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Quem são e o que propõem os 5 principais candidatos à presidência da França

Direita aparece como favorita em disputa que deve indicar a inclinação ideológica da Europa na primeira grande eleição após o ‘Brexit’ e a chegada de Donald Trump à Casa Branca

    Com a definição, neste domingo (29), de Benoît Hamon, do Partido Socialista, como candidato vencedor das primárias da centro-esquerda, a França entra na fase final de escolha do próximo presidente do país, em eleições marcadas para o dia 23 de abril, em primeiro turno, e 7 de maio, em segundo turno, caso seja necessário.

    A direita francesa já havia concluído processo de prévias semelhante no dia 27 de novembro, quando François Fillon foi o escolhido entre os pré-candidatos desse espectro ideológico.

    A França tem um sistema chamado de semipresidencialismo. O país é liderado por um presidente, eleito por voto direto, que indica quem será seu primeiro-ministro, responsável pela gestão dos temas internos, e que precisa da aprovação de maioria no Parlamento. O mandato presidencial é de cinco anos, com direito a reeleição.

    A definição da centro-esquerda

    Nas primárias deste domingo (29), Hamon venceu o antigo primeiro-ministro Manuel Valls numa disputa que colocou frente a frente os dois posicionamentos mais antagônicos dentro do espectro ideológico da centro-esquerda: Valls com uma postura mais centrista, e Hamon com a proposta de “renovação” da esquerda do país.

    Hamon confirmou favoritismo

    O partido tenta se reerguer num contexto de baixo índice de popularidade do atual presidente, François Hollande, que é do Partido Socialista. Hollande foi eleito em 2012 e conta, atualmente, com apenas 4% de aprovação. O contexto fez com que ele anunciasse, no início de dezembro, a desistência de concorrer à reeleição, abrindo espaço para um novo jogo de forças no campo da centro-esquerda.

    Contra o atual presidente e seu partido, pesa a incapacidade de reverter as altas taxas de desemprego no país e, num plano mais amplo, conseguir fazer a economia francesa crescer e se desenvolver. A segurança interna, com ataques terroristas de grande porte, também foi fonte de críticas a Hollande.

    A definição da centro-direita

    Do lado contrário, o partido Os Republicanos tenta aproveitar o momento de crise dos socialistas para retomar o poder, perdido com o fim do mandato de Nicolas Sarkozy, que presidiu o país entre 2007 e 2012. O ex-presidente chegou a participar das primárias da centro-direita, mas acabou em terceiro lugar, caindo ainda no primeiro turno.

    Sarkozy foi derrotado por Alain Juppé e François Fillon, ambos antigos primeiros-ministros. Eleitores da esquerda chegaram a se mobilizar para votar em Juppé nas primárias da centro-direita, uma vez que o consideravam o “menos pior” entre os nomes possíveis. Mesmo assim, Fillon venceu com boa margem de votos no segundo turno.

    Fillon confirmou favoritismo

    Na França, questão trabalhista tem peso histórico

    Tanto nas primárias de centro-esquerda quanto de centro-direita, a questão trabalhista foi um dos aspectos principais em debate. Ela dialoga diretamente com os problemas econômicos vividos hoje pelo país, e mudanças são vistas como parte importante das soluções.

    A proposta de Hollande foi implementar a “Lei do Trabalho” em 2016, que relaxa direitos trabalhistas e permite que o empregador tenha mais liberdade para contratar, demitir e negociar salários sem estar preso a um acordo coletivo da categoria. Uma abordagem considerada liberal e que desagradou a esquerda — sua base de apoio já fragilizada. Hollande tampouco conseguiu cativar os conservadores, e acabou isolado.

    A França tem nas organizações trabalhistas uma força política importante e histórica. Seus sindicatos surgiram em 1884 e desde então fizeram de uma das maiores economias do mundo também uma referência em direitos dos trabalhadores.

    Forças políticas economicamente liberais argumentam que a grande quantidade de direitos gera altos custos ao empresariado e acaba prejudicando a capacidade empreendedora do país, que gastaria muito dinheiro com a mão de obra.

    A retomada econômica e geração de emprego, nesse contexto, será um dos principais tópicos dos debates até o primeiro turno. Além disso, a segurança nacional, a questão migratória e a permanência na União Europeia — abalada pela saída do Reino Unido e insegura com relação à sua aliança com os EUA de Donald Trump — também são temas em pauta.

    Por enquanto, quem lidera as intenções de voto é Marine Le Pen, segundo dados da Ipsos em pesquisa de 20 de janeiro. François Fillon e Emmanuel Macron aparecem em seguida e são considerados os únicos dois nomes capazes de vencer a Frente Nacional. Em pesquisas simuladas para o segundo turno, Macron venceria tanto Marine quanto Fillon. Numa eventual disputa entre os dois candidatos da direita, Macron teria mais chances de vitória, ainda segundo a Ipsos.

