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As marchinhas clássicas em xeque. E o debate sobre o Carnaval ‘politicamente correto’

Marchinhas foram ‘banidas’ de alguns blocos acirrando discussão que se estende há vários anos

     

    As marchinhas clássicas, como “Maria Sapatão” (1980) e “Cabeleira do Zezé” (1963), de João Roberto Kelly, e “Índio Quer Apito” (1960), de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, estão sendo boicotadas por alguns blocos no Carnaval carioca por terem seu conteúdo considerado ofensivo. Até “Tropicália”, de Caetano Veloso, que fazia parte do repertório do bloco feminista “Mulheres Rodadas”, está sendo revista por conta do termo “mulata”.

    A decisão, no entanto, está longe de ser unânime. Os presidentes das associações Sebastiana e Folia Carioca, que juntas representam 33 blocos do Rio de Janeiro, disseram ao jornal “O Globo” que as músicas continuam no repertório desses blocos, como o “Volta Alice” e o “Largo do Machado mas não Largo do Copo”, dois blocos tradicionais do bloco de Laranjeiras.  

    Em São Paulo, no primeiro dia de fevereiro, mês em que se comemora o Carnaval deste ano, o músico Thiago França publicou em sua página no Facebook a decisão de não tocar “O Teu Cabelo Não Nega”, marchinha de 1932 de autoria de Lamartine Babo, de conteúdo considerado racista. França coordena A Espetacular Charanga do França, projeto musical e bloco de Carnaval que vai “do centro à Santa Cecília”.

    Com as marchinhas clássicas fora de alguns blocos, as críticas a fantasias também consideradas ofensivas (como a de “Nega Maluca”, por exemplo) e os esforços de ambientalistas para desestimular o uso de purpurina e glitter, o Carnaval de 2017 está sendo rotulado de “politicamente correto”.

    No entanto, a revisão crítica das marchinhas à luz dos novos tempos não é novidade trazida pelo Carnaval de 2017.  Uma coluna do jornalista e compositor Nelson Motta publicada no jornal “O Estado de S. Paulo” em 2011 já criticava o suposto “fundamentalismo” do politicamente correto que atingia o Carnaval.

    As mesmas questões vieram à tona nos anos seguintes. A particularidade de 2017, talvez, seja o momento. Para o músico Thiago França, questões relativas à diversidade estão mais em pauta atualmente, o que fez com que a discussão viesse com mais força este ano.

    Banir ou não banir, eis a questão

    Na disputa entre os que são a favor ou contra o boicote das canções tidas como preconceituosas, o historiador da música popular brasileira e biógrafo do sambista Noel Rosa, Carlos Didier, é um dos que acham que o movimento de remover as marchinhas dos blocos é uma forma de censura. “[Banir] não resolve. Criticar as canções ajuda mais do que banir”, diz Didier em entrevista ao Nexo. Para ele, excluir “Teu Cabelo Não Nega” do Carnaval significa apagar a introdução da marchinha ao Carnaval.

    “O Brasil é um país preconceituoso, e as provas desse preconceito estão também nas canções. O povo confirma seus preconceitos aos berros nas marchinhas”, diz o historiador. Entretanto, afirma que a cobrança que incide sobre canções do passado segundo ideias do presente não faz sentido. “Ninguém ditava regras para o carnaval no passado: buscava-se o sucesso, nada mais. E o preconceito fez e ainda faz muito sucesso”.

    Já o criador da Charanga do França tem uma opinião positiva sobre as críticas. “Qualquer tipo de reflexão é válida e nada no mundo é definitivo. Se de repente a gente chegar em uma sociedade tão ideal, equilibrada e igualitária que essas músicas ganhem o status de brincadeira legítima, podemos voltar a tocar e vai todo mundo dar risada”, diz França em entrevista ao Nexo.

    “O lance do carnaval é todo mundo se divertir, não um se divertir enquanto o outro fica incomodado. O conceito de liberdade das pessoas é um pouco estranho nesse sentido. Tem um pensamento raso que começa a achar que você tirar uma música ou outra seja ‘politicamente correto’, que virou um termo extremamente pejorativo, sinônimo de chatice. Não significa que o bloco vai ser um cortejo fúnebre”, diz o músico.

    Apesar disso, o artista diz não achar que sua decisão deveria virar regra. Para ele, as obras estão abertas a múltiplas interpretações e são um retrato do momento em que foram produzidas. “Como artista, vejo com maus olhos que se tente interferir na obra de arte. O movimento tem que ser sempre de renovação [do repertório]. Se um novo assunto vem à tona, uma nova obra de arte se faz necessária, sem querer ‘consertar’ [o que já foi feito]”, diz. França não se sente confortável com o termo “banir” e prefere falar em substituição.

    Como fica a ‘inversão carnavalesca’

    A lógica da brincadeira carnavalesca é, em grande medida, ser um ritual que inverte as regras do dia a dia, como definiu a historiadora Maria Clementina Pereira Cunha. Mas, na verdade, “a semântica dessa língua” carnavalesca reafirma e ajuda a entender o significado de muitas dessas práticas da vida “normal”, escreveu Pereira Cunha.

    Esse espírito de “festa do contrário” recebe até um nome, o de inversão carnavalesca. Nesse ponto, Didier e França concordam. Segundo eles, esta inversão é, respectivamente “fundamental” e “uma válvula de escape” da qual os brasileiros precisam.

    Entretanto, o ideal de liberdade total da festa é que é visto como problema. Em um texto publicado na “Folha de S.Paulo”, a colunista Mariliz Pereira Jorge afirma que é possível separar o conteúdo machista ou racista das letras das marchinhas das práticas cotidianas e levadas a cabo durante o próprio Carnaval.

    “Tem bloco para todos os gostos, para quem quer politizar o Carnaval, levantar bandeiras sociais ou apenas se lambuzar de gliter, cerveja e beijos suados, sem prestar atenção na música. O que não vale é beijar mulher à força, passar a mão na bunda sem consentimento, se aproveitar da bebedeira alheia, achar que mulher solteira é disponível. Cantar ‘Maria Escandalosa’ pode ser machista na opinião de algumas pessoas. Forçar uma mulher a qualquer coisa sem seu consentimento deveria ser visto como assédio e mau-caratismo por todo mundo. No Carnaval e no resto do ano”, escreve a colunista.

    França também levanta a questão do assédio nos blocos como um problema. Para ele, a preocupação com as letras tem menos a ver com o conteúdo específico delas, e mais com “a forma como as pessoas naturalizam as coisas no Carnaval”, suspendendo noções do que é ou não aceitável.

    “Acho que o mote, tanto na questão das marchinhas, quanto do assédio, é que o Carnaval tem que ser legal pra todo mundo. Essa ideia de liberdade total e irrepreensível só beneficia o homem branco hétero”, diz o músico. “Só essa única figura que não é oprimida durante a festa acha que o Carnaval é uma festa sem limite”.

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