros países da América do Sul e, com a Lei da Anistia, em 1979, retornou ao Brasil definitivamente. Enquanto vice-governador do Rio de Janeiro ao lado de Leonel Brizola pelo PDT, entre 1983 e 1987, fundou a Universidade Estadual do Norte Fluminense. Em 1991, já senador pelo PTB, criou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em vigor até hoje.

Ao longo de sua trajetória, Darcy Ribeiro combinou de maneira pioneira a atividade acadêmica com uma presença ativa na vida política do país.  O Nexo reuniu algumas reflexões do antropólogo que expressam suas visões sobre temas relevantes para a sociedade brasileira.

Política

“O neoliberalismo e o privatismo já saíram de moda na Europa e na América. Nunca foram doutrinas assimiláveis pelos empresários japoneses e por outros países da área. Este principismo doutrinário dos assessores governamentais ameaça conduzir nosso presidente ao destino de Gorbatchev. Ele afundou a União Soviética, os nossos podem afundar o Brasil”

Em “Três Pragas”, artigo de opinião publicado na “Folha de S.Paulo”, em 1996

Indígenas e negros

“Cá, o barroco das gentes ibéricas, mestiçadas, que se mesclavam com os índios, não lhes reconhecendo direitos que não fosse o de se multiplicarem em mais braços, postos a seu serviço. Ao apartheid dos nórdicos, opunham o assimilacionismo dos caldeadores.

Um é a tolerância soberba e orgulhosa dos que se sabem diferentes e assim querem permanecer. Outro é a tolerância opressiva, de quem quer conviver reinando sobre os corpos e as almas dos cativos, índios e pretos, que só podem conceber como os que deverão ser, amanhã, seus equivalentes, porque toda a diferença lhe é intolerável”

No livro “O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil”, publicado em 1995

Direito à terra

“Por que o Brasil não deu certo? Ainda não deu certo? Por que outra vez a direita nos derruba? Por que não fomos capazes de defender as reformas que estavam quase alcançadas? Por exemplo, a reforma principal, que era dar um pedacinho de terra a dez milhões de famílias brasileiras? Era uma coisa factível nesse país imenso com essa quantidade enorme de terras. E quem dirigia isso era o Presidente, que era, ele mesmo, um latifundiário, mas compreendendo que, se milhões de famílias tivessem terra para plantar o que comem, para se manter ali, seria uma forma de fixá-las no campo e de que seus filhos tivessem educação. Eu me pergunto: Por que fracassamos? E escrevi então um livro sobre o Brasil”

Em entrevista veiculada na publicação “Horizontes Antropológicos”, em 1997

Educação e comunicação

“A escola trata o menino popular como se fosse classe média. Ela dá exercício para fazer em casa. Suponha que ele tenha casa. Suponha que em casa tenha quem já estudou; 80% das famílias da periferia de São Paulo não têm. Então a escola é feita para ele fracassar nela. É um absurdo. Agora, o doloroso, a dor da minha vida, eu vi no Rio. O prefeito, por questão política, está tirando 350 mil crianças de Cieps do período integral, que são 30% das crianças do Rio, para colocar em meio período por economia. Fazer economia com criança?”

Em entrevista para o programa “Roda Viva”, em 1995

Vida pessoal e pública

“Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas”

No livro “O Brasil como problema”, publicado pela editora Global em 1995.

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