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Como a pressão de Trump sobre o México abre novas possibilidades para o Brasil

Países latino-americanos cresceram de costas um para o outro, mas política agressiva da Casa Branca pode representar uma oportunidade de união no futuro próximo

    As portas que o novo presidente americano, Donald Trump, tem fechado ao México desde que tomou posse, no dia 20 de janeiro, podem abrir janelas de oportunidades inesperadas para o Brasil.

    A ideia foi defendida num artigo publicado na quinta-feira (2) pela revista americana “Americas Quarterly”, de autoria do pesquisador e professor de Relações Internacionais da FGV de São Paulo Oliver Stuenkel.

    A nova política agressiva da Casa Branca deixou o México “à procura de novos amigos na região” e o Brasil é um candidato natural para a vaga aberta, defende o autor.

    O movimento na direção de novos mercados já teve início, diz Stuenkel, com o anúncio, na quarta-feira (1º), de um acordo de US$ 212 milhões com a China para a produção de automóveis no Estado mexicano de Hidalgo.

    De Gana, no oeste da África, onde participa de um encontro que discute política e economia, Stuenkel falou ao Nexo, por telefone, tanto sobre as oportunidades abertas pelas arremetidas de Trump, quanto sobre os entraves para uma aproximação definitiva entre brasileiros e mexicanos na América Latina.

    As 2 pressões de Trump sobre o México

    É possível entender o novo momento mexicano a partir de três movimentos agressivos feito por Donald Trump, que tiveram início ainda durante a campanha presidencial, em 2016:

    A construção do muro

    Por meses, Donald Trump repetiu exaustivamente a promessa de erguer um muro de mais de 3 mil quilômetros na fronteira entre os EUA e o México. A construção evitaria a entrada de imigrantes mexicanos, classificados pelo então candidato republicano como “traficantes de drogas e estupradores”.

    Prevendo o pior, o presidente do México, Enrique Peña Nieto, tentou uma aproximação antes do desfecho da corrida eleitoral americana, recebendo Trump, quando ainda candidato, na capital mexicana. Mas o ensaio diplomático se revelou um fiasco.

    Divergência levou a cancelamento de visita oficial que presidente mexicano faria aos EUA

    No dia em que foi recebido, 31 de agosto, Trump repetiu enfaticamente a proposta de separar fisicamente os dois países: “Os EUA têm o direito de construir um muro fronteiriço”, argumentou. “Deixei claro que o México não pagará pelo muro”, retrucou Peña Nieto.

    Passados cinco meses do encontro, quando Trump finalmente assumiu a Casa Branca, veio a ordem executiva — equivalente aos decretos presidenciais, no Brasil — para que o muro finalmente fosse erguido. Além disso, o novo presidente americano anunciou que se o México continuasse insistindo em não pagar pela obra, a visita de Peña Nieto à Casa Branca, que estava programada para ocorrer na semana seguinte, deveria ser cancelada.

    Os dois presidentes se falaram por telefone e suspenderam o encontro pessoal, tornando inegável que as relações haviam chegado ao seu pior momento.

    O pagamento do muro via impostos e o Nafta

    Os mexicanos nunca tiveram dúvida do peso moral que o ataque de Trump representava. A dimensão econômica da medida, no entanto, permanecia nebulosa, até que a Casa Branca detalhou melhor como pretendia cobrar os mexicanos pelo preço do muro fronteiriço: via oneração das importações de produtos mexicanos que entram nos EUA.

    Dois dias depois da publicação do decreto autorizando a construção do muro, o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, anunciou que os EUA estudavam a possibilidade de cobrar um percentual de 20% de impostos sobre produtos fabricados no México. A medida tornaria os produtos mexicanos tão onerosos para o consumidor final americano que dificilmente valeria a pena manter esse canal.

    Zona de livre comércio foi classificada por presidente americano como 'pior acordo da história'

    México e EUA fazem parte, juntamente com o Canadá, do Nafta (sigla em inglês do Tratado de Livre Comércio das Américas). A ideia central do bloco é a de justamente baixar tarifas mútuas para dinamizar as trocas comerciais entre os países participantes do acordo. Ao cogitar a oneração de 20% sobre os produtos mexicanos, Trump foi contra a própria razão de existir do Nafta.

    O grupo foi criado em 1989, inicialmente entre americanos e canadenses, para, cinco anos depois, incorporar também os mexicanos. Mas Trump parece considerar que a iniciativa não merece seguir adiante.

