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Qual o diagnóstico de 4 presidentes do BC para o alto spread bancário no Brasil

Ilan Goldfajn, Henrique Meirelles, Armínio Fraga e Gustavo Loyola apontaram o custo da inadimplência como problema para os bancos

     

    Spread é uma palavra que em inglês significa espalhar como verbo, e como substantivo significa expansão, dispersão. Em economia ela é usada em outro sentido, até no Brasil. Spread é a diferença entre o que os bancos pagam para captar dinheiro e o que eles cobram para emprestá-lo ao cliente. E o das instituições brasileiras é considerado alto, um problema para a economia do país.

    Tanto é que, depois de uma tentativa fracassada do governo Dilma Rousseff de reduzir os juros cobrados ao consumidor - consequência também do spread -, Michel Temer resolveu voltar ao tema. Com a economia indo mal, a equipe econômica do governo quer diminuir as dificuldades de acesso ao crédito e colocou a redução do spread bancário como um objetivo.

    Quem comanda a campanha é o Banco Central, responsável pela regulação do mercado bancário no Brasil. Seu presidente Ilan Goldfajn, no entanto, diz que não vai haver nenhuma tentativa de forçar os bancos a reduzirem os juros, mas sim mudança de regras para tentar baratear o crédito no Brasil.

    Na terça-feira, Goldfajn convidou três ex-presidentes do Banco Central para discutirem a questão do alto spread bancário brasileiro na sede da instituição em Brasília. Gustavo Loyola (1995 a 1997), Armínio Fraga (1999 a 2002) e o atual ministro da Fazenda Henrique Meirelles (2003 a 2010), além do próprio Goldfajn, deram seus diagnósticos do problema.

    Armínio Fraga

    Último presidente do BC no governo de Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga disse que é papel da instituição coordenar a ofensiva contra o alto spread, mas que os resultados não dependem apenas do BC.

    O economista argumentou que, apesar de avanços nos últimos 15 anos, vários dos motivos do alto spread vêm desde o seu tempo como presidente do Banco Central. Ele defendeu melhorias na “qualidade de garantias” para evitar longos processos em caso de inadimplência. Os prejuízos causados aos bancos pelos calotes seriam uma das causas do alto spread.

    Outra ideia, que caberia ao governo, é a de melhorar as informações sobre inadimplência, com cadastro de bons pagadores disponíveis para todos os bancos. Com clareza sobre os clientes, mais bancos poderiam  competir e oferecer taxas mais baixas.

    “Na medida em que o crédito fique mais seguro, mais homogêneo, que as assimetrias de informações tendam a desaparecer, eu apostaria que a concorrência vai aumentar muito. É muito mais difícil ter falta de concorrência em mercados mais transparentes”

    Armínio Fraga

    Ex-presidente do BC e hoje sócio-fundador da Gávea Investimentos

    Ilan Goldfajn

    O atual presidente do Banco Central focou sua fala na apresentação das medidas que estão em fase de implantação pelo governo. Goldfajn também apontou a falta de garantias de crédito como motivo para a insegurança que eleva taxas no Brasil.

    O presidente do BC lembrou que o governo já trabalha na implantação de um cadastro positivo que vai funcionar de forma diferente. Em vez de contar apenas com cidadãos que pediram para ser incluídos, todos passam a fazer parte automaticamente do banco de dados. Quem não quiser participar, pode pedir para ser retirado. O governo trabalha em um projeto de lei sobre o tema.

    Com um cadastro mais completo, Goldfajn acredita que os bancos terão mais previsibilidade na hora de emprestar. Como exemplo, ele citou o crédito consignado que, segundo dados apresentados, tem taxas bem mais baixas que outras modalidades de empréstimo.

    “Quanto mais segurança, quanto mais garantias, mais os números grandes cairão para níveis parecidos com o consignado”

    Ilan Goldfajn

    Presidente do Banco Central

    Gustavo Loyola

    Também chefe do Banco Central durante o governo FHC, Gustavo Loyola enfatizou a dificuldade de se enfrentar o problema, o que só seria possível com um “conjunto amplo de reformas”.

    Contrariando um argumento comum na discussão sobre spread, Loyola disse não acreditar que o spread alto é culpa de “falta de concorrência”. Atualmente sócio da consultoria Tendências, o economista admite que o mercado de bancos no Brasil é concentrado, mas não vê indícios de que isso seja determinante para as altas taxas cobradas. Como argumento, ele lembra que qualquer prática do tipo teria de contar com a conivência dos bancos públicos, o que “não é crível”.

    “Não há evidências de que o retorno dos bancos brasileiros se situe acima da média do que se observa para outras indústrias e também em comparações internacionais”

    Gustavo Loyola

    Ex-presidente do BC e hoje sócio da Tendências Consultoria Integrada

    Henrique Meirelles

    Principal nome da equipe econômica do atual governo, Henrique Meirelles apontou o spread bancário como um dos problemas que “atrapalham o ambiente de negócios no Brasil”. O atual ministro da Fazenda disse que o governo quer, paralelamente, diminuir o risco de crédito e diminuir a burocracia do sistema financeiro. A diminuição da burocracia reduziria o custo dos bancos, que também tem peso no spread.

    Meirelles também bateu na tecla da melhora do sistema de informações sobre os clientes, o que ajudaria os bancos a mapearem o risco. A ideia é evitar que "bons pagadores continuem pagando a inadimplência de maus pagadores”.

    “A melhor precificação de risco leva a uma melhor distribuição de custo por tipo de tomador e também, possivelmente, a uma diminuição do custo total”

    Henrique Meirelles

    Ex-presidente do BC e hoje Ministro da Fazenda

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