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Marisa Letícia morre aos 66 anos: militante nos bastidores, primeira-dama discreta

Casada com Lula desde 1973, ela optou por falar pouco em público, apesar de estar sempre ao lado do ex-presidente

     

    A ex-primeira-dama Marisa Letícia morreu nesta sexta-feira (3) aos 66 anos. Ela estava internada desde o dia 24 de janeiro no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, após sofrer um acidente vascular cerebral.

    A família autorizou os procedimentos para a doação de órgãos. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou uma nota em seu perfil no Facebook no qual informou sobre o velório, que será realizado no sábado (4), em São Bernardo do Campo, Grande São Paulo.

    Marisa Letícia foi primeira-dama por oito anos, mas nunca desempenhou funções administrativas. Sua atuação política sempre foi reservada aos bastidores, desempenhada desde que conheceu Lula, na década de 1970.

    Ao longo de quase 44 anos de convivência, ela participou dos principais momentos do ex-presidente, da fundação do PT aos reveses da Operação Lava Jato.

    “Mas nunca pedi para o Lula parar, nunca [com a carreira política]. (...) Acho que o Lula se sente seguro comigo, muita gente já me falou isso. (...) Então, eu não tenho a visão de marido e mulher nesse caso. Tenho uma visão de militância. Não é visão de querer agradar o Lula, mas sim do que é bom para ele”

    Marisa Letícia

    ex-primeira dama, em relato ao livro “Lula, o filho do Brasil” (Editora Fundação Perseu Abramo, 2002)

    Apoio na ditadura

    O nome de nascimento era Marisa Letícia Casa, de ascendência italiana. Nascida na área rural de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, começou a trabalhar com 9 anos para ajudar no sustento da família. Foi babá dos filhos de um sobrinho do pintor Candido Portinari. Aos 13, trabalhava em uma fábrica de chocolates, onde ficou até os 19 anos. Depois, trabalhou como inspetora de uma escola pública.

    Marisa conheceu Lula no Sindicato dos Metalúrgicos, em 1973. Ambos eram viúvos e tinham filhos dos relacionamentos anteriores. O primeiro marido de Marisa Letícia, um taxista, foi assassinado após um assalto enquanto trabalhava. Ela tinha 19 anos e estava grávida.

    O encontro com Lula aconteceu quando ela tinha 23 anos. Casaram-se sete meses depois. Quando o marido incorporou o “Lula” ao nome, Marisa Letícia fez o mesmo e tornou-se Marisa Letícia Lula da Silva. Eles tiveram mais três filhos juntos.

    O relacionamento de ambos começa na ditadura militar. Lula já era um líder sindical e organizava algumas das várias greves gerais ocorridas entre 1970 e 1980. Quando ele ficou detido no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) por sua atuação sindical, Marisa Letícia organizou a Passeata das Mulheres, em apoio aos sindicalistas presos. Foi acompanhada dos filhos pequenos.

    A prisão ocorreu em abril de 1980, dois meses depois da fundação do Partido dos Trabalhadores. A casa de Marisa e Lula sediou muitas das reuniões do partido. Ela ajudava a cadastrar filiados, a arrecadar fundos e acompanhava as discussões, embora não participasse diretamente da organização da legenda.

    “A primeira bandeira do PT eu é que fiz. (...) Costurei a estrela branca no fundo vermelho. Ficou lindo”, disse ela em entrevista de 2002 ao site da campanha presidencial do PT.

    Dos palanques ao Planalto

    Lula perdeu três disputas presidenciais antes de ser eleito em 2002. Nas primeiras campanhas, Marisa acompanhava o petista, mas pouco aparecia.

    Em 2002, por orientação do marqueteiro Duda Mendonça, ela teve mais destaque. Lula foi retratado naquela campanha na versão “paz e amor”, uma figura menos árida daquela de sindicalista. Apresentá-lo como pai e marido ajudava na construção da nova imagem.

    A campanha foi exitosa. Em 1º de janeiro de 2003, Lula se tornou o primeiro presidente pelo PT, e Marisa, a primeira-dama. Título que, antes mesmo de virar realidade, ela já recusava.

