O que a liga de futebol americano tem feito para prevenir danos no cérebro dos jogadores

Críticas de jogadores e médicos à NFL impulsionaram a criação, em 2013, de um procedimento de saúde em todas as partidas; protocolo foi incrementado ao longo dos anos

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O Super Bowl, partida final da liga de futebol americano, ocorre neste domingo (5) entre os times do Atlanta Falcons e do New England Patriots, com show da cantora Lady Gaga no intervalo. Trata-se do evento de maior audiência da TV dos EUA. Em 2016, 111 milhões de pessoas assistiram ao jogo, mais de um terço da população do país.

A partida ocorre num momento em que a saúde dos jogadores ganha espaço no debate sobre o esporte. Mais especificamente, as concussões causadas pelos impactos do jogo. Isso mesmo depois da entrada em vigor, em 2013, do chamado “protocolo de concussão”, um conjunto de etapas com o intuito de identificar possíveis danos cerebrais em jogadas de forte impacto.

Exemplo de como o assunto está na pauta do país é o filme “Um homem entre gigantes”, de 2015, protagonizado pelo astro Will Smith — o título original é “Concussion”. Cotado para os principais prêmios do cinema americano em 2016, o filme é uma adaptação da história real do médico Bennet Omalu, que, a partir de 2002, analisou o cérebro de ex-atletas da NFL que haviam morrido e verificou degeneração neurológica.

Omalu concluiu que a doença degenerativa, chamada ETC (encefalopatia traumática crônica), havia sido causada pelos golpes que os atletas receberam na cabeça ao longo da carreira. Ele então passou a apresentar os estudos à NFL, que negou que os danos eram fruto da prática do futebol americano. Apenas em dezembro de 2009 a NFL admitiu pela primeira vez que havia uma ligação entre concussões no esporte e danos a longo prazo para os atletas.

Concussão: o que é e por que preocupa

A Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte define concussão como “uma lesão traumática do cérebro, que altera o estado de consciência” e cita diversos sintomas, entre eles desorientação no tempo e espaço, tontura, dificuldade de comunicação e náuseas.

Numa concussão, o cérebro se move violentamente dentro da caixa craniana, por conta do impacto sofrido. Nem sempre esse impacto ocorre diretamente na cabeça. A concussão pode ser resultado do efeito chicote, por exemplo, em que o pescoço se movimenta abruptamente — como em um acidente de carro em que o encosto para o pescoço não existe ou não está bem regulado, por exemplo.

Os sintomas nem sempre são claros e podem não aparecer imediatamente após a concussão acontecer. Evidências médicas indicam que repetidas concussões causam danos irreversíveis a longo prazo.

“Muitas pessoas acreditam que não sofreram uma concussão porque não perderam a consciência. No entanto, lesões significativas podem ocorrer, mesmo sem haver perda total da consciência. Tais alterações da consciência podem variar desde uma pequena desorientação ou confusão mental, até a amnésia e perda de consciência por vários minutos.”

Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte

em seu site

Como funciona o protocolo da NFL

Atleta sai de campo

O jogador é retirado do campo assim que for detectada “uma potencial concussão”, geralmente após uma jogada de forte impacto. Ele é substituído e a partida prossegue.

Primeiro atendimento

O médico do time e um consultor de neurotraumas sem ligação com as equipes reveem a jogada por diferentes câmeras e iniciam os testes com o jogador. São feitos exames simples, como perguntar como o atleta está se sentindo, se ele se lembra do ocorrido e tem consciência de onde está.

Atleta vai ao vestiário

Se a equipe médica suspeitar que houve uma concussão, o atleta é retirado da beira do campo e levado ao vestiário. Segundo a NFL, essa medida “tem a intenção de proteger os jogadores ao lhes proporcionar um ambiente quieto, com supervisão médica adequada, para permitir ao jogador um tempo de recuperação sem distrações”.

Decisão

Caso o jogador seja diagnosticado com uma suspeita de concussão, não poderá falar com a imprensa até permissão médica e não voltará ao jogo. Caso não seja verificada concussão, ele pode retornar à partida e será monitorado até o final.

