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Quem são os Brô MC's, primeiro grupo de rap indígena do Brasil

Das aldeias Jaguapirú e Bororó, que ficam na cidade de Dourados, eles misturam português e guarani para falar de seu cotidiano

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    Para criar um grupo de rap, quatro indígenas Guarani Kaiowá tiveram que ignorar objeções de dois lados: de um, um público estranho à ideia do ritmo ser apropriado pela etnia; de outro, no interior de seu próprio povoado, com caciques questionando a empreitada.

    Os contratempos foram desfeitos, e os Brô MC's ganharam repercussão cantando sobre o cotidiano das aldeias Jaguapirú e Bororó, localizadas na cidade de Dourados, oeste do Mato Grosso do Sul. Citam, nas letras, a luta pela terra, a questão da identidade indígena, problemas como o consumo de drogas e álcool e os altos índices de suicídio das aldeias.

    “Koangagua” (que significa nos dias de hoje), canção cujo clipe foi lançado em 2015 pelo Guateka - canal do YouTube criado para divulgar a cultura indígena -, fala sobre como é  fazer rap na comunidade indígena. “Minha fala é forte e está comigo / Falo a verdade, não quero ser que nem você / Canto vários temas e isso que venho mostrando / Voz indígena é a voz de agora”, diz a tradução da letra, cantada em guarani. Os vídeos do canal têm legendas. 

     
    “[No começo], trabalhávamos meio que escondidos, por conta das lideranças. Depois que lançamos o CD, quebramos essa barreira. Meu irmão levou um CD para apresentar para as lideranças e explicar que nossa música falava da nossa realidade. Hoje eles apoiam nosso trabalho e ajudam com as histórias, com o que querem falar.”

    Bruno Veron

    integrante do grupo Brô MC's

    Segundo Bruno Veron, 23, integrante do grupo, o novo disco terá contribuições de cantos tradicionais indígenas sugeridos pelos caciques.

    O Brô MC's começou quando Veron frequentava a Escola Municipal Indígena Araporã, em 2006. O diretor, à época, pediu aos alunos que apresentassem um trabalho falando sobre o meio ambiente, mas num formato diferente, que fugisse aos padrões acadêmicos normais. Foi então que Veron começou a rimar guarani com português no ritmo hip hop.

    Anos mais tarde, em 2009, uniu-se aos colegas Clemersom Batista, Kelvin Peixoto e Charlie Peixoto para montar o grupo. Desde então, gravaram um CD, planejam o segundo e se apresentaram em diferentes partes do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Brasília - inspirando também a criação de outros grupos de rap, como o Xondaro MC's, de Pyau, no Parque Estadual do Pico do Jaraguá, em São Paulo.

    “Para nós é uma honra apresentar a  voz indígena no Mato Grosso do Sul, da aldeia para fora, para não-indígenas conhecerem. Mostrar como é a nossa visão da nossa aldeia. Aqui é totalmente diferente, o lado da história é bem outro. Não moramos em ocas, não vivemos nus.”

    Bruno Veron

    integrante do Brô MC's

     

    Músicas no Festival de Berlim

    A canção "Terra Vermelha" compõe a trilha sonora do curta-metragem "Em Busca da Terra Sem Males", de Anna Azevedo, apresentado em fevereiro no Festival Internacional de Cinema de Berlim - um dos mais importantes eventos cinematográficos.

     

    A música fala das questões indígenas mais prementes dos últimos tempos: a demarcação e perda de terras. Cita a “tekoha”, conceito da tradição indígena que diz respeito ao retorno ao espaço de origem. O curta "Em Busca da Terra Sem Males", por sua vez, mostra o cotidiano da aldeia Ka´aguy hovy Porã, no município de Marica (RJ), pela perspectiva das crianças.

    O grupo também virou tema da série "Guateka", aprovada por edital da Ancine e que será exibida em canais públicos nacionais.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto não identificava o autor da fotografia, o fotógrafo Goldemberg Fonseca. A informação foi corrigida às 11h de 17 de fevereiro de 2017.

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