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O concurso Miss Universo faz sentido? Perguntamos a esta pesquisadora

Heloísa Buarque de Almeida analisa impacto da competição de beleza no comportamento imposto às mulheres e diz por que o evento ainda atrai atenção

     

    Em um momento em que o discurso feminista extrapola a esfera da militância e está em toda parte, uma nova Miss Universo foi eleita no dia 30 de janeiro de 2017. A fase final da competição ocorreu nas Filipinas e a vencedora é Iris Mittenaere, uma estudante universitária francesa de 23 anos.

    Realizado desde 1952, o concurso de beleza feminino de abrangência mundial começou como uma estratégia de marketing de uma marca californiana de roupas de banho e foi televisionado pela primeira vez em 1955.

    Um dos protestos feministas mais célebres do século 20, aquele em que mulheres americanas queimaram sutiãs publicamente, aconteceu em reação ao “Miss America” de 1968 - etapa preliminar à disputa global.

    Os concursos de beleza se tornaram, dessa forma, uma síntese do combate histórico do feminismo a padrões de beleza inalcançáveis para as mulheres.

    O ‘corpo da mulher perfeita’ ao longo do tempo

    Desde os anos 1950, o ideal de corpo perfeito para as mulheres sofreu algumas alterações, como mostra o vídeo abaixo, feito pelo site de saúde britânico “superdrug.com”. Mas não muitas: ao longo de mais de seis décadas de história, todas as ganhadoras eram mulheres magras e jovens, em sua maioria brancas.

     

    O site especializado em saúde também coletou dados de peso e altura das ganhadoras ao longo do tempo em comparação com a média das americanas entre 22 e 29 anos.

    A partir dos anos 1960, as americanas “reais” não só eram mais baixas e mais gordas do que as misses eleitas como a distância entre a miss universo e a mulher americana média aumentou a cada ano.

    A conclusão do estudo feito pelo site especializado em saúde é que o concurso propaga um padrão de beleza inatingível que culmina em distúrbios alimentares, insatisfação com o próprio corpo, depressão e outros problemas que afetam mulheres submetidas a esse padrão.

    Audiência e princípios da organização

    O interesse do público pelo Miss Universo na TV americana caiu nos últimos anos. Ainda assim, foi o programa com maior audiência para o horário em sua edição de 2017, com mais de 5 milhões de espectadores nos EUA.

    Apesar de ainda ter regras estritas de faixa etária e estado civil das concorrentes, o discurso da organização que promove a competição parece ter tentado se modernizar.

    No site oficial do concurso não constam restrições às medidas das candidatas - embora todas as finalistas correspondam a um padrão semelhante - auto-confiança e empoderamento, por outro lado, são mencionados como características essenciais da vencedora.

    Segundo o site oficial, “a Organização Miss Universo é uma empresa comandada por mulheres e para mulheres, construída à base da inclusão e da celebração da diversidade. (...) A missão da organização é prover ferramentas que ajudam mulheres a serem seu melhor. Auto-confiança é a chave. Toda mulher deveria ter a confiança para se pronunciar em qualquer situação e declarar, ‘Me sinto segura e é isso que me torna bonita!’”.

    A organização, que também  responde pelos concursos “Miss USA” e “Miss Teen USA”, pertenceu até 2015 ao atual presidente Donald Trump, conhecido pelas declarações sexistas e denúncias de assédio sexual.

    O que diz o regulamento

    O regulamento determina que a concorrente a Miss Universo tenha entre 18 e 28 anos, não seja nem nunca tenha sido casada. Também é eliminatório estar grávida ou já ter tido filhos.

    Ela deve “estar de acordo com os valores da organização”, como a proposta de impactar positivamente a sociedade por meio da visibilidade de sua posição.

    A competição inclui, tanto em sua fase preliminar quanto nas finais, entrevistas em que as concorrentes dão sua visão sobre questões de atualidades e desfiles em roupa de banho e de gala.

    Nesse ano, as candidatas responderam a perguntas sobre o governo Trump, a crise humanitária de refugiados e a Women’s March.

    A antropóloga e professora da USP Heloisa Buarque de Almeida, pesquisadora do Numas, o Núcleo de Estudos dos Marcadores Sociais da Diferença, falou ao Nexo sobre o concurso e, segundo ela, sua longevidade mostra que, na televisão e no show business, há uma estrutura que induz à repetição do que dá certo.

