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O Masp faz 70 anos. E mostra como artistas pensaram e representaram a Paulista

Símbolo de São Paulo, avenida transformou seus usos e ocupação desde a primeira obra de arte de que foi tema, em 1891

     

    Entre 17 de fevereiro e 28 de maio, uma grande exposição sobre a Avenida Paulista ganha os dois andares, o mezanino e o subsolo do Masp, Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. A avenida é a casa do museu desde 1968, ano de inauguração do prédio projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi. O prédio envidraçado deixa ver a rua e fica suspenso por quatro colunas, embaixo de si um pátio amplo, palco de manifestações culturais e políticas, chamado de “vão livre”.

    A avenida centenária foi representada por obras de arte que datam do fim do século 19, de todo o século 20 e agora, a pedido do Masp, ela é pensada, especialmente para a exposição, por artistas contemporâneos como Lais Myrrha, Marcelo Cidade e Mauro Restiffe.

    São 150 obras, entre as já existentes e as que foram criadas para a exposição - em suportes diversos, como pintura, instalação e vídeo arte - que tratam da história, da paisagem e da arquitetura da avenida ao longo do tempo, mas também de seu cotidiano como símbolo da maior cidade brasileira e epicentro das manifestações políticas, que quase sempre têm a Paulista em seu trajeto ou como ponto de concentração.

    Apesar de sua casa mais emblemática ter sido aberta ao público nos anos 1960, o Masp existe desde 1947 e portanto completa 70 anos em 2017. “Trazer a avenida, as questões e problemas que a atravessam para dentro do museu faz parte da visão da arte contemporânea, que trata o tempo todo do cotidiano, da vida. Eu não vejo uma cisão entre a rua e o campo artístico. O museu deveria se abrir cada vez mais para a rua, e a nossa ideia de comemorar o aniversário do Masp falando do lugar onde ele está em vez de falar sobre sua história é um gesto significativo que aponta para uma abertura cada vez maior”, diz Tomás Toledo, curador da exposição, em entrevista ao Nexo.

    Obras

    Em vez de encomendar um conteúdo específico aos artistas contemporâneos autores de trabalhos para a exposição - exceto Luiz Roque, encarregado de tratar de sexualidade, prostituição e o “submundo” da avenida -, a curadoria permitiu que os trabalhos fossem moldando o conteúdo da exposição.

    Havia, no entanto, um direcionamento: artistas participaram de um seminário promovido pelo museu, que discutiu questões como a parada LGBT, gentrificação, direito à cidade, histórico de ocupação da avenida desde a época dos casarões e sua dimensão simbólica. A partir disso, escolheram os temas com os quais tinham mais afinidade.

    A exposição exibe a primeira representação iconográfica da Paulista, uma aquarela do pintor francês Jules Martin, feita em 1891, seu ano de inauguração.

    Passa por fotografias antigas clássicas mostrando os casarões do começo do século e pinturas que mostram a transição entre os casarões e os edifícios que vieram a ocupar a Paulista. Há ainda trabalhos do coletivo 3nós3, que atuou nos anos 1970 e 80 fazendo ações performáticas na avenida e em outros locais.

    Algumas de suas ações foram fotografadas e estão na exposição - uma delas, o “ensacamento”, consistia em colocar sacos de lixo nas cabeças de estátuas, uma referência à tortura no período da ditadura militar e crítica a figuras históricas, principalmente às dos Bandeirantes - como a de Anhanguera, retratado em uma escultura que fica em frente ao Masp -, tidos por muito tempo como heróis na história do Estado de São Paulo, apesar das violências cometidas por eles contra os indígenas.

    O arco temporal feito pelas obras da exposição chega a fotos de protestos que tomam a avenida frequentemente e às pinturas da artista Dora Longo Bahia sobre violência policial.

    “A Paulista é um símbolo de São Paulo porque carrega todos esses signos de poder, do capital, do esclarecimento cultural e da modernidade simbólica. Está muito atrelada à ideia que quer se construir de São Paulo, de ‘locomotiva do brasil’,  cidade mais cosmopolita e empoderada financeiramente do país”, diz Toledo.

    “Ao mesmo tempo, ela é símbolo porque carrega as fricções e contradições de uma cidade tão ampla e complexa. Há moradores em situação de rua aqui, comércio informal, violência, ataques homofóbicos como os incidentes com as lâmpadas, violência policial. Ela é um lugar de disputa tanto física como simbólica. Vejo-a mais assim do que como assimilação desse símbolo idealizado de São Paulo como cidade do capital”, diz o curador ao Nexo.

    O diálogo entre o Masp e a avenida

    O fato de Lina Bo Bardi ter projetado um museu transparente torna sua arquitetura permeável ao entorno. O vão livre, um espaço público definido por Toledo como “ágora”, praça principal de antigas cidades gregas onde eram realizadas assembleias, também confere uma característica própria à relação entre o Masp e a Paulista. 

    Pelas janelas, é possível olhar a cidade de dentro do museu e vice-versa. Há um esforço da curadoria, segundo Tomás Toledo, de que a programação seja plural, atrativa para o grande público e com o oferecimento de palestras e oficinas gratuitas com o objetivo de que esse diálogo se amplie.

    A transformação da Paulista vista pelas obras

    Desde que o Masp chegou à Paulista, a avenida sofreu grandes mudanças urbanísticas.  Sua calçada foi alargada, equipamentos urbanos como  postes e semáforos foram trocados e houve a instalação do metrô. Entre os anos 1960 e 70, o prefeito Figueiredo Ferraz tentou transformá-la em um calçadão, transferindo o tráfego pesado para o subsolo. O projeto não deu certo.

    Nos anos 1970, o avanço da especulação imobiliária foi muito significativo. Nos anos 1990, surgiram cada vez mais prédios de corporações e bancos. Seu uso mudou drasticamente de residencial para comercial e a década também trouxe uma certa decadência da avenida, com calçamentos e fachadas dos edifícios abandonados pelo poder público. 

    A partir dos anos 2000, porém, o curador do Masp viu a população se apoderar mais do espaço. “A conexão da linha verde com o trem permitiu que pessoas que moram nas bordas, nas periferias acessassem a avenida, tornando-a mais popular e democrática”, diz Toledo.

    “Essa coisa de ‘símbolo’ é complicada porque carrega uma noção de centralidade. A gente esquece que há  diversos centros em uma cidade tão grande, e é muito importante que essas populações dos diversos centros possam circular por aqui e ter a paulista como um lugar para si”, diz.

    A Paulista do passado e do presente em duas obras da exposição, segundo o curador

    • "Festividades da inauguração da avenida Paulista em 8 de dezembro de 1891" de Jules Martin (1891)
     
    “Essa representação é muito inaugural. Você vê a avenida como um grande descampado, como um lugar onde se tinha a pista, a calçada e nada em volta.”

    Tomás Toledo

    Curador

    • Série fotográfica das residências na avenida Paulista de Mauro Restiffe (2016)
     
    “O ensaio de Restiffe mostra o empilhamento de pessoas morando nesses apartamentos, suas vidas, tudo que existe agora, o skyline que essas pessoas podem ver de dentro das suas casas, é muito chocante ver esse contraste em um intervalo de tempo muito pequeno, uma mudança da ocupação territorial muito forte.”

    Tomás Toledo

    Curador

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