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Como funcionam e quanto custam as reservas internacionais do Brasil

País tem US$ 373 bilhões guardados para se proteger de crises externas. Entenda como essa poupança ajuda e por que gera prejuízos

 

A eleição e a posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos impactaram o valor do dólar em quase todo o mundo nos últimos meses. No Brasil, esses movimentos da moeda americana são sempre acompanhados pelo Banco Central, responsável por supervisionar o mercado de câmbio no país.

O Brasil adota, desde o fim dos anos 1990, o regime de câmbio flutuante e se compromete a não fixar um valor para as outras moedas em reais. Mesmo assim, a instituição atua eventualmente comprando e vendendo moeda estrangeira. A intenção é evitar variações bruscas em seu valor, que podem fazer preços variarem ou dívidas dispararem ou despencarem rapidamente, por exemplo, prejudicando empresas e causando incertezas na economia.

A instituição geralmente vai contra a maré quando precisa evitar oscilações bruscas do dólar. Vende para evitar altas fortes e compra para evitar quedas acentuadas.

Isso é possível porque o Banco Central tem dólares disponíveis. São as chamadas reservas internacionais. Seu valor varia diariamente de acordo, principalmente, com a atuação do BC no mercado.

US$ 373,9 bilhões

reservas internacionais do Brasil em 26/1/2017

O que são

As reservas internacionais são os recursos que o país tem em moeda estrangeira. No caso do Brasil, elas não são apenas dólares guardados em um cofre.

A maior parte dos dólares que o Banco Central compra é investida em títulos da dívida americana, considerado o ativo mais seguro do mundo. Há também depósitos em bancos internacionais e até ouro. São investimentos seguros e com liquidez alta, o que significa que em caso de necessidade, esses ativos podem ser vendidos e transformados novamente em dólar.

O atual montante de reservas começou a ser acumulado em 2004 quando, diante de um cenário internacional favorável ao Brasil, o Banco Central adotou a política de comprar dólares no mercado. A política colocada em prática visava recompor, ao longo do tempo, as reservas internacionais.

Para que servem

Cada país tem sua moeda, mas no cenário internacional, o dólar é a mais aceita, e considerada a mais segura. Cada governo tem sua máquina de imprimir seu próprio dinheiro, mas o lastro das reservas internacionais e, dólares são uma maneira de gerar confiança e garantir o valor da moeda local.

Protege em momentos de vulnerabilidade

Em momentos de crise, podem ocorrer queda nas exportações ou fuga de capitais. As reservas ajudam o país a honrar suas obrigações em dólar como importar produtos e pagar juros da dívida externa. Isso serve tanto para o governo quanto para empresas de um país, que podem ter dívida em moeda estrangeira ou necessidade de importação. Foi esse “colchão” de dólares que ajudou o Brasil a atravessar a crise de 2008 sem grandes sobressaltos no curto prazo.

Segurança ao investidor

O tamanho das reservas internacionais é um indicador importante da capacidade de um país e suas empresas pagarem sua dívida e honrarem seus compromissos. Isso é considerado pelas agências de avaliação de risco e investidores estrangeiros na hora de decidir trazer capitais para o Brasil. Quanto maior a reserva, mais segurança.

Diminui choques de câmbio

A capacidade do Banco Central de atuar no mercado de câmbio está diretamente ligada ao tamanho de suas reservas internacionais. Ele pode comprar dólares quando quer evitar que a moeda americana se desvalorize em excesso, mas principalmente pode vender quando precisa impedir uma queda grande do real.

Quanto custam

As reservas são uma poupança para o país, mas geram um gasto. É o chamado custo de carregamento.

Países emergentes têm taxas de juros maiores porque são mais arriscados. Por isso, o Brasil paga juros altos para pegar empréstimos e recebe juros bem menores pelos investimentos em títulos americanos - o risco dos Estados Unidos é considerado baixo.

A diferença entre os juros que o Brasil paga para captar recursos e os que recebe aplicando em títulos americanos foi, nos últimos anos, de mais de 10 pontos percentuais.

Além disso, quando há uma queda na taxa de câmbio, como em 2016, o valor em reais das reservas diminui.

R$ 324 bilhões

custo das reservas internacionais em 2016

Esse valor varia de acordo com a taxa de juros cobrada no Brasil e nos Estados Unidos. Com a Selic caindo por aqui, o Brasil deve pagar menos pelos juros de sua dívida e assim diminuir o custo de carregamento das reservas internacionais. Há também a expectativa de que os Estados Unidos aumentem seus juros ao longo de 2017, o que também pode dar um alívio.

O custo gera discussões sobre quão grande precisa ser a reserva brasileira. O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, disse recentemente que pretende rediscutir o assunto. Mas avisou que só fará isso quando passar a fase da “incerteza”.

“Acho que temos de fazer esta discussão depois de passar essa incerteza. Estamos em uma fase de incertezas maiores que a média. As reservas têm um papel relevante agora, de dar segurança. O custo tem de ser avaliado em algum momento”

Ilan Goldfajn

em entrevista à 'Folha' em agosto de 2016

Reservas em momentos de crise

A maior crise do Plano Real aconteceu no fim da década de 1990 e teve as reservas internacionais como ponto central.

O mundo vivia as crises da Rússia e da Ásia, com o aumento da desconfiança sobre os países emergentes. Nesse contexto, os investidores começaram a fugir de mercados como o Brasil, o que aumentou a procura por dólares e a oferta de moedas emergentes. Um dos resultados disso foi uma pressão pela desvalorização do Real.

No entanto, o câmbio no Brasil na época era fixado pelo Banco Central. Para evitar a perda do valor do real, a instituição agia pesadamente no mercado oferecendo dólares ao preço definido. Como as reservas internacionais não eram grandes, o mercado acreditava que a política não ia durar muito tempo - o que tornava a troca de reais por dólares um negócio com enorme potencial de lucro.

Essa desconfiança incentivou os chamados ataques especulativos ao Real. Os investidores correram para trocar reais por dólares pelo preço fixado, o que pressionava o preço da moeda americana para cima e obrigava o BC a oferecer mais dólares para manter o valor fixado.

Em 1999, depois de vender quase todas as suas reservas internacionais tentando controlar o valor do dólar, o Banco Central teve de desistir do regime de câmbio fixo. Após a liberação, o dólar foi de R$ 1,20 para R$ 1,98 em apenas um mês.

Os dólares que o mercado comprou por R$ 1,20 em janeiro daquele ano, puderam ser trocados por quase R$ 2 em fevereiro. A recuperação das reservas internacionais demorou pelo menos cinco anos.

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