    “Sempre teve concurso de miss e enquanto vender, tiver público e patrocínio, isso tende a não mudar. Pensando no Miss Universo como um evento midiático, o que importa é manter o público e o anunciante. Se os anunciantes dissessem que não querem mais fazer anúncio só com mulher magra, jovem e branca, talvez [o concurso] mudasse”, diz.

    Os meios da imprensa e do entretenimento têm se tornado mais sensíveis às questões de diversidade e representatividade. Essas conquistas, no entanto, ainda convivem com produtos culturais, como o Miss Universo, incompatíveis com essa “nova ordem”. O concurso pode estar perdendo relevância, mas ainda não parece perto do fim.

    A manutenção desse formato de competição, segundo a antropóloga, acaba sendo conservadora por propagar “um padrão de beleza ultrapassado e um modelo de feminilidade e de virtude feminina muito conservador, calcado na beleza”.

    Para a antropóloga, esse modelo é rentável porque a sexualização dos corpos mistura o desejo sexual por uma feminilidade convencional e o desejo de consumo. Nesse aspecto, o Miss Universo está, na visão dela, diretamente ligado à lógica da sociedade de consumo ao submeter o corpo a um padrão de beleza que deve ser atingido com esforço, dedicação e muitos gastos.

    Contemplar a existência do concurso em conjunto com uma onda conservadora que atualmente ameaça as mulheres com a perda de direitos no mundo todo, segundo a antropóloga, é perturbador. Também há um “contra-ataque” do modelo de feminilidade convencional: setores conservadores buscam resgatá-lo e afirmá-lo como reação aos espaços conquistados pelo movimento feminista, negro e LGBT. 

    Como o Miss Universo ‘ensina’ o que é ser mulher

    Segundo a antropóloga, já que os comportamentos definidos como próprios de homens e mulheres não são naturais mas sim aprendidos socialmente, a mídia é uma das esferas de produção de padrões de gênero, junto a outras, como a família, a religião e a escola.

    É nessas esferas que indivíduos em formação aprendem o que é ser homem e o que é ser mulher na sociedade. Contando com uma audiência feminina muito significativa, a televisão tem muita influência sobre o padrão de corpo ideal e também sobre o ideal amoroso e familiar, diz Buarque de Almeida.

    Esses ideais, segundo ela, caminham juntos: o concurso de miss lança mão do imaginário da princesa, que associa beleza, sucesso e a conquista de um parceiro. “O problema disso é a ideia de que você ganha um bom marido se for boazinha e bonita, mas ainda precisa dele para se salvar. Não pode se salvar sozinha”, diz. 

    Buarque de Almeida afirma ainda que a associação entre beleza e autoestima também é comum nas revistas e mesmo nos concursos - mas está ligada, em sua raiz, à ideia de encontrar um parceiro para atingir a completude. 

    O Miss Universo e outros concursos de beleza semelhantes marcam a diferença entre o que é ser homem e o que é ser mulher em nossa sociedade, diz a pesquisadora, entre como se mede a feminilidade e a masculinidade ideais.

    “Não há um concurso de beleza para homens como o Miss Universo. Existe um padrão muito diverso para homens e mulheres, as exigências para eles são outras. A masculinidade [tida como ideal] não estaria jamais em um concurso de beleza, talvez em um de músculos, de virilidade ou de inteligência”, diz. 

    A pesquisadora destaca que o padrão de beleza feminino no Brasil é ainda mais exigente que em outros países. A mulher é cobrada de ser boa profissional, boa dona de casa, estar depilada, de unhas feitas e magra, segundo ela. “Não é à toa que o mercado de cirurgia plástica no Brasil é um dos maiores do mundo”, diz.

    Sem ‘celebrar a diversidade’

    Em mais de 60 edições, apenas cinco mulheres negras foram eleitas Miss Universo até hoje. A proporção mostra que, apesar do que a organização anuncia e das candidatas de diferentes etnias serem oriundas de 80 a 100 países, o Miss Universo tende a premiar o mesmo padrão de beleza.

    Para Heloisa Buarque de Almeida, o fato de a suposta diversidade do concurso terminar selecionando o mesmo padrão significa que não há diversidade real nele.

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