    “Prefiro que me chamem pelo meu nome. Não quero assumir nada, se o Lula for eleito. Só quero ajudar no que posso. E, além disso, cuidar dos meus filhos. A gente vai fazer tal coisa. Eu digo ‘está bom, no que eu posso ajudar?’. Então vou trabalhar em cima disso.”

    Marisa Letícia

    em relato ao livro “Lula, o filho do Brasil”

    E foi assim no decorrer dos oito anos em que Lula foi presidente. Marisa ficou distante de qualquer função política tradicionalmente atribuída a uma primeira-dama, como tratar de projetos sociais.

    A opção levou a inevitáveis comparações à sua antecessora, a antropóloga Ruth Cardoso, esposa de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que fundou e comandou o programa social Comunidade Solidária e participou de ações voltadas às mulheres. Ruth morreu em 2008.

    Marisa se dedicava ao Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente, e a uma atuação discreta nos bastidores como conselheira política informal de Lula. Às vezes participava de reuniões e fazia alguns poucos comentários, de acordo com relatos de parlamentares na época, mas a discrição era sua característica principal.

    Estrela vermelha nos jardins

    Foto: Jamil Bittar/Reuters - 01.01.2003
    Primeira-dama Marisa Letícia e o presidente Lula
    Marisa Letícia no dia da posse de Lula, em 1º de janeiro de 2003

    Cuidar de plantas era uma das atividades preferidas de Marisa, herança de sua infância no sítio em São Bernardo. O hobby, no entanto, acabou sendo o motivo de uma das primeiras polêmicas do governo Lula e teve Marisa como protagonista.

    Em abril de 2004, o jornal “Correio Braziliense” revelou que um canteiro de flores vermelhas com formato de estrela fazia parte dos jardins do Alvorada e da Granja do Torto (outra residência oficial da Presidência).

    As sálvias em formato de estrela, com quatro metros de diâmetro, foram criticadas por entidades de conservação de patrimônio e serviram para alimentar as críticas de opositores, para quem estampar o símbolo do partido significava o aparelhamento do Estado.

    O desenho, segundo o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), não infringiu regras de tombamento. O Planalto, por sua vez, afirmou que a ideia partiu de um dos jardineiros, não de Marisa, e que havia outras formas geométricas nos jardins. A despeito da polêmica, as sálvias vermelhas continuaram, inclusive durante parte do governo de Dilma Rousseff (2011-2016).

    As investigações da Lava Jato

    O fim do mandato de Lula, em 2010, não significou a saída do ex-presidente do cenário político. As campanhas eleitorais de 2010 e de 2014, da eleição e reeleição de Dilma, e o diagnóstico de um tumor na laringe em 2011 mantiveram o petista em evidência. Marisa, ainda que indiretamente, fez parte disso.

    A partir de 2015, os desdobramentos da Lava Jato se tornaram mais um capítulo na vida de Lula como ex-presidente. Neste caso, porém, com consequências mais diretas para a ex-primeira-dama.

    As acusações do Ministério Público Federal de que Lula estava envolvido no esquema de desvios da Petrobras foram, em parte, estendidas a Marisa Letícia. Ela virou ré em duas ações penais em que Lula é acusado de receber propinas de duas empreiteiras em troca de favorecê-las em contratos com a estatal.

    As propinas foram revertidas em benfeitorias em um apartamento tríplex no Guarujá, litoral paulista, e na compra de um terreno em São Paulo (cuja transação não foi efetivada), de acordo com a Procuradoria.

    Quando aceitou a primeira denúncia, em setembro de 2016, o juiz federal Sergio Moro disse “lamentar” a acusação contra Marisa, mas que era necessário apurar se ela sabia da propina. O nome da ex-primeira-dama aparecia em contratos.

    Ao todo, Lula é réu em cinco ações penais, três pela Lava Jato, e as demais em decorrência das operações Janus e Zelotes — esta última atinge também um dos filhos do casal, Luiz Cláudio.

    Desde então, Marisa ficou ainda mais distante da vida pública. Nesse período, teve seu nome citado em reportagens quando Moro divulgou conversas telefônicas pessoais de Lula e de pessoas próximas, em março de 2016.

    Na época dos protestos contra a então presidente Dilma, Marisa se irritou com panelaços contra a petista em São Bernardo, berço político do partido e de Lula. “Aqui em São Bernardo, que que é isso? Uma terra de trabalhador, de lutador”.

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