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Qual a origem da expressão ‘dona’ e as questões que ela desperta

Marisa, Ruth, Marta, Dilma, Marcela. Só parte desses nomes vem acompanhada do pronome de tratamento. Entenda as várias conotações de seu uso

    A internação da ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva no dia 24 de janeiro após um AVC e sua morte dez dias depois trouxeram à tona o debate sobre o uso da expressão “dona” para as mulheres, em especial aquelas com destaque no cenário nacional. Não é sempre que o pronome de tratamento é utilizado. O uso varia conforme a pessoa, o interlocutor e tem significados diferentes — às vezes opostos — de acordo com o contexto e a quem ele se refere.

    Para algumas pessoas, ele é um reflexo do machismo estrutural, já que apaga a individualidade da mulher e o seu trabalho. Ela é apenas “dona”. Para outras pessoas, é apenas um sinal de respeito em relação a mulheres mais velhas. Por conta dessa dualidade, o uso levanta críticas.

    O que a palavra significa

    “Dona” tem origem no latim. Segundo o dicionário Houaiss, a palavra começou a ser utilizada nas famílias reais de Portugal e do Brasil como tratamento de mulheres que tinham algum título de superioridade — seja pelo casamento, religião ou idade. Originalmente, “dona” era um substantivo usado como sinônimo de “mulher”. Aos poucos, o uso comum o transformou em um pronome — mesmo processo que ocorreu com “senhor” e “senhora”, por exemplo.

    Pronomes de tratamento são utilizados quando não se pode, por respeito ou hierarquia, falar diretamente com a pessoa. Por sua origem, o pronome “dona” é uma forma de se referir a mulheres casadas ou de mais idade. É um pronome quase sempre empregado na terceira pessoa — quando a fala é direcionada à mulher, normalmente utiliza-se o “senhora”. O rapper Mano Brown, por exemplo, sempre se referiu à sua mãe, em suas letras, como “dona Ana”.

    Quando ‘dona’ é usado

    Marisa Letícia ficou conhecida popularmente como “dona”, assim como aconteceu com Ruth Cardoso, esposa do ex-presidente Fernando Henrique que morreu em 2008. A atual primeira-dama do país, Marcela Temer, não: aos 33 anos, ela é chamada apenas pelo nome.

    A diferenciação, nesse caso, pode ser explicada pela idade. Para Maria Helena de Moura Neves, doutora em linguística e professora da Universidade Mackenzie, o uso da palavra em relação a Marisa faz referência à idade e, também, à função.

    “São dois fatores: ela era do tempo do ‘dona’ que está aposto a seu nome. E, de certo modo, não deixa de ser uma maneira de dizer que ela é ‘do lar’ ’’, diz Neves. “Marcela, por sua vez, carrega o ‘Temer’ porque toda ‘posição’ que ela possa ter (pelo menos por enquanto) vem do sobrenome.”

    Uma expressão, diferentes significados

    O pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Guilherme de Camargo Scalzilli investigou as diferentes maneiras como a expressão “dona” é utilizada. Para isso, ele se concentrou em duas mulheres que tiveram relevância e papéis distintos na política nacional: Ruth Cardoso e a ex-presidente Dilma Rousseff.

    A ex-primeira dama, que morreu em 2008 aos 78 anos, foi conhecida como “dona Ruth”. Mas ela poderia ser chamada de professora, ou mesmo de doutora, porque de fato era doutora em antropologia. Para Scalzilli, condicionou-se a utilizar o pronome “dona” por conta da “memória de certa vassalagem sócio-econômica de longa tradição no imaginário brasileiro”. Para o pesquisador, no caso de Ruth, o pronome “tem o efeito de uma carga respeitosa”.

    Isso não acontece, no entanto, no tratamento de Dilma Rousseff.

    A ex-presidente é tratada, comumente, apenas por “Dilma” ou “presidente Dilma” e suas variações. Seu nome é vinculado ao pronome “dona”, de maneira geral, apenas em situações depreciativas.

    Quando Dilma é apresentada como “dona Dilma”, há referência indireta a uma série de estereótipos: autoritarismo, humilhação de subalternos, mulheres em situação de comando. “Existe um sentido que ‘dona’ confere aos enunciados sem fazê-lo de maneira taxativa”, escreveu Scalzili.

    “Algo semelhante é obtido pelo pronome ‘dona’, que alude à mencionada representação machista da ‘dona Maria’, comum em frases como ‘Volta para o tanque, dona Maria!’”, escreveu o pesquisador.

    Apesar dos significados distintos, para ele, os dois usos da expressão têm a mesma raiz machista. Trata-se de um “esforço para apagar suas particularidades individuais numa designação redundante de gênero que admite estigmas sexistas, quando não os corrobora”.

    Para Marta, ‘dona’ é machismo

    A mesma avaliação foi feita pela senadora Marta Suplicy (PMDB-SP). Em 2004, enquanto disputava a eleição para a prefeitura de São Paulo, Marta (então candidata pelo PT) foi chamada de “dona” pelos adversários José Serra (PSDB) e Paulo Maluf (PP).

    Na época, ela classificou o tratamento como “machista”: “já começaram de novo a me chamar de dona Marta, que é quando eles querem usar uma forma pejorativa contra a mulher e desqualificar a mulher", declarou na época a hoje senadora.

    Na eleição de 2008, Gilberto Kassab, então candidato a prefeito pelo DEM, também recorreu à mesma forma de tratamento em relação à Marta: chamou-a de “dona” seis vezes. “É um sinal de respeito, ela é mais velha do que eu”, ele declarou na época.

    “Você vê que é o mesmo termo, que a princípio é respeitoso”, diz o pesquisador em linguística Henrique Braga, doutorando em letras na USP. “Eu digo ‘dona Ana’ porque não posso ser íntimo, mas digo ‘dona Marta’ porque quero dizer que você não é desse espaço.” Para ele, há duas leituras possíveis sobre o significado: o próprio machismo da escolha do termo, ou um “termo respeitoso que revela uma estrutura machista”.

    “O uso desse tipo de tratamento tem um toque senzalesco, como se a sinhá do presidente fosse dona dos súditos”, escreveu o jornalista Elio Gaspari. Ele lembra, também, que o termo nunca foi utilizado em referência a Michelle Obama, por exemplo, tratada sempre pelo próprio nome.

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