    Le Pen lidera primeiro turno

    Marine Le Pen

    Quem é

    Desde que assumiu a liderança da Frente Nacional, em 2011, Marine trabalhou para reformular a imagem do partido. Foi bem-sucedida: se consolidou como terceira força nas eleições presidenciais de 2012, com 18% dos votos. Dois anos depois, seu partido pela primeira vez foi o mais votado em uma eleição de abrangência nacional, para o Legislativo da União Europeia, e em 2015 saiu fortalecido das eleições regionais. Le Pen rejeita a classificação de extrema-direita, por considerar o termo uma marginalização de um partido com amplo apoio nacional. A Frente Nacional não se identifica com a centro-direita e por isso não participou das prévias.

    O que propõe

    Com o slogan “recolocar a França em ordem em 5 anos”, Le Pen diz ter como uma de suas principais bandeiras a priorização do trabalhador francês — com políticas que dificultem a entrada de imigrantes no país e no mercado de trabalho local —, bem como a oposição à globalização, à União Europeia e ao euro. A candidata já declarou que, se eleita, irá retirar a França da Zona do Euro, grupo de 19 países que adotaram a mesma moeda a partir de 2002. Seu partido também tem como característica central a postura contra imigrantes e refugiados.

    François Fillon

    Quem é

    Fillon foi primeiro-ministro francês entre 2007 e 2012, durante a presidência de Nicolas Sarkozy. Nas primárias da direita, bateu com folga nomes importantes como o próprio Sarkozy e Alain Juppé. Fillon era considerado o favorito dessas eleições, mas a divulgação de um suposto esquema de corrupção que teria pago €500 mil (cerca de R$ 1,6 milhão) da verba pública à sua esposa, Penelope Fillon, por falsos serviços prestados ao marido quando ele era deputado pode abalar sua popularidade. O candidato nega as acusações.

    O que propõe

    Em seu site, Fillon destaca 15 propostas que classifica como centrais, e servem como um guia para entender as principais ideias do candidato. Na lista, chamam a atenção a liberalização econômica e das leis trabalhistas, o encolhimento do Estado e a tentativa de instaurar leis protecionistas com relação à União Europeia. Em questões sociais, adota uma postura anti-imigração, com a implementação de cotas para a entrada de estrangeiros no país; resgata ideias conservadoras com relação à família e a restrição de direitos homossexuais; e quer construir mais prisões, a fim de que “as condenações sejam executadas”.

    Emmanuel Macron

    Quem é

    Afilhado político de Hollande e ministro da Economia entre 2014 e 2016, Macron era considerado uma das figuras mais populares do governo, até romper com o Partido Socialista e criar seu próprio movimento político, o “En Marche!”. Aos 39 anos, tem uma candidatura de centro e se define como “nem de esquerda, nem de direita”. Joga a seu favor a sensação de que nenhum candidato da esquerda tem força para derrotar Le Pen ou Fillon. Nesse caso, ele pode congregar o apoio tanto da esquerda quanto do centro.

    O que propõe

    Macron coloca como um dos focos de sua candidatura a “emancipação” política, social e econômica dos franceses. Para ele, normas e obrigações existentes desencorajam o engajamento social e político da população, que passa a culpar, erroneamente, a globalização pelos problemas internos. Sua plataforma política é simpática à União Europeia, às Nações Unidas e à Alemanha de Merkel, inclusive na postura pró-imigrantes. Economicamente liberal, o ex-bancário é à favor da redução da máquina pública, e quer criar um ambiente favorável ao empreendedorismo no país.

    Benoît Hamon

    Quem é

    O candidato de 49 anos construiu toda a sua carreira política dentro do Partido Socialista. Em 2014, foi ministro da Educação por quatro meses durante o governo de Hollande, e sempre adotou um discurso bastante crítico à política economicamente liberal do governo socialista. Sua candidatura nas primárias da esquerda era considerada uma zebra até começar a ganhar força ao longo da campanha. Hamon se apresenta como a renovação da esquerda do país.

    O que propõe

    Hamon defende o cancelamento imediato da polêmica “Lei do Trabalho” de Hollande, a instauração de uma renda básica universal a todos os adultos de aproximadamente €600 (por volta de R$2.000,00) e a taxação dos robôs na indústria. Propõe também uma nova estrutura política europeia com foco na defesa integrada e a favor da imigração. Ele busca a criação da “6ª República” para aprofundar a democracia — o atual período histórico da França é conhecido como 5ª República. Nela, 1% do eleitorado teria a possibilidade de propor uma lei ao Parlamento ou criar um referendo para a suspensão de uma lei vigente.

    Jean-Luc Mélenchon

    Quem é

    Uma das figuras mais tradicionais da política francesa, Mélenchon já foi membro do Partido Socialista e hoje representa a ala mais radical da esquerda do país nas eleições de 2017. Em 2012, foi candidato da Frente de Esquerda, composta pelo Partido Comunista. O candidato vem ganhando força com a impopularidade do governo de Hollande, mas ainda assim, sua chances de ir ao segundo turno são consideradas improváveis.

    O que propõe

    Entendendo que a ideia original da União Europeia serve para praticar políticas de austeridade impostas pelos grandes bancos e pela “grande coalizão da direita e do PS na Alemanha”, Mélenchon defende a saída da França do bloco. Também se coloca contra a aliança militar ocidental Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e defende o redirecionamento da cooperação francesa aos países emergentes. O candidato é favorável a políticas para a redistribuição de riquezas e propõe uma “revolução democrática” através da criação de uma nova Constituição que privilegie a iniciativa popular.

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