Passo a passo para voltar a jogar ou treinar

Em caso de concussão, o atleta deverá ser avaliado diariamente por médicos. Ele passa por cinco etapas graduais de recuperação, de exercícios de alongamento e equilíbrio (em que se recomenda inclusive evitar redes sociais e reuniões com o time) até retornar ao treino completo (o que inclui contato físico). Mesmo sendo um jogador importante da liga, poderá ficar fora das partidas.

Além da equipe ao lado do campo, a cada jogo dois médicos (até 2016 era apenas um) assistem à partida em uma cabine acima do nível do gramado, com binóculos e replay das jogadas, com o intuito de identificar possíveis concussões que não tenham sido percebidas. Desde 2015, esses médicos podem interromper o jogo para a retirada e atendimento de um jogador.

De acordo com o protocolo, há sete sinais observáveis para se identificar uma concussão: qualquer grau de perda de consciência, lentidão para se levantar após sofrer uma pancada na cabeça, problemas motores ou de equilíbrio, semblante sem expressão, desorientação, levar as mãos à cabeça após a pancada, e ferida facial em conjunto com outro dos seis sinais.

Regras também mudaram

Na NFL, a punição mais alta para uma falta é o time recuar 15 jardas no campo (que tem um total de 100 jardas). Nos últimos anos, esse tipo de penalidade passou a ser aplicado a mais infrações que colocam em risco a integridade física de um jogador.

Exemplos são tocar no capacete do quarterback (jogador que comanda o ataque) quando ele está dentro do “pocket” (área atrás de jogadores do seu time que o protegem, onde ele fica enquanto se prepara para executar a jogada de ataque), ou tocar violentamente na região da cabeça de um jogador pronto para receber um passe aéreo e que esteja “indefeso”.

Ao Nexo, o comentarista da emissora esportiva “ESPN” Paulo Antunes disse acreditar que, nos próximos anos, a liga seguirá a tendência de intensificar o cuidado com a saúde dos jogadores — pelo protocolo de concussão e pela mudança de regras. “Eu acho que a NFL está prestando mais atenção [à saúde dos atletas]. A gente está vendo tantos ex-jogadores com sequelas hoje em dia”, disse Antunes.

Para ele, o médico independente (sem filiação com os times) é importante para evitar possíveis conflitos de interesse — por exemplo, se um jogador importante é impedido de jogar por conta do protocolo, a ausência de um médico independente poderia levar a equipe a colocar a saúde do atleta em risco a fim de tentar vencer a partida.

Críticas não acabaram

Na quinta-feira (2), o presidente da associação de jogadores da NFL, Eric Winston, afirmou que houve avanços na questão das concussões, mas pediu mais rigor da liga. Winston, que joga no Cincinnati Bengals, disse que precisa cair para zero o número de investigações feitas pela associação para verificar concussões não reportadas pela NFL. Segundo ele, foram quatro investigações na temporada 2016 — a mais recente, na fase de mata-mata, envolvendo o time do Miami Dolphins.

Em outubro de 2016, em seu programa na emissora “HBO”, o apresentador Bill Simmons perguntou a Doug Baldwin, jogador do Seattle Seahawks que recentemente havia sido submetido ao protocolo durante um jogo, se o atleta poderia ter mentido para os médicos e voltado à partida. “Sim, eu poderia. Eu acho que há jogadores que fazem isso e acho que isso é relativamente sabido dentro da liga, até os árbitros sabem que não é uma ciência exata. Nós conhecemos o protocolo, então se você estiver consciente de alguma forma, você pode burlar o sistema”, respondeu o jogador.

Em janeiro de 2017, Jon Frankel, jornalista que cobre esportes para a “HBO”, disse que muitas das pessoas de dentro dos times com quem ele já conversou afirmam que o protocolo atual é insuficiente.

“Eu ainda debateria se o esporte está mais seguro hoje em dia, pela seguinte razão: ainda vejo pancadas de capacete com capacete em todos os jogos a que eu assisto. Não acho que as penalidades [previstas nas regras] são duras o bastante para mudar a cultura [de pancadas]”, afirmou Frankel.

Na temporada 2015, a NFL registrou 271 concussões diagnosticadas, um aumento de quase 32% em relação ao ano anterior. Desde que o protocolo foi implementado, em 2013, os números vinham caindo.

Concussões de 2004 a 2015

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