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Qual é a melhor estratégia para lidar com algo de que você discorda no Facebook

Compartilhar a indignação? Xingar? Denunciar? A dinâmica da rede pode fazer com que sua reação provoque o efeito contrário ao que você espera

    Manifestações de xenofobia, racismo, machismo e outros tipos de declarações intolerantes são, normalmente, rechaçadas na rede. Seus autores são criticados, expostos e motivam campanhas de resistência e a criação de hashtags.

    Essa reação, no entanto, pode acabar tendo o efeito contrário: os autores dessas manifestações intolerantes ganham visibilidade e chamam a atenção que gostariam.

    O Facebook, por resultado de sua própria lógica, privilegia o conteúdo conforme o número de interações que as pessoas têm com ele. Assim, quanto mais curtidas (ou, no caso de discordância, carinhas de choro ou raiva) um post tiver, mais visibilidade ele ganhará. O mesmo acontece com comentários e, claro, compartilhamentos.

    Para entender como isso funciona — e qual é a melhor maneira de reagir a um conteúdo com o qual não se concorda na rede — o Nexo conversou com três especialistas:

    • Luli Radfahrer, professor doutor de comunicação digital da USP
    • Ana Brambilla, jornalista, doutoranda em comunicação e professora da Faculdade Cásper Líbero
    • Márcio Moretto Ribeiro, professor de sistemas de informação da USP e um dos criadores do “Monitor do debate político no meio digital”, grupo que mensura e analisa o conteúdo publicado na internet por veículos brasileiros de comunicação

    O que acontece quando uma pessoa, marca ou página recebe muitas interações em seus posts?

    Luli Radfahrer Vale começar dizendo que o Facebook não é mídia, mas uma máquina de entretenimento que se alimenta das interações entre as pessoas para vender publicidade. Por isso, a reação a uma página só significa que aquilo que ela diz causa algum impacto. Mas isso não significa que seja socialmente relevante, já que o Facebook trabalha com uma estrutura de divulgação para câmaras de eco. Quem tem acesso ao conteúdo que você publica é porque normalmente já concorda com você, por mais específica ou radical que sua opinião seja. Em outras palavras, a claque aprovou. Ou os haters odiaram.

    Ana Brambilla Se deve acompanhar. Há alguns índices que ajudam a detectar uma movimentação anormal numa página ou perfil — Klout, PTA, por exemplo. Os índices por si só não falam sobre a semântica das interações (se é positiva ou negativa). O que eles apontam são mudanças qualitativas que precisam ser avaliadas de perto; ler mesmo. Eu sempre parto do pressuposto de que todo o comentário merece, ao menos, uma primeira resposta. Quando se descobre que se trata de um troll ou de um hater, aí o diálogo deixa de fazer sentido. Mas tanto diante de interações positivas ou negativas, o dono da página ou do perfil precisa ao menos estar ciente das manifestações e, preferencialmente, posicionar-se diante delas. Claro que uma estratégia nessas horas ajuda.

    Márcio Moretto Ribeiro As publicações que aparecerão com maior destaque no feed de notícia de um usuário são determinadas por um algoritmo que usa uma porção de parâmetros para definir essa prioridade. Um desses parâmetros é o número de comentários. Assim, quando uma publicação no Facebook recebe muitos comentários, sejam eles positivos ou negativos, ela tende a aparecer com mais destaque para um número maior de usuários.

    Por que reações como indignação coletiva acabam, muitas vezes, gerando consequências positivas para uma página ou pessoa que foi denunciada?

    Luli Radfahrer É a história do “fale mal, mas fale de mim”. Se você despreza ou é contrário às opiniões de quem te critica, a crítica só reforça a sua posição “polêmica” junto àqueles que já concordariam com você de qualquer forma. Um machista que provoque reações de feministas tem, como no caso Trump, o efeito de um “corajoso”, que ousou se opor ao “politicamente correto”, não ao de um idiota que deveria permanecer calado.

    Ana Brambilla Depende do que a gente entende por “consequências positivas”. Se a pessoa ou marca se nortear pela premissa “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”, então é natural que o buzz negativo ajudará a projetar aquele perfil. Mas acredito cada vez menos na eficiência desse tipo de postura. Num ambiente tão aberto a críticas e à busca pelo reconhecimento, pela justiça a qualquer preço, pela satisfação imediata como são as redes sociais, não se pode brincar com a opinião alheia. Uma indignação coletiva pode aumentar as métricas de engajamento, que são qualitativas. Mas quando se observa o significado dessas métricas, só haverá perda para o perfil criticado. Obviamente estou falando de críticas fundamentadas.

    Márcio Moretto Ribeiro Em alguns casos específicos, a reação dos usuários a uma publicação que eles consideram ofensiva acaba dando publicidade a ela. A polêmica em torno de uma publicação pode gerar um embate em seus comentários, o que a faz ter mais destaque na plataforma.

    Qual é a maneira mais eficiente de lidar com um conteúdo ofensivo ou absurdo no Facebook?

    Luli Radfahrer Ignorar. Apagar o mais rápido possível e denunciar ao Facebook. Uma velha máxima da Internet é não alimentar os trolls. A melhor forma de combater um incêndio é apagá-lo, não ventilá-lo.

    Ana Brambilla Outra vez, depende se estivermos falando de uma marca, de uma instituição ou de uma pessoa física recebendo xingamentos públicos no Facebook. Também não há consenso sobre o que pode ser ofensivo ou absurdo, assim como não se pode precisar que uma informação é relevante ou importante. Quaisquer desses adjetivos recém citados merecem a pergunta imediata: “para quem?”. Ou seja, se algo é ofensivo, é “ofensivo para quem”? Lógico que existe a subjetiva medida do bom senso. E por essa razão é que a rede é orgânica, humana como as relações offline. Assim como não existe um único jeito de as pessoas lidarem com críticas na vida offline, cada um saberá a melhor maneira de lidar com conteúdo ofensivo no Facebook. Particularmente e se a ofensa é dirigida a mim ou à minha marca, tento entender melhor o que aconteceu e respondo com uma pergunta; isso deixa o canal de diálogo aberto e isso já pode acalmar os ânimos do outro lado. Me parece que apagar ou responder com igual agressividade são as piores posturas a se tomar, a menos que o post trate de assuntos fora de contexto ou, como disse antes, seja trabalho de troll, hater ou bots humanos.

    Márcio Moretto Ribeiro Não consigo pensar uma solução que seja suficientemente boa para dar conta de coisas como ofensas, ameaças e boatos. Acho que isso tudo é bem delicado e não quero ser irresponsável.

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