    Ainda na campanha, o republicano se referiu ao Nafta como “o pior acordo comercial ao qual os EUA já aderiram”. Trump critica sobretudo a fuga de indústrias americanas para o México, onde conseguem produzir mais com menos custos. O presidente americano culpa a desoneração mexicana pela “fuga de empregos americanos”. Mas as empresas respondem dizendo a ele que, se não estivessem no México, estariam em qualquer outro país no qual as condições fiscais fossem mais amigáveis que as dos EUA para produzir.

    Como o Brasil entra em cena

    Por todos esses problemas com os EUA, “o México está num processo de reorientação, o que abre uma janela de oportunidades para o Brasil”, diz Stuenkel no artigo.

    Os dois países são as duas maiores economias da América Latina e exercem grande influência cultural em seus vizinhos. Em extensão territorial, o Brasil é o maior país da região, e o México, o terceiro.

    Ambos mantêm um intercâmbio comercial dinâmico e em franca ascensão. De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, “nos dez anos encerrados em 2014, a corrente de comércio entre os dois países cresceu 93,7%, chegando a US$ 9 bilhões em 2014”.

    Ainda segundo o Itamaraty, “em 2014, o México foi o 11º parceiro comercial do Brasil, que, por sua vez, figurou como o 8º parceiro comercial mexicano. O México foi a 11ª maior fonte de importações brasileiras e o 14º destino das exportações nacionais. Para o México, o Brasil foi o 8º parceiro comercial e o 6º maior superavit na balança comercial do país”.

    Os dados mostram duas coisas ao mesmo tempo: primeiro, que a interação já existe, e é grande. Segundo, que ela poderia ser muito maior.

    Em visita oficial ao Brasil nesta terça-feira (7), o presidente da Argentina, Mauricio Macri, defendeu que o Mercosul deve se aproveitar do momento político, com as medidas de Trump, e se aproximar do México. Macri é o atual presidente temporário do bloco.

    Agenda de visitas exemplifica desequilíbrio

    Nos últimos quatro anos, os presidentes de México e Brasil promoveram apenas duas visitas oficiais às respectivas capitais. Em 2012, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, veio a Brasília. Dilma Rousseff, então presidente brasileira, levou três anos para retribuir o gesto. Foi só.

    Em comparação, no mesmo período de quatro anos, os presidentes da Argentina e do Brasil se visitaram mutuamente sete vezes. Em cinco delas, presidentes brasileiros foram até Buenos Aires. Nas outras duas, foi o contrário.

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    É o número de visitas mútuas de chefes de Estado do Brasil e do México desde 2012

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    É o número de visitas mútuas de chefes de Estado do Brasil e da Argentina desde 2012

    Outro exemplo do quanto essa união pode crescer é a baixa interação acadêmica entre os dois países, diz Stuenkel. “Há pouco intercâmbio, pouca cooperação em pesquisa. Se a integração entre os dois fosse maior, o continente seria bem diferente.”

    Além da economia, a segurança

    México e Brasil também podem estreitar a cooperação na área de segurança pública. Os dois países enfrentam poderosos cartéis de drogas e facções criminosas que estendem sua influência para dentro de presídios e até para a seara política.

    Outro ponto em comum é a crescente militarização da segurança pública nos dois países, com a participação cada vez maior das Forças Armadas exercendo papel de polícia, lá e cá. Os dois países também têm taxas de homicídio por cem mil habitantes muito semelhantes, como mostra o gráfico abaixo.

    Violência em números

    As razões da desconexão

    Stuenkel explora — tanto no artigo original, quanto na entrevista concedida ao Nexo — um conjunto de fatores que ajudam a explicar por que a interação entre México e Brasil já não é do tamanho que poderia ser.

    Uma delas é a geopolítica. Para Stuenkel, a proximidade entre México e EUA moldou a forma como os mexicanos se relacionam com o mundo. “A proximidade com os EUA sempre fez sombra às pretensões de protagonismo internacional mexicano. Como o país poderia, por exemplo, querer intermediar um acordo nuclear com o Irã — como o Brasil tentou fazer no passado — correndo um risco tão alto de retaliação por desagradar os americanos?”

    Para ele, “a identidade do México se dá muito em função com a proximidade dos EUA. E a do Brasil, pela distância dos americanos”. Além do mais, ele diz no artigo, “o México abraçou de peito aberto a economia globalizada sob liderança dos EUA, enquanto a elite brasileira continua profundamente desconfiada em relação a se abrir comercialmente”.

    A mudança de cenário pode ser o empurrão que os dois países precisavam para estreitar o comércio. “Num mundo no qual os EUA desempenharão um papel bastante mais limitado econômica e politicamente, novas parcerias devem emergir, com os países se adaptando a esta desconcentração do poder”.

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