Por que pessoas bilíngues misturam as línguas que falam

Ao contrário do que se pensava, a alternância linguística não é uma prática de quem não é fluente no idioma e exige grande capacidade

 

Em uma conversa de pessoas que falam mais de uma língua, elas tendem a falar ora em um idioma, ora em outro. O fenômeno tem um nome — alternância linguística ou “code-switching”, em inglês - e é descrito por vários pesquisadores de linguística como natural e próprio de quem é bilíngue.

Para muitos, essa alternância acontece porque não há domínio de uma das línguas, sendo preciso recorrer a termos e estruturas da segunda língua falada. Até a década de 1970, estudiosos de línguas e de seu aprendizado também pensavam assim.

Mas o que sociolinguistas, psicólogos sociais, antropólogos e outros pesquisadores descobriram é que o “code-switching” não é um erro, um sinal de que o desempenho na língua não é fluente. Na verdade, ele acontece com pessoas fluentes e é uma estratégia cognitiva que depende do contexto social em que a conversa acontece e tem finalidades específicas.

As novas explicações

Segundo um artigo de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Juiz de Fora, essa mudança pode ser usada para trasmitir significados sutis, “como identificação étnica e cultural, papéis/hierarquia dos participantes da interação, valores sociais e situacionais”, para dar ênfase ao que se diz, complementar o vocabulário ou tornar a mensagem mais “dura”.

A mudança de uma língua para outra não tem a ver com não saber o termo equivalente, segundo o site especializado em educação bilíngue “Spanglish Baby”. No livro “Bilingual: Life and Reality”, o especialista em bilinguismo François Grosjean explica que a troca tem a ver com o fato de que aspectos diferentes da vida, como trabalho, família, escola e lazer de pessoas bilíngues requerem palavras em mais de uma língua. Grosjean chama isso de  “princípio complementar”. As pessoas “naturalmente” migram para a outra língua se ela tiver uma expressão ou palavra mais exata ou enfática para comunicar o que se quer dizer, ou para marcar.

“Sempre que um falante bilíngue entrar em contato com um ouvinte que detenha suas mesmas línguas demonstrará uma habilidade especial: a de escolher variantes linguísticas ou fazer opções estilísticas conforme a situação social, o interlocutor ou o meio oral ou escrito em um dos idiomas que domina”, escreve Isabella Mozzillo, pesquisadora de bilinguismo e professora da Universidade Federal de Pelotas, no artigo “O Code-switching: Fenômeno Inerente ao Falante Bilíngue”.

Para Mozzillo isso faz com que o bilíngue tenha um comportamento linguístico específico ao interagir com um interlocutor que domine o mesmo par de línguas que ele.

Não é só para bilíngues

Apesar de o campo de estudos acadêmicos sobre “code-switching” tratar da alternância entre línguas, falantes de apenas um idioma usam corriqueiramente uma estratégia parecida.

A forma como as pessoas transitam entre vocabulários e formas de expressão diferentes em contextos distintos também pode ser chamada de “code-switch”. A mudança tem a ver com as múltiplas identidades que se tem, com o contexto da interação e as normais sociais: normalmente, não se fala da mesma forma com amigos, familiares, examinadores de uma banca, um juiz ou seu chefe.

Nos EUA, esse tipo de “code-switch” tem também forte conotação racial. Um sketch da dupla de comediantes “Key & Peele” mostra dois homens negros fazendo um pedido em um restaurante. Eles começam falando de uma maneira e carregam cada vez mais na variante de sua origem racial para marcar sua identidade. 

 

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