Como quebrar estereótipos da periferia a partir de imagens

Criado em novembro de 2016, coletivo DiCampana reúne cinco moradores de bairros periféricos de São Paulo interessados em expor, via fotografias, o ‘olhar de dentro’ das comunidades

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    Em 2015, sob uma laje no Jardim Leni, zona sul de São Paulo, José Cícero da Silva registrou um grupo de meninos reunidos na parte debaixo da viela, em torno de um celular. Dias mais tarde, uma amiga do fotógrafo viu a imagem divulgada nas redes sociais e comentou: “José, sem maldades, quando olhei, achei que estavam traficando drogas.”

     

    “Tá vendo como o imaginário das pessoas está construído de forma pejorativa? Molecada em volta do celular, à noite, quer dizer o que? É perverso”, diz o fotógrafo, que desde 2010 registra informalmente o cotidiano das regiões periféricas de São Paulo.

    O hábito ganhou novos contornos em novembro de 2016, quando criou junto a outros quatro colegas o coletivo DiCampana, cujo objetivo é quebrar com os estereótipos da periferia por meio de imagens.

    Todos os integrantes do coletivo são moradores da periferia, de diferentes regiões, e já fotografavam as redondezas e iniciativas artísticas locais de forma independente.

    A ideia de criar o grupo surgiu de uma demanda em dar um bom destino ao acúmulo de fotografias feitas ao longo dos anos. Decidiram assim montar uma espécie de banco de imagens, disponibilizado na internet.

    Desde então o trabalho tem chamado atenção de diferentes veículos de comunicação. Segundo Cícero da Silva, o grupo cede a produção para iniciativas jornalísticas independentes da periferia, mas pretende também viabilizar a venda de imagens para a mídia e ONGs mais estruturadas, de forma a gerar algum capital que possa sustentar o projeto.

    “Ainda estamos acertando muita coisa. Como coletivo, não temos muito tempo, somos um embrião. Se vamos cobrar pelas imagens, é uma coisa que estamos sempre conversando. Precisamos chegar numa matemática certa para tanto”, afirma Gessé Silva, também integrante do DiCampana.

    Primavera cultural

    A fotografia de uma menina sorridente segurando-se na porta de uma kombi azulada é querida a Gessé Silva. A imagem foi feita em Jardim Monte Azul, também no extremo sul de São Paulo, durante um evento de aniversário de um grupo de sarau do bairro. “Era uma noite muito linda na periferia, ao ar livre, todo mundo muito feliz, regado a música, poesia. Isso também acontece na favela”, diz o autor da imagem.

     

    Iniciativas artísticas são ponto central no processo de quebra de estigmas, dizem os criadores, para quem as regiões desfavorecidas da cidade vivem uma espécie de “primavera cultural”. “Tem coisas muito interessantes acontecendo, na perspectiva da literatura, por exemplo. Adolescentes que não gostam de escola estão lançando livro, escrevendo crônicas, falando de coisas”, diz Cícero da Silva.

    Nem por isso, ressaltam, problemas serão deixados de lado dos ensaios fotográficos. “A gente tá dentro, sabemos das ‘tretas’, não vamos tirar do nosso trabalho denúncias, direitos humanos. Pensamos em fazer ensaios com assuntos, com pautas, isso vai ser com mais tempo”, diz Gessé.

    “O que a mídia mostra não é mentira, é verdade, mas às vezes meio fantasiosa, mostrada com uma lupa de aumento, sempre mais dramático, pela ótica policial, do tráfico. Queremos mostrar que tem também um outro cotidiano interessante”, completa Cícero da Silva. Entre os projetos futuros, dizem, está a cobertura dos blocos de Carnaval da periferia, além de outros ensaios temáticos, que serão feitos coletivamente.

